Entre a terra e o Céu
Capítulo
15 – À beira do precipício
Por
um instante, o olhar de Miroku foi a âncora que me prendia à toda aquela
infernal bagunça de crime organizado enquanto eu tentava simplesmente não
pensar sobre o lugar onde eu estava. Já passara da hora daquele acerto de
contas, mas agora que eu estava por fazê-lo percebia o quão não-preparada
eu estava.
“Eu
acho que você devia deixar uma cópia na... Kagome?”
O
chamado de Miroku mais uma vez me tirou de um obscuro devaneio e eu suspirei,
tentando ao máximo me concentrar em permanecer viva, mas, ao que parecia, eu
não estava tendo muito sucesso nisso também. O que fazer quando aquela parte
negra da sua cabeça está prestes a explodir e trazer e volta todos aqueles
infindáveis momentos que você gostaria mais que tudo de esquecer? Eu me
sentia abrindo a porta daquela caixa de pandora da minha cabeça como alguém
que abre a porta de um avião em pleno ar, sem uma droga de pára-quedas. Céus,
era tão difícil, quando tudo que eu queria era abaixar a cabeça e chorar, e
desfazer aquele campo de batalha que eu criara com tantos diabinhos vestidos
de vermelho. Mas ainda havia mágoa demais e culpa demais naquele reencontro
comigo mesma.
O
braço de Miroku me fez perceber alguns espasmos do meu corpo e eu notei que
as lágrimas já enchiam meus olhos, tentando conter os soluços e,
inutilmente, me recompor.
“Chore,
K-chan. Deus, eu
sei o quanto você precisa.” O tom carinhoso do fotógrafo hentai chegou aos
meus ouvidos e eu me senti no limiar de uma tempestade que está pra desabar.
“Olhe
o que eu me tornei, Miroku! Tudo que eu faço nos últimos dias é chorar e
chorar e lamentar as minhas escolhas de merda e onde isso tem me levado? Eu
nem mesmo me reconheço mais!” Respondi um tanto histérica naquele tom
entrecortado e sem fôlego por causa das lágrimas que eu já começava
a odiar.
“Eu
acho que você está simplesmente se cobrando demais.” O tom sempre tão
centrado de Sango me fez perceber que estava fazendo aquilo de novo.
Simplesmente me descontrolando quanto devia estar pensando em livrar o meu
traseiro dos problemas futuros e não me remoendo pelos fantasmas do passado.
“Sabe,
é tão difícil.” Respirei
fundo contando até dez e soltando o ar na tática de relaxamento mais
conhecida que existia. Mas, mesmo o ar não tinha o condão de cicatrizar
velhas feridas, eu sabia, e só me restava esquecer aquela dor que hoje
parecia estar ali, desde sempre.
“Eu
me sinto tão perdida...” murmurei e baixei o olhar enxugando as lágrimas
que ainda se formavam. “Era pra ele estar aqui, me guiando, me ajudando, e não
ter simplesmente sumido por causa de uma transa estúpida. Sinto como se
tivesse perdido minha família de novo, e dessa vez por minha culpa!”
“Certas
coisas estão acima do nosso controle, K-chan.” Novamente a voz séria de
Sango a me centrar do que eu sempre fora e eu fui presa no olhar determinado
dela. – Você não o magoaria de propósito, ele deveria saber. Além do que
você está numa situação de estresse constante... se dê um desconto.
“Eu
sei.” Apressei-me em responder, agradecendo silenciosamente pela compreensão
dela. “Eu só... nunca imaginava que ele não soubesse o que estava
fazendo... na minha cabeça era ele quem tinha as respostas.”
“Nem
você tem todas as respostas, K-chan.” Miroku interviu novamente na conversa
com aquele jeito leve que só ele tem. “Eu
sei que você se esforça, mas nem sempre há uma fonte disposta a ajudar.
Ainda mais com esse seu charme de um elefante desembestado!”
