Nota da autora: Em primeiro lugar eu tenho que comentar sobre a demora desse capítulo. Eu sei que vocês já estão cansados com todas essas desculpas sobre faculdade, trabalho e vida pessoal então eu não vou me repetir apenas tecer a consideração sobre como foi difícil achar ao mesmo tempo o clima certo pra escrever o tempo necessário para isso. Somente hoje, desempregada há dois longos dias eu pude sintetizar as duas coisas e não foi fácil... Assim, agradeço a paciência de vocês em continuar lendo essa história. O próximo capítulo está, mais uma vez, sem previsão.

Ademais eu tenho que agradecer às pessoas que direta ou indiretamente me ajudaram nesse texto  e nesse grupo se insere à Sadie_Sil, escritora e amiga, a Suzi, que mesmo me esquecendo um pouco mora no meu coração e a todos que me incentivaram através das reviews. Obrigada. Mesmo. Então... bom capítulo!

 


 

  Entre a Terra e o Céu

Capítulo 14 – Pretérito Imperfeito

 

 

 

 

As luzes apagadas me saudaram de maneira nostálgica quando estacionei o carro ao lado do velho templo xintoísta. Pegando minhas coisas no porta-malas eu comecei a subir a longa escadaria me forçando a não sucumbir ao sentimento de melancolia que me assaltava.

 Minha mão tremia quando eu inseri a chave na fechadura, a sensação de voltar para casa se tornando insuportável na medida em que eu me via obrigada a confrontar meu passado. Eu não tinha uma casa pra voltar e o meu passado não havia morrido naquele acidente como eu quisera acreditar.

A porta abriu com um click e eu entrei decidida a deixar aqueles fantasmas para trás. Eu quase podia ver a garotinha correndo para o escritório e sua curiosidade infantil com as matérias do pai, e as lágrimas ousavam se acumular nos meus olhos. Mas eu não era mais uma garota e hoje eram as minhas próprias matérias quem eu veria naquele escritório enquanto pensava sobre  toda a grande enrascada em que eu me metera.

Felizmente a casa estava limpa, eu pagava a uma pessoa para mantê-la habitável. O cheiro de alecrim do desinfetante enchia minhas narinas trazendo velhas lembranças. Eu suspirei e liguei as luzes me jogando no sofá tentando não pensar na menina que rezava ao seu anjo da guarda. Era doloroso demais pensar em Inuyasha depois de tudo e ver as chances perdidas de ter uma família. O dia estava perto de amanhecer e eu lutava contra o sono. Ademais eu tinha medo do que poderia sonhar.

“Os passos leves ecoaram pelo assoalho enquanto a garota risonha descia os degraus de madeira. A luz estava acesa no  fim do corredor e ela seguiu para lá tomando cuidado para não respirar muito alto. Uma risadinha, porém , parecida com um chiado, saiu quando a garota de cabelos negros chegou à porta e arriscou uma olhadela.

Os olhos azuis esquadrinharam o local  e pararam no homem adormecido de mau jeito sobre a escrivaninha . A luz do monitor pendia acesa dando um reflexo amarelado no braço dele e ela comemorou silenciosamente. Finalmente! Era sua grande chance e ela não desperdiçaria. Pé ante pé chegou perto e começou a ler.

Que palavra difícil! Ela abriu a boca em uma reclamação muda “ pre-me-di-ta-do” o que será que aquela palavra grande queria dizer? A garota pôs-se a pensar, intrigada. Não lhe admira que seu pai tenha se rendido ao sono... com todas aquelas palavras difíceis... Suspirando ela decidiu terminar sua pequena aventura por ali e ir dormir então ela virou-se e andou até a porta já pensando em como contaria ao seu pequeno irmão, Souta. A voz soou grave e um pouco rouca atrás de si, e a garota empalideceu, parando.

- Kagome.

- Sim, papai. – a voz um pouco trêmula dela se obrigou a responder já imaginando um provável castigo. Seu pai não deixava que ela lesse o que ele escrevia, mas ela já tinha aprendido que ele era um jornalista e escrevia reportagens in-ves-ti-ga-ti-vas, ou que quer que isso quisesse dizer.

- Você não deveria estar na cama, mocinha? – o homem lhe perguntou e a garota empalideceu ainda mais.

- Eu queria ver. – ela começou hesitante com os olhos baixos e, quando o homem se aproximou ajoelhando-se à sua frente ela baixou os olhos.

- Não abaixe a cabeça, querida, não estou assim tão zangado. – ele desfez a severidade da voz e lhe sorriu. – Mas o que eu lhe disse sobre ler os meus textos?

- Não é pra criança ler... – ela suspendeu a cabeça e seus olhos marejados encararam os olhos negros do homem. – Não brigue comigo, pai. Eu só queria ver o que você escrevia.

Ele abriu um sorriso e a garota suspirou aliviada.

- Você gostou de ler tithen-pen?  - ele sempre a chamava assim e devia ser alguma coisa bem bonita.

- Hum-hum. – ela assentiu e permitiu ser pega no colo.

- Então seu pai vai lhe levar pra cama agora. – Ele apagou a luz e subiu a escada admirando o olhar de sua filha.

- Pai? – a voz sonolenta ainda se fez ouvir – o que é premeditado?”

As lágrimas escorriam livremente por meu rosto quando eu acordei som os raios de sol da manhã. “Doces lembranças” eu pensei vendo o assoalho de madeira ganhar cor saudando a luz do sol. O sentimento só durou, no entanto, até correr meus olhos para a porta trancada do escritório lembrando a voz desesperada do meu pai pedindo que eu me afastasse enquanto o fogo tomava conta do veículo tombado. “E dolorosas.” Acrescentei.

Resignada com a tristeza eu fui para o escritório me inteirar das notícias do dia e traçar alguma espécie de plano agora que eu sabia que Miroko estava de volta e podia reaver o CD. No NHK news uma reportagem falando sobre meu acidente saíra na capa do caderno policial e eu suspirei olhando os números do meu relógio. Inuyasha realmente sumira e eu devia me desligar um pouco de todos os problemas da minha vida pessoal e amorosa e pegar  o Cd na mão de Miroku além de me manter viva, é claro, o que era só o maior dos meus problemas. Com outro  suspiro eu peguei o aparelho telefônico da casa e disquei os 8 números que já sabia de cor.

O telefone tocou algumas vezes até cair na secretária eletrônica e eu dei um grunhido impaciente. Não era possível que aquele fotógrafo tarado tivesse sumido de novo! Então o meu celular tocou com um salto e a vibração insistente acendeu novamente a luz vermelha em minha cabeça a dizer “ não atenda” e eu julguei que o pesadelo havia recomeçado.

Por alguns segundos eu apenas observei a minha mão trêmula se dirigir ao aparelho vibrante  e a indecisão trouxe outro grunhido aos meus lábios entreabertos. Onde estava aquela garota corajosa que corria pela casa? