Entre a Terra e o céu
Capítulo 6 - Mudança
Eu não dormi direito essa noite. Pensamentos perturbadores se infiltraram em meu sono. Pessoalmente eu estou preocupada. Eu não havia parado pra pensar nisso, mas... A Shikon no tama é um caso grande e gerará muita repercussão tanto positiva quanto negativa. E tenho que me precaver... Me preparar... E foi pensando assim que eu acordei hoje pela manhã. Tomando pelo lado positivo... Bem, pelo menos eu não pensei no Sess.
Levantei-me devagar e tomei banho ainda com a cabeça fervilhando.Pus uma roupa confortável dessa vez e fui para a sala. Inuyasha já estava acordado e parecia ansioso. Perguntando-me sobre como ele conseguia ficar acordado, e pior, animado àquela hora da madrugada eu lhe dei um sonolento "Bom dia" e entrei na cozinha, ligando a cafeteira.
Meia hora depois e já com uma imensa quantidade de cafeína circulando pelo meu organismo, nós estávamos no meu carro ao som de Crazy do Aerosmith, rumando para o shoping mais próximo. Durante a manhã eu descobri várias coisas sobre Inuyasha, por exemplo, que ele odeia experimentar roupas, mas tem um estilo bastante esportivo. Descobri também que ele é fã de massa, mas não gosta de berutte. E, sobretudo, que não é recomendável sair com ele a não ser que você esteja disposta a suportar olhares invejosos cravados em suas costas...
E com muitas sacolas de roupas masculinas e uma camisola nova para minha coleção, sim, eu sou uma compulsiva por camisolas, nós voltamos para casa e eu me enfiei de cabeça naquele CD, agradecendo a Deus por não ter que ir à redação. Era umas quatro horas e meu estômago doía lacerante quando eu me permiti parar para almoçar. Inuyasha havia acabado de voltar sabe-se lá de onde. Eu até cozinho bem quando quero apesar de normalmente comer na rua, mas o resultado foi bastante bom. E a preocupação crescia dentro de mim.
Já passava das cinco quando a vontade de ligar pra alguém se tornou insuportável e me sobreveio a idéia de Miroku. Rapidamente liguei para ele do celular e comecei a compor o primeiro artigo da série, agora já com e esqueleto pronto. Inuyasha apenas observava a minha agonia.
Era umas sete e meia quando Miroku apareceu com a sua máquina fotográfica pendurada no pescoço. Um riso malicioso encheu o seu rosto ao ver Inuyasha, dessa vez devidamente vestido e, antes que ele pudesse pensar demais eu o levei para o meu quarto e contei a história toda omitindo apenas a parte da missão de Inuyasha, afinal já era humilhante o suficiente sem ele saber.
Como era de se esperar, no início ele achou que eu tivesse bebido e ficou tentando abrir minha boca para conferir o hálito. Eu, como já sou bastante desconfiada com as intenções dele afastei o rosto e desatei a rir da insólita cena. Não contente ele encasquetou que eu estava com febre e quis passar a mão no meu colo para verificar a temperatura. Eu, obviamente não deixei, então, no fim, ele limitou-se a apenas exclamar "Uau, que loucura!"
- É, minha vida está uma loucura mesmo. - concordei suspirando e antes que eu ficasse triste ele mudou de assunto.
- E então, como é ter um anjão desses dentro de casa? Você já o viu tomar banho?
- Miroku! - eu lhe censurei indignada para depois ceder ao riso diante da expressão maliciosa dele. - É... é bom. - concordei por fim e o sorriso dele aumentou consideravelmente. - Hei, mas isso não quer dizer que eu o tenha olhado no banho! - protestei.
Outra vez Miroku riu e viu a camisola sob a cama.
- E quando você vai estrear essa aqui para minha dama? - ele pegou a máquina e começou a focalizar certas partes do meu corpo ao que levou um tapa.
- Nunca! - respondi acidamente. - Uma vez já é castigo o suficiente para o resto da vida.
Ele fez cara de bravo com a minha declaração, mas quando percebeu o tom provocativo voltou a rir.