Eu
ri fracamente com a sua tola tentativa de humor e assenti, recobrando o pouco
controle que me era característico.
“Bom,
algumas pessoas tem inveja do meu charme e carisma avalassadores.” Um
sorriso se fez meu agradecimento e eu voltei meu olhar para o Cd na mão dele.
“Você
parece precisar de um tempo sozinha pra pensar, K-chan.”
Miroku pôs o Cd em minha mão e fechou meus dedos no que era minha
taboa de salvação. “Pegue o Cd e entregue uma cópia para aquele seu
colega baixinho. Depois me ligue
e a gente marca de se encontrar pra acertar o resto. De toda forma, amanhã eu
passo na tua casa.”
Eu
sorri mais uma vez e agradeci enquanto pegava o pequeno CD seguramente em
minhas mãos e voltei meus olhos para o casal que se distanciava.
“Fica
bem.” Eu ainda ouvi meu fotógrafo tarado preferido dizer antes de seus
passos se afastarem rumo à saída, e vi as mãos dele se afastarem também
rumo a um território perigoso no corpo da Hacker.
“Esse
Miroku... nem em uma igreja!” O pensamento veio e a realização de que eu
estava finalmente só no templo de Deus me atingiu me deixando incerta sobre o
que eu deveria fazer. Eram anos de mágoas e culpas e dor.E logo eu estava
olhando para o altar, na iminência daquele ajuste de contas doloroso, mas
necessário.
Preparada
ou não, aquele era o momento de acertar as contas com alguém muito
importante.
************************
Sentei
no bando de mogno negro e respirei mais uma vez, sem saber como iniciar aquele
reencontro. Olhei o altar novamente e meus olhos prenderam na figura de cristo
crucificado, a chorar lágrimas de sangue. Suas lágrimas reverberaram em
minha mente associando-se as que eu vertera a pouco e eu baixei o olhar,
incapaz de olhar aquele pedaço de minha vida que eu perdera.
Minha mente girava em torno daquele anjo de olhos dourados e eu me
sentia constrangida demais para começar aquele conversa.
Uma
mão no meu ombro varreu os pensamentos de minha mente e eu me sobressaltei.
Com o corpo completamente tenso, eu virei a cabeça, esperando encontrar mais
ameaças, e me deparei com um bondoso rosto enrugado a me fitar. Imediatamente
relaxei, e a mudança em minha postura foi tão perceptível que vi o rosto
idoso se enrugar com uma preocupação estampada no olhar. Apesar disso senti
uma paz que a muito tempo não alcançava e que parecia irradiar daquele
velho.
“Precisa
de ajuda, filha?” Ele me perguntou e me deixei prender naquele olhar de
calma e serenidade que ele me presenteava, recolhendo minha bolsa para qe ele
pudesse sentar ao meu lado. Ele usava uma batina negra e seu sorriso bondoso
era como um sopro de ar na escuridão sufocante
em que eu caminhava.
“E
como preciso.” Respondi em um suspiro e ele permaneceu em silêncio,
sustentando o sorriso enquanto eu tomava coragem.
Após
uns dois minutos eu também sorri, sem graça, e desviei o olhar, voltando a
baixa-los para meu colo. Então, com uma pequena careta não visível
falei.“Eu não sei como começar.”
“Comece
do começo, filha.” O tratamento carinhoso quebrou a defesa mental que eu
ainda tentava manter e eu me vi levantando o olhar para fitá-lo, sem
conseguir deixar de pensar que ele seria um avô maravilhoso. Mas pensar em
família tinha um efeito estranho em mim e logo meus olhos marejaram e eu
soltei um sorriso cansado.
“Fazia
dez anos que eu não entrava em uma igreja, padre. Eu achei que ele tinha me
abandonado, sabe, depois que perdi minha família em um atentado e não
consegui retomar a fé que mantinha antes.” Ele continuava mantendo aquele
silêncio calmo e eu procurei vestígios de reprovação em sua expressão,
mas não encontrei então apenas forcei as palavras as saírem. “Hoje eu não
sei. Aconteceram algumas coisas que foram como um lampejo de esperança mas não
sei se estou pronta pra confiar...”
