Entre a Terra e o Céu

Capítulo 16 – Tarde demais

 

As cordas machucavam meu pulso que formigava adormecido pelo aperto a cortar minha circulação. Diferente do pulso, no entanto, minha cabeça ia a mil, com cenas e pensamentos desconexos me impedindo de digerir as minhas próprias horríveis conclusões.

Ao meu lado a respiração de Sesshoumaru, não tão suave, era o único som risível no quarto frio em que nos encontrávamos. Ele estava lá, parado, em silêncio desde que subimos a escada, a lançar olhares de soslaio, alternando entre mim e o homem mal encarado que guardava a porta.

Era estranho como ele parecia nervoso para alguém que comandava uma queima de arquivo. Como se as coisas tivessem subitamente saído do plano. E eu logo me peguei fantasiando sobre o real papel dele ali, mas estava cansada de me enganar sobre aquele demônio de cabelos prateados.

Pelo que pareceram horas eu fui mantida ali, amarrada, em completo silêncio, tentando acalmar as batidas desenfreadas do meu coração ao mesmo tempo em que juntava as peças daquele complexo quebra-cabeças. Então um grito feminino soou e todos os meus esforços em parecer calma e compenetrada e não fraca e patética se foram.

Com o som, no andar abaixo o homem saiu brevemente da porta, descendo as escadas e só então vi Sesshoumaru se mover, checando o celular e digitando alguma coisa. Vergonhosamente não achei forças para prestar atenção na conversa, aterrorizada demais com o que me aconteceria para ter meus pensamentos desviados. Eu ainda lembrava dos fatos que se sucederam na sala antes de vir parar aqui, amarrada em meu próprio quarto.

Take a bow, the night is over

Agradeça, a noite acabou

This masquerade is getting older

Esta máscara está ficando velha

Lights are low, the curtains are down

As luzes estão baixas, as cortinas estão fechadas

There's no one here

Não tem ninguém aqui

(There's no one here, there's no one in the crowd)

(Não tem ninguém aqui, não tem ninguém aqui na platéia)

 

Ao ver a insossa minha primeira reação foi estagnar no fim da escada o que deu tempo do traidor do Sesshoumaru me alcançar. Eu senti mais do que vi dedos de aço se fechando novamente ao redor do meu pulso, mas não houve qualquer “deja vi” dessa vez.

“Então, vocês deveriam ter me convidado para a festinha. Acho que não estou vestida apropriadamente” Soltei minha fase engraçadinha da vez mas não houve resposta.

“Resolvi me adiantar”.Ouvi a voz monocórdia daquele desgraçado  falar, como se justificasse, e um sentimento de revolta começou a se avolumar em mim. Eu estava certa o tempo inteiro! A constatação fez meu estômago doer e meu corpo tremeu levemente, o que não passou despercebido aos olhos de rapina daquela mulher miserável.

“Já tremendo, querida?” A ironia, no entanto, não tinha  o dom de sequer  alterar a expressão fácil daquele monstro e eu tentei encará-la, mas doía demais minha humilhação, presa em minha própria casa, pelo homem que eu julgava amar e sua amante torpe.  “Não se preocupe, não vai doer.” Ela riu sem vida e eu não consegui reprimi uma careta de asco.

“Não acaba aqui, você sabe, Kikyou.” Respondi, mas era uma ameaça vazia, e ambas sabíamos.

“Acaba, pra você, querida.” Ela disse e eu observei os homens que tinham entrado com ela revistarem de forma cuidadosa a minha casa.

A frase pareceu ter um efeito maior em meu captor, no entanto, e o aperto se intensificou em meu pulso, deixando meus dedos esbranquiçados. Levantando os olhos deparei-me com a insossa segurando uma Rossi calibre 38 sob o olhar sério de Sesshoumaru que também devia portar alguma arma, mas não estava empnhando.

“Leve-a para cima, Sess.”  – A voz dela chegou aos meus ouvidos e eu não pude evitar um estremecimento. Seria agora? Assim? Em minha própria casa? “Eu chamo-o quando terminarmos.”

Sem responder ele apenas me arrastou pelas escadas e me levou para um quarto onde um dos homens da insossa prontamente me amarrou.”

 O terror lentamente me dominava até me ver capturada pelos olhos frios daquele monstro que chamei de amor. Ao contrário do que eu imaginava, porém, os olhos dele pareciam preocupados e ansiosos, mesmo fixos na vítima fraca e patética que eu era.

Eu estava perdida, tão absolutamente fraca e era subitamente cedo demais pra morrer contando tudo que não tinha vivido.

Senti me odiar naquele momento mas não pude conter a lágrima salgada de desgosto que desceu pelo meu rosto borrando minha visão daqueles olhos azuis.