- Não custa tentar, né?
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O jantar foi agradável principalmente por Miroku tentar me apalpar toda vez que eu encostava e Inuyasha lhe responder acidamente toda vez que ele lhe dirigia a palavra e trata-lo com a alcunha de fotógrafo tarado.E é claro, isso sem contar a parte que Inuyasha ameaçou capá-lo se ele encostasse em mim mais uma vez e daí por diante ele dirigir olhares medrosos e desconfiados para Inuyahsa. Por Deus, eu não podia ter um anjo da guarda mais sociável?
Apesar de tudo, no fim Miroku acabou me convencendo a ligar para Kouga, um amigo meu, corretor de imóveis e pedir que ele arranjasse um apartamento para que eu alugasse o mais rápido possível. Miroku estava convencido que eu precisava me mudar. Eu decidi que faria isso no outro dia pela manhã e aproveitei para pedir mais conselhos a ele.
- Eu acho que você devia pedir ajuda ao Sesshoumaru.
Eu fiz uma careta e Miroku riu argumentando:
- Pense comigo, Kagome, no Cd tem muita informação, mas você mesma percebeu que não há tudo lá.E pra fazer suas reportagens você precisa de nomes, datas, conexões, enfim, informações às quais o Sesshoumaru tem acesso lá no Serviço secreto.
Diante de tais argumentos eu me calei e Miroku interpretou erradamente o meu silêncio:
- Você acha que ele pode estar ligado de alguma forma?
- Não! - respondi chocada com a possibilidade. Sesshoumaru era um bastardo ciumento, mas jamais se envolveria em um esquema daquele.
- Então você deveria procurá-lo e pedir ajuda.
- Acho que você tem razão. - admiti por fim.
Tempos depois Miroku foi embora (não sem antes tentar uma gracinha sob o olhar perfurante de Inuyasha) e eu sentei no sofá perto do meu anjo. Estava exausta, mas queria conversar com ele
- Hum, Inu, você concorda com o Miroku?
Ele arqueou um pouco a sobrancelha na encenação de pensar e respondeu:
- Eu concordo com o tarado que você vai precisar de ajuda. - ele me encarou como se tentasse me decifrar - Se você confia nele... é uma boa forma de se aproximar também.
- E você, é claro, não tem nenhum interesse nisso. - eu ri baixinho, mas ele ficou sério.
- Você me pediu um conselho e eu dei.
Por algum tempo nós ficamos assim, parados, imersos em nossos pensamentos. Não sei precisar o exato momento em que adormeci, mas consigo lembrar dos braços dele me levando para a cama e pousando um gostoso beijo em meus lábios.
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Acordei no horário habitual e me sentia bem disposta, pois finalmente tivera uma boa noite de sono. Apesar disso a preocupação não tinha sumido principalmente por causa das palavras de Miroku e eu decidi ligar para kouga tão logo terminasse o café.
Inuyasha dormia na sala usando um short preto e eu corei ao vê-lo assim tão despojado... Penso que esse tipo de reação está freqüente demais... Fui para a cozinha e fiz um delicioso suco de laranja com torradas para mim. Não demorou muito e Inuyasha entrou na cozinha bocejando. Ele podia ser um anjo, mas relutava bastante em acordar... De toda forma eu protegi o quanto pude, mas não houve jeito, a torrada mais bonita acabou indo parar nas mãos e na boca daquele ser sem coração. Anjos, pra que eles existem mesmo?
- Bom dia! - ele me cumprimentou e essa foi toda nossa comunicação durante o café, exceto a parte dos olhares fulminantes que eu lancei nele por causa da minha pobre torrada indefesa.
Terminando a refeição eu fui para a sala e peguei o telefone, disposta a ligar para Kouga. O Inuyasha, no entanto, não saía da minha cabeça. Eu não posso negar que estava sem-jeito com ele e acho que ele também se sentia assim comigo. Mas, pudera, ele é um anjo! Deve estar sendo bem pior pra ele e eu, bem, eu já estou suficientemente enrolada com homens normais. Pensar nisso me trouxe outras questões: anjos não deviam ser capazes de sentir coisas como desejo ou atração. E definitivamente havia algo mais em Inuyasha... Eu tinha sensação de que ele não me contara tudo. Eu estava perdido nesses pensamentos quando Inuyasha assomou da porta da cozinha perguntando:
- Há algum problema com o Kouga?