“Ele
nunca abandona as pessoas, criança. Mesmo que você tenha se afastado dele,
ele nunca se afastou de você.”
“Eu
sei, padre. Suspirei pesadamente,
mexendo a cabeça para tirar a imagem de Inuyasha que se instalara ali. “Eu
descobri isso a pouco tempo.”
“Então
qual o problema, filha?” O rosto enrugado fez uma expressão interrogativa e
o senhor passou um braço por meus ombros a me confortar.
Um
fio de lágrima escorreu por minha face e pingou na minha bolsa e eu sequer
notei. Levantei os olhos para o altar firmemente. Algumas respostas eram
importantes mesmo sendo tão dolorosas.
“Eu
não sei se consigo, padre, voltar a crer, depois de tudo que disse e fiz. É
tão fácil não acreditar, sabe,
só se deixar levar, sem se importar... E então eu não sei se ainda posso
voltar a ser a pessoa que eu era.”
“Eu
acho que todos merecem uma segunda chance, criança”. Ele me respondeu, seu
braço esfregando levemente meu antebraço em carinho reconfortante. “Talvez
você só precise ser a pessoa que você é.”
“E
se eu estraguei essa segunda chance?” Não pude refrear a pergunta que
martelava em minha mente. “E se eu fiz tudo errado de novo?” Virei minha
face angustiada para ele, a voz saindo em um tom amargo.
“Deus
é amor, criança.” Ele me sorriu um sorriso de intensos significados e eu o
acompanhei deixando a amargura sumir um pouco do meu coração. “Não
importa quantas chances você precise ele sempre estará de braços abertos
pra você.”
Eu
virei novamente para o altar e senti que ele se levantava.
“Eu
espero padre.” –Falei baixo, mirando tristemente os braços abertos
daquela imagem de dor e compaixão. “Porque algo me diz que precisarei de
muitas delas antes do fim.”
“E
você terá, minha pequena. Sempre terá.” A voz dele, já se distanciando pôde
ser ouvida e eu observei se afastar em um passo leve, como se flutuasse
naquela igreja tão sólida.
Eu
mirei o altar, dessa vez séria, sem chorar. Agora era entre nós dois. E
comecei uma pequena prece.
********************
Já
eram cinco horas da tarde quando saí da igreja rumo à delegacia, agora muito
mais tranqüila. No caminho, passei por uma lan-house e fiz duas cópias do
Cd, uma a ser entregue à polícia,
a segunda para voltar às mãos de Miroku que entregaria à Kaede; o original
ficaria comigo. Ainda, dei uma olhada nas minhas caixas de entrada de e-mails
mas nada de novo aparecera e eu resisti ao suspiro que queria escapar por
entre meus lábios. Eu ainda tinha esperanças que Kaede reconsiderasse mas
talvez fosse melhor assim. Eu precisava assegurar minha vida antes de voltar a
pensar na minha carreira.
Não
resisti ao impulso, porém, de enviar um e-mail para ela dizendo que eu já
estava de posse do CD e uma cópia dele estava sendo entregue à polícia.
Como a coluna era semanal, a retratação só deveria sair na próxima semana,
na sexta, o que me daria tempo de mostrar a prova a ela e, quem sabe, redigir
a última reportagem. Para isso só faltava uma coisa: eu descobrir quem era a
quarta ponta do Shikon no tama, no SIJ.
Ao
sair da lan-house liguei para Myouga e o avisei que estava a caminho da
delegacia onde tomaria oficialmente o depoimento e entregaria o CD. Ele havia
representado ao juiz federal da seção, que provavelmente julgaria o caso,
para que colhesse meu depoimento antecipadamente, frente ao risco de vida que
eu corria e tudo havia sido acertado. Então, às 17:30 eu deveria estar sendo
ouvida e, espero, tudo estaria acabado.