“Não é hora de chorar, agora Kagome.” Ouvir a voz fria dele me enchia de uma raiva surda e eu prontamente retruquei.

“Você não esperava que eu tivesse sorrindo, não eh, Sess?”

O rosto dele se contorceu em uma careta e ele balbuciou coisas como “Não é possível que você...” mas se calou ao perceber a volta do guardinha troglodita da porta.

E a cada minuto eu entendia menos esse jogo perigoso que eu jogava.

 

*********************

 

Depois de alguns minutos de silêncio opressivo eu não agüentei mais segurar o questionamento  que raspava minha garganta.

“Porque, Sess?” E a minha voz saiu rouca de um choro silencioso que eu sequer percebera estar soltando.

O silêncio dele parecia um atestado ainda maior de culpa se a arma, o contexto, e todo o resto não fosse o suficiente, e eu continuei, simplesmente pondo pra fora todo o rancor, a raiva e a humilhação que me fustigavam.

“Porque se envolver nisso? Porque tanta dissimulação?”

Ele me deu um olhar de censura mas eu já tinha começado e não ia parar. Sequer notei o quão intensamente o fitava ou a presença do troglodita sem cérebro na porta, apenas queria entender os motivos de tudo aquilo.

“Porque as ameaças, o carro e tudo o mais se íamos acabar aqui? Porque me encher de esperanças daquele jeito?”

Eu chorava abertamente agora e mal registrei a saída do homem da porta para atender um grito da insossa. Pensei ter ouvido um tiro também mas já não tinha certeza de minhas impressões naquela cena de um filme de suspense de terceira categoria.

Ele se aproximou de mim e tocou minha face ao que eu afastei a cabeça enojada.

Say your lines but do you feel them

Diga suas falas, mas você as sente?

Do you mean what you say

Você deseja realmente dizer o que disse

When there's no one around

Quando não tem ninguém em volta

Watching you, watching me

Te assistindo, me assistindo

One lonely star

Uma estrela solitária

(One lonely star you don't know who you are)

(Uma estrela solitária, você não sabe quem você é)

 

“Nem tudo é o que parece, kagome” Eu ouvi sua voz sussurrada e o vi pegando a arma que eu já notara no bolso da calça. “ Confie em mim.”

Eu lhe retribuí com um olhar incrédulo e engasguei com um riso amargo.

“Fica meio difícil confiar em alguém na situação em que me encontro, não acha?”

Eu queria que ele me retrucasse, me desse algum tipo de explicação maluca, me dissesse que eu tinha entendido mal, mas ele novamente se voltara para o celular e parecia estar averiguando a razão do barulho. É, pelo visto fora um tiro mesmo, concluí, pela conversa, mas não consegui imaginar em quem ou porquê.

Ao click do fim da ligação sobreveio a nova chegada do troglodita da porta e dessa vez eu não perdi o sinal que ele fez me mandando descer.

Eu sentia um torpor estranho como se meu corpo tentasse se acostumar com as coisas que eu não podia mudar, mas ao mesmo tempo podia ser efeito da circulação sanguínea presa pelas cordas em meus braços, pernas e cintura que me prendiam à cadeira.

Antes de raciocinar sobre isso, no entanto, terror se insinuou novamente em minha espinha ao ver Sess se aproximar soltando as cordas e me puxar para baixo, pelo braço com a arma na mão.

I've always been in love with you

Eu sempre fui apaixonada por você

I guess you've always known it's true

Eu acho que você sempre soube que é verdade

You took my love for granted

Você tinha certeza do meu amor

Why oh why

Por quê oh por quê

The show is over say good-bye

O show acabou diga adeus

say good-bye, say good-bye

Diga adeus, diga adeus

 

 “Eu sinto muito.” Eu ouvi a voz dele de quem não sentia nada retruquei automaticamente, jogando pra fora o ódio que me consumia.

“Não você não sente. Você é uma droga de um bastardo canalha que não sente coisa alguma e precisa se esconder atrás de uma prostituta de luxo.”

“Você não sente nada e eu sequer sei como pude passar tanto tempo de minha vida te amando desse jeito.”

“Não era pra você ter se envolvido nisso kagome.” Ele continuou a falar ignorando minha explosão sentimental e eu subitamente perdi a vontade de discutir.

Nesse momento a voz da insossa se fez presente na sala e eu me calei ante aquela voz fria e perigosa que prenunciou um dos meus maiores medos

“Encontramos o CD.” Ela disse. “ E após, deu-me um sorriso maldoso que retribuí com um franzir de sobrancelhas e continuou dirigindo-se a mim: “tenho uma surpresinha pra você.”