- Problema? Como? - perguntei de volta.
- Você está parada a meia hora com esse telefone na mão e o olhar perdido. - ele me olhou inquisidoramente e eu tive calafrios - E ontem, quando Miroku lhe sugeriu isso você fez uma cara...
Eu abaixei minha cabeça por um instante. Como ele podia me conhecer tanto?
- É que o Kouga é, digamos, possessivo demais. - eu limitei-me a dar uma explicação curta e falei mais para mim do que pra ele - Mas se eu não tenho outra escolha...
Disquei o número rapidamente para não ter chance de desistir e a ligação foi atendida no segundo toque. Uma voz máscula e sonora me disse;
- Residência do kouga.
- Ah, bom dia, Kouga, como vai? - eu torci para que ele já tivesse se recuperado do fora que eu lhe dei. - Aqui é a Kagome, lembra de mim?
- Sei perfeitamente quem você é, kagome. Bom dia.
Eu mordi o lábio inferior para evitar uma resposta malcriada e segurei um suspiro. Aquilo era o cúmulo da dor de cotovelo!Pelo visto ele ainda estava chateado. Impaciente com a minha demora em pronunciar-me ele se adiantou:
- Então, Kagome, em que posso te ajudar? - Dessa vez o tom era bem mais gentil e eu suspirei.
- Bom, Kouga, eu estou com uma notícia um tanto bombástica pra ser publicada e achei que era seguro eu sair daqui de casa por uns dois meses.
- Oh, Kagome, por que você não deixa essa história de jornalismo de uma vez e casa comigo?
Dessa vez apesar do lábio sangrando eu não pude evitar a rispidez na voz:
-Eu não vou voltar a esse assunto com você, Kouga. Eu só preciso de um lugar onde possa passar um ou dois meses, aqui em Tokyo mesmo. Afinal, você pode me ajudar?
- Eu sempre te ajudo não é? - eu pude sentir a resignação da voz. Pobre Kouga... - Te ligo às 12hs pra te dizer para onde você vai.
Soltei um grande sorriso de alívio.
- Obrigada kouga! Você é um grande amigo.
Eu desliguei e sentei no sofá tencionando conversar com Inuyasha sobre a mudança, mas ele já estava trazendo sua mala, prontinha, para a sala.
- Como, quando você fez isso? - perguntei
- Eu estava sem sono ontem e precisava fazer alguma coisa.
Eu não precisava nem perguntar o motivo da insônia.
- Escuta, Inuyasha - eu desviei a conversa desse rumo perigoso - Por que você sabia sobre o Sesshoumaru e não sabia sobre o Kouga?
- É que, quando eu fui huma.. Quando me mandaram para cá eles apagaram tudo que eu sabia sobre você exceto a parte do Sesshoumaru.
- Ah... - calei-me, notando que ele ficara desconfortável com a pergunta e que cortara uma palavra no meio. O que será que ele ia falar?
- Hum, Kagome, não é melhor você ir fazer as malas?
- Ah, claro. - concordei e saí da sala levando o telefone.
Arrumar as malas foi uma tarefa tediosa que me ocupou por quase a manhã inteira. No fim, além de roupas e outros itens normais eu soquei as minhas camisolas favoritas, o meu porta Cd, o livro que estou lendo nas malas e liguei para Sango combinando que ela viesse para cá a fim de não deixar a casa sozinha.
Pontualmente ao meio dia Kouga me ligou para dizer a resposta. Com muita procura e alguma sorte ele achara um apartamento mobiliado em um bairro tranqüilo de Tokyo. Ele passaria aqui às três horas pra me levar lá junto com a bagagem. Sairia um pouco caro, lógico, mas eu não me importei. O alívio valia o preço.