Eu
senti borboletas batendo nas paredes do meu estômago com a perspectiva de
resolver aquela confusão e ter minha carreira de volta, ou pelo menos
resolver aquela parte dos problemas que se encerravam no Cd, como minha demissão
e o encerramento do Inquérito policial. Infelizmente a outra metade dos meus
problemas, aquela que começava com cabelos brancos e seguia por carros sem
controle não se resolvia de forma tão simples.
Por
outro lado, a paz que eu sentira com aquele breve reencontro ia dando lugar a
velha amargura de quem é cético demais para acreditar em uma terceira
chance. Especialmente sendo abandonada pelo seu próprio anjo da guarda.
Ok,
então eu me sentia um casulo ansioso e amargurado.
Depois
de uns minutos de tráfego intenso no lado Oeste de Tókio eu estacionei o
casso em uma vaga a algumas quadras do prédio da sede da polícia federal em
Tókio e, com o bilhete de estacionamento no bolso, caminhei na direção do
moderno prédio espelhado, fora do setor administrativo da cidade. Ao contrário
do SIJ que tinha sua sede em um discreto prédio de quatro andares pintado de
branco, a atmosfera da Polícia Federal japonesa era opressiva: um monstro de
fachada espelhada e arquitetura arrojada. E se eu, que sou uma simples
testemunha me sentia totalmente intimidada pela opulência do local, não
quero nem pensar sobre como se
sentem as pessoas que estão sendo investigadas.
Armando-me
com os documentos que imprimira, o Cd e um sorriso que ao menos tentava
parecer confiante eu entrei pelo hall cinzento da repartição notando os
agentes que passavam de um lado para o outro, caras fechadas e pastas na mão.
Dirigi-me à recepção que era um balcão circular no meio do cômodo e fui
atendida por uma séria recepcionista que anotou meu documento de identificação
e meu deu um crachá, apontando o elevador quando inquiri sobre o escritório
de Myouga.
No
quinto andar novamente deparei-me com outra recepcionista, esta um pouco mais
bem humorada que me disse onde estava o cafezinho e me pôs sentada a
espera-lo voltar de uma reunião. Uns 10 minutos depois, pude vê-lo passar e
aguardei ser anunciada para em seguida adentrar a sala de paredes brancas e
piso cinzento espelhado. Alguém naquele lugar devia ter sérios problemas com
a aparência...
Os
cabelos também grisalhos de Myouga me saudaram atrás de uma mesa de madeira
escura e eu o cumprimentei com um meneio de cabeça, sentando-me na cadeira em
frente a ele. Antes que eu iniciasse ele se adiantou com uma pergunta direta,
porém calma.
“Por
onde você andou, Kagome? Fui ao endereço que você me deu e não lhe
encontrei, após fui ao seu trabalho e me disseram que você tinha ido pra
casa. Seu celular não atendia...”
Eu
sinto muito, Myouga-san. Eu fui meio que dispensada no trabalho e resolvi
passar uns dias em um velho templo da família. Estou tentando não receber
telefonemas estranhos também, então desliguei o celular.
“Sim.”
Ouvi-o suspirar e me lançar um olhar penetrante, completando: “Achei que
havia acontecido algo a você”.
Sem
querer sorri com escárnio pensando em tudo que havia acontecido. “E
aconteceu.” Respondi. “Sofri um acidente com meu carro e fui dispensada no
meu trabalho.”
“Acidente?”
Ele rebateu cético e eu novamente suspirei. Então ele havia prestado atenção
ao jornal.
“Na
verdade, creio ter sido um atentado. Deixei o carro no departamento de trânsito
para fazerem a perícia.”
Ele
pegou o tipo e o número da placa do carro para acompanhar o exame pericial e
o endereço do hospital onde eu tinha sido medicada após o acidente bem o
contato de algumas testemunhas do dia do acidente.