E eu fui arrastada escada abaixo pelo troglodita enquanto os dois traidores seguiam atrás de mim.

E mais uma vez eu percebi o quão sádica da minha vida era. Nada havia me preparado para aquilo, mas lá estava Inuyasha, meu humanizado anjo da guarda, amarrado e jogado no sofá. E meus olhos se arregalaram ao perceber a mancha de sangue que se sobressaia na região do abdômen, manchando a camisa vermelha que ele usava.

E o choque de encontra-lo, ali, quando tudo já havia perdido o sentido, foi tão grande que esqueci de meu próprio terror e desespero ante aquela figura que apesar do pouco tempo eu amava tanto.

“Oh, Deus.” Balbuciei, horrorizada, e a insossa riu.

 “Não reclame tanto, kagome, pelo menos você vai ter companhia. Vão ficar juntinhos, os dois, pra sempre.”

E cheia de uma raiva irracional, eu nem sei como me soltei do troglodita que me segurava, e avancei naquela bruxa que arruinava pela segunda vez a minha vida e a do meu anjo.

“Você é um monstro!” berrei com toda minha raiva, sentindo mais uma vez os dedos de seshoumaru segurarem meu pulso. “Isso é inveja, não é, porque você perdeu sua chance ao escolher aquele político miserável. Deus, não tinha porquê, não o Inuyasha! Você já o destruiu uma vez, porquê envolve-lo nisso?

 “Deus, o Inuyasha!” Ela me imitou e a voz dela agora tinha resquícios de raiva contida. “Você sequer o conhece kagome! Você está ai chorando e esbravejando e ele nem mesmo ama você.” Ela fixou o olhar gélido em mim e eu retribuí a sua raiva com escárnio.

“O que você sabe sobre amor?” eu lhe gritei. “Você não ama ninguém! Você teve a chance de sua vida e a desperdiçou pra se jogar na cama daquele Naraku! Que tipo de lição você acha que pode me dar?”

Ela riu e olhou para Inuyasha que a despeito do ferimento estava acordado. E eu tive a sensação de que havia algo de podre ali. Algo que doeria demais. Algo que eu não queria saber.

Mas ela não ligava, como nunca ligara para minha dor e continuou a discussão.

“Pobre kagome iludida. Primeiro o Sess e agora... até mesmo o seu fiel Inuyasha. Você realmente não sabe não é?”

Eu a olhei e tentei não me amedrontar com a face cheia de escárnio dela mas era difícil e eu ouvi sua voz continuar a me apunhalar com minhas verdades doloridas.

“Conte a ela, inuyasha, conte, quem dirigia aquele carro.”

Incrédula, eu voltei a olhá-lo e a lágrima que descia pelo rosto dele foi como um soco no meu estômago. Eu senti o mundo rodar balbuciando tolamente enquanto relembrava o cabelo branco do motorista.

“Não, por tudo que há de sagrado, não.”

“Eu sinto muito, kagome, eu não queria”. Eu ouvi a voz dolorida do meu anjo da guarda e cada som era como uma punhalada no meu coração. Como poderia? Porque Deus estava fazendo aquilo comigo? Só podia ser uma brincadeira de mau-gosto, não era possível!”

Mas o rosto culpado dele e a voz me pedindo desculpas provava que sim, era real.

E mais uma vez a voz odiosa da insossa se fez presente com sua ironia cortante:

“Eu sinto muito atrapalhar a conversa sentimental de vocês, mas eu tenho umas perguntas a lhe fazer, kagome.”

Senti-a aproximar-se e tentei me afastar me batendo no peito do outro traidor que se posicionara às minhas costas no meio da conversa.

“O que foi, os aposentos não estão do seu agrado?” perguntei sarcástica e ela sorriu.

“Não é nada pessoal, kagome, mas eu preciso saber onde está a segunda cópia do CD.”

Meu sorriso esvaneceu um pouco e eu neguei com a cabeça a informação de que havia uma segunda cópia.

“É claro que tem uma segunda cópia, Kagome” Nem você é assim tão burra.” Ela cortou minha encenação e se afastou de mim.

“Eu disse que não ia acabar assim, querida.” Respondi com um sorriso também pensando nas duas cópias que se encontravam com Miroku e Myouga. “Não está aqui.”

Ela me  encarou mais uma vez e pareceu ensaiar um suspiro, mas voltou a falar:

“ De toda forma não importa. Sem você o CD não tem tanta importância.”

E eu gelei com o momento que aquela sentença prenunciava.

“Sess, ponha-a no carro. Meus homens já devem ter preparado tudo. Eu vou pedir a Haku para levar o rapaz.”