Com as malas já prontas eu me vi sem nada pra fazer então pus um Cd de SES e fiquei treinando uns passinhos sob o olhar depreciativo de Inuyasha. Ora, eu só tenho 23 anos... Será que ele não dá um tempo? Fui salva do seu comentário reprovador pelo toque da campainha: Sango chegou com as malas dela, muito contente por ter onde ficar já que fora despejada.
Grata por ela ter aceitado meu convite eu lhe mostrei a casa e lhe instruí sobre o que havia na despensa. Em um acordo tácito nada foi dito acerca do CD. Depois de por as malas no quarto fazendo piadas infames sobre Inuyasha ela foi conversar comigo na cozinha.
- Então, como você fará em relação às refeições? - indaguei curiosa já que Sango era horrível na cozinha e normalmente pegava marmita.
- Não sei. - ela me respondeu franca e completou solenemente - Acho que dessa vez terei de cozinhar.
Não resisti à tentação de provocá-la e entre risos a apresentei ao fogão, perguntando como um desafio:
- Então, você sabe mesmo operar essa coisa?
- Sei! - ela me respondeu com um sorriso confiante demais para ser natural.
- Ah, claro! - retruquei irônica, esquecida da presença de Inuyasha na cozinha. - E eu sou um anjo.
Sango riu perguntando "E como é que se dirige a um anjo?" e eu imediatamente me arrependi de ter dito isso pois Inuyasha se aproximou com um sorriso perigoso de escárnio nos lábios e sussurrou no meu ouvido:
- Isso não mesmo!
Revirei os olhos exasperada, pensando em vinte formas de matar um anjo da guarda e novamente fui salva de responder pelo toque da campainha. "Oh, divino ser que criou a campainha, muito obrigada!" Sem demora fui abrir a porta para me deparar com um sorridente Miroku e "sua dama" parados na soleira. Ele entrou e me seguiu para a cozinha, fechando a porta.
- Vejo que hoje é dia de reunião familiar - brinquei com meu amigo, mas ele não deve ter percebido, pois olhava fixamente para Sango.
- Uau, kagome, onde você escondeu essa senhorita? - ele perguntou e Sango corou furiosamente.
- Sango, esse é o Miroku, não ligue ele não é certo mesmo... – eu apresentei e Miroku me deu um olhar de censura ao que Inuyasha apenas ria com o canto da boca. - Cuidado com ele Sango, pois esse rostinho bonito esconde muitas coisas...
- Kagome! - ele me cortou e se adiantou para falar com a garota ao que eu resolvi deixá-los sozinhos.
- Venha, Inuyasha, me ajude com as malas. - eu saí da cozinha puxando um curioso Inuyasha e ri comigo mesma. "Eu, dando uma de cupido?"
Alguns minutos depois nós voltamos ao recinto e os dois estavam absortos em uma conversa. "Ou mais provavelmente ele está tentando convencê-la a posar para ele" Pouco depois um sonoro “paf” se fez ouvir e eu vi os cinco dedos de Sango avermelharem a bochecha esquerda de Miroku.
- Que tipo de mulher você acha que eu sou para aceitar uma proposta dessas?
Inuyasha me olhou com cara de quem havia ganhado uma aposta e eu resolvi apartar a discussão e conduzi a conversa para assuntos menos arriscados. Uma olhada em Sango, no entanto provou para mim que o convite a lisonjeara apesar de todo o escândalo.
O meu celular tocou anunciando a chegada de Kouga . Eu me despedi de Sango e observei que ela enrubesceu quando Miroku fez o mesmo. Lá embaixo, Kouga me esperava com um longo sorriso e eu guardei minhas malas e as de Inuyasha no meu carro e dei a chave à Miroku rezando para que ele dirigisse bem. Eu, para minha infelicidade, iria com Kouga.
Não sei bem o que foi conversado durante a viagem, ou melhor, qual foi o monólogo que Kouga fez, pois estava ocupada demais pensando para prestar atenção nele. Nós não estávamos muito longe do centro da cidade quando ele parou em frente a um prédio e eu desci observando a fachada com náuseas. Aquela fachada era inconfundível...
Era o prédio de Sesshoumaru.
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