“Isso
é muito sério, Kagome.” Ele disse assim que terminou de colher os dados.
“Parece uma tentativa de homicídio.”
“Eu
sei” respondi nervosa e o fitei com intensidade. “Eles estão fechando o
cerco. Não sei o que fazer.”
“Acalme-se.”
Ele me disse com um tom de voz que parecia gentil e eu respirei fundo. “Eles
não devem tentar mais nada, levantaria suspeitas demais.”
“Bom,
também levantaria suspeitas a dez
anos atrás, Myouga-sama e mesmo assim não só tentaram como conseguiram.”
Não pude deixar de retrucar rispidamente.
“Não
sabemos de trata-se do mesmo grupo, kagome-san. Trate de se acalmar ou não
conseguirá prestar o depoimento.”
A
mudança de assunto serviu como um tipo de mantra para que eu me acalmasse e
eu finalmente apresentei ao oficial as provas que tinha colhido, bem como
entreguei-lhe o Cd. Ele finalmente sorriu aquele estranho sorriso torto dele e
eu o acompanhei sentindo que as coisas iam se ajeitar. Em seguida fui
encaminhada a uma sala privada onde fui posta com uma tevê e uma câmera bem
como outros aparelhos de transmissão. Ao que parece, eu prestaria meu
depoimento de forma virtual.
Engasguei
na hora do compromisso e tentei fixar meu olhar apenas no olhar objetivo do
juiz que me inquiria detalhes sobre as provas que eu tinha colhido e em
seguida sobre o atentado sofrido. Ao fim ele perguntou se eu tinha alguma idéia
sobre mais alguém que poderia estar por trás dessa operação, e eu
novamente engasguei, sem saber como externar minhas suspeitas. Eu falei-lhe do
SIJ, e dos telefonemas sem especificar a insossa ou Sesshoumaru. Eu aprendera
a lição sobre acusações sem provas.
Na
saída eu me despedi com a impressão de que o Meritíssimo Senhor Juiz Akedo
Iwasaka era uma pessoa impessoal e voltei à sala de Myouga.
Ele
parecia um pouco nervoso quando entrei e eu não entrei em detalhes sobre o
depoimento já que ele ouvira boa parte. Em seguida, ele me olhou um tanto
hesitante e perguntou sobre o que eu faria quanto a meu emprego.
Eu
fiz uma expressão intrigada e ele se apressou a explicar:
“Não
acho aconselhável que você retorne à redação, Kagome, vez que é um local
muito visado. Na verdade, o ideal seria que você se afastasse de tudo até 14
de agosto, que será a provável data do julgamento”.
Eu
fiz uma careta. Faltava um mês e meio para a data mencionada e eu sentia que
iria enlouquecer se ficasse todo aquele tempo em casa pensando nos meus
problemas sentimentais. “Não sei se posso fazer isso, Myouga. O meu
trabalho é tudo pra mim.”
Ele
novamente me fitou com impaciência e tentou soltar um suspiro que morreu na
garganta e eu me preparei para alguma idéia bombástica que justificasse todo
aquele suspense.
“Você
não percebe a sua importância para esse caso, não é Kagome-san? Você é
testemunha-chave desse processo. Se você não aparecer no dia do julgamento
para ratificar seu depoimento provavelmente essas pessoas vão se safar mais
uma vez. Então, o mínimo que espero é sua colaboração.” O suspiro dessa
vez saiu e eu me vi processando as palavras que acabara de ouvir do ponto de
vista dele. Não podia negar que fazia sentido.
“O
que você está propondo,
afinal?” Perguntei, ao fim, impaciente com todo aquele rodeio.
“Eu
acho melhor te incluir no Serviço de Proteção à Testemunha.” Myouga
soltou a bomba e eu sentei tentando digerir a notícia enquanto ele me
apresentava melhor a idéia. Um mês e meio longe de Tókio e tudo que eu
conhecia, sob um nome falso, sem contato com ninguém. Era difícil, mas o que
eu poderia fazer? Eu queira sobreviver àquela tempestade.
“Tudo
bem, Myouga.” Respondi desanimada e ele sorriu pra mim como um encorajamento
e desandou a explicar como isso seria operacionalizado.
“Você
me pegou de surpresa com sua ligação então não dá tempo pra arrumar tudo
pra hoje, mas amanhã mesmo eu farei sua inclusão e em seguida irei lhe
buscar pra te levar ao lugar onde você irá morar até o julgamento.”
Pelo
sorrisinho dele tenho certeza que ele me mandaria para Okinawa ou coisa assim,
sem internet, sem telefone e sem nada de interessante pra fazer, mas ainda
assim assenti e passei o endereço do templo pra ele. Após peguei minhas
coisas e levantei, cansada.
“Apenas
fique fria até amanhã, Kagome-san e tudo isso estará acabado.” Ele sorriu
com uma última piadinha e eu resisti à tentação de lhe mostrar um dedo
muito interessante. Acabado... sei.
No
carro, mandei uma mensagem pra Miroku contando a nova e tentei me acostumar
com a situação em que me metera. Eu me sentia a três passos
de um precipício mas era tarde demais para voltar e cada segundo me
deixava mais perto da beira.
Eu
só esperava não me machucar muito na queda.
*******************
O templo parecia uma paisagem de um retrato antigo naquele anoitecer de inverno e eu estacionei o carro, este um Renault Clio emprestado por Kouga já que o meu estava preso no Departamento de Trânsito para perícia desde o acidente.
A casa estava fria e silenciosa e eu entrei ligando as luzes de modo mecânico já imaginando minha nova despedida daquele lugar de doces lembranças. Resumi minhas atividades naquela noite a comer e arrumar minha mala que seria posta no carro no dia seguinte quando Myouga me buscasse para meu período de quarentena junto ao Serviço de Proteção à Testemunha. Em seguida fui dormir, fatigada de tantas emoções e sem querer me deparar com minhas eternas perguntas sem resposta.
Não
sei o que me acordou, se foi o cheiro esquisito que invadiu o quarto, ou
apenas o restinho que sobrara de minha pouca sorte, mas o fato é que eu
estava desperta quando um clique esquisito se propagou da maçaneta da porta e
a figura de negro assomou pela porta. O meu estado consciente, no entanto, não
me ajudou a conter o susto que foi ouvir a voz fria que tanto me arrepiava
ordenando com um pouco de pressa, enquanto me pegava pelo cotovelo.
“
Vamos, Kagome, levante, temos que sair daqui.”
Eu rapidamente me soltei quando a consciência de que o chefe do Serviço
Secreto japonês acabara de invadir minha casa e ao que parecia estava
tentando me seqüestrar e desci as escadas, disposta a pegar meu carro e ir
encontrar Myouga em Tókio porque minha situação estava certamente
complicada, principalmente quando me dei conta que aquelas ações
significavam uma coisa que eu tinha tentado ignorar de todas as formas até
então: era o Sess.
O
que levava a uma conclusão aterrorizante: eu estava morta.
Eu
não precisei chegar à porta, no entanto, pois quando cheguei ao sopé da
escada a cena que encontrei fez com que um arrepio de medo descesse pelo meu
corpo ao mesmo tempo em que eu senti que montava um quebra-cabeça em minha
mente.
Uma
cópia mais séria de mim, gentilmente apelidada de insossa, acabava de fechar
a minha porta da frente e me sorria de um modo que indicava problemas.
“Ora,
Sess, parece que você chegou primeiro dessa vez.” A voz fria dela ressonou
pela sala na penumbra e eu gelei consciente de que eu estava realmente
encurralada.
Não
me restava nada a não ser pular aquele precipício e tentar sobreviver à
queda.
Continua...