Ela virou para mim, maldosa e eu arrepiei com aquela voz eu já se tornara o som dos meus pesadelos.

“Agora você vai dar um passeio de carro, querida. Uma pena que você dirija tão mal.”

Eu a vi levar o celular, aparentemente usado como um Wakie- talk aos lábios e mais uma vez foi rápido demais para minha mente entorpecida processar.

Em um segundo eu estava em pé com o bastardo do Sesshoumaru segurando meus pulsos às minhas costas e no outro eu estava no chão com o braço esquerdo sangrado pelo ferimento de bala, enquanto a insossa e o bastardo traidor trocavam tiros pela sala.

E de repente tudo acabou. Os tiros, os resvalos, os vidros quebrando e eu levantei o corpo para ver a insossa no chão, ferida também no abdômen e Sess também no chão ferido  na perna.

Milagre dos milagres, havia uma arma a alguns centímetros de mim.

Esquadrinhei o local mais uma vez e vi que Sess ainda mantinha a arma na mão, então aquela só poderia ser a arma dela, kikyou.

Sem pensar peguei a arma e empunhei, estranhando o fato dos homens que a acompanhavam ainda não terem vindo socorre-la.

 

 

Make them laugh, it comes so easy

Fazê-los rir é tão fácil

When you get to the part

Quando você chega na parte

Where you're breaking my heart

Onde você parte meu coração

Hide behind your smile

Esconda-se atrás do seu sorriso

All the world loves a clown

Todo mundo ama um palhaço

(Just make 'em smile, the whole world loves a clown)

(É só fazê-los rir , o mundo inteiro ama um palhaço)

 

Wish you well, I cannot stay

Te desejo tudo de bom, eu não posso ficar

You deserve an award

Você merece um prêmio

For the role that you played

Pelo papel que representou

No more masquerade

Sem mais máscaras

You're one lonely star

Você é uma estrela solitária

(One lonely star you dont who you are)

(Uma estrela solitária, você não sabe quem você é)

“Acabou, kagome.” A voz entrecortada de Sesshoumaru chegou aos meus ouvidos e eu me levantei sem entender.

“Meus homens já renderam os homens dela.” Ele começou a falar mas minha mente não computava suas sentenças. Com o olhar encontrei Inuyasha caído no chão e vi que ele estava desacordado.

O sentimento de desespero voltou a me acometer.

Parecendo ignorar a dor da coxa baleada eu vi o chefe do serviço secreto japonês levantar e entrei em pânico. Ainda não terminara?A arma pesava na minha mão, mas eu ainda me sentia em pânico demais para solta-la.

Então eu vi sesshoumaru se aproximar cambaleante de mim e eu não podia suportar o medo e o pânico que isso causava. Como eu poderia saber se o que ele falava era realmente verdade? Como eu iria confiar nele depois de tudo?

“Não se aproxime.” Falei com a voz rouca  de choro e me afastei um pouco, tropeçando no corpo da insossa, também desmaiada no chão.

“Acabou, kagome. Largue a arma.” Ele voltou a insistir e eu voltei mais alguns passos.

“Fica longe bastardo” Eu retruquei de qualquer jeito, incapaz de lidar com qualquer coisa que ele fizesse naquela noite.

Ele continuou andando e eu estava quase no corredor que levava à cozinha. Olhei a arma na minha mão mas sequer tinha noção de como usava aquela coisa.

“Não se aproxime ou eu atiro.” Falei, a voz trêmula.

“Você não sabe nem apertar o gatilho, kagome, largue isso. Já lhe disse, acabou.”

Eu não podia suportar mais. De que lado ele realmente estava? Eu não sabia. Que garantias eu tinha? Nenhuma.

E então era mais uma vez cedo demais pra desistir.

“Kagome, baixe essa arma de uma vez.” A impaciência transbordou na voz dele e ele me alcançou.

All the world is a stage

O mundo é um grande palco

And everyone has their part

E cada pessoa tem seu papel

How was I to know

Como eu saberia

Which way the story goes

Que caminho a história iria seguir?

How was I to know you'd break

Como eu ia saber que você partiria

You'd break, you'd break, you'd break

Partiria, partiria, partiria

You'd break my heart

Partiria meu coração

 

E era tarde demais pra mim, tarde demais pra amar e tarde demais pra confiar. Eu não pensei apenas senti a proximidade e no reflexo, fechei os olhos. E atirei.

 

Continua…

 

NA. Bem, pessoal. Este é o penúltimo capítulo e não tive coragem de beta-lo. Então se virem algum erro crasso, por favor me avisem.

A música é “Take a bow” de Madonna.

 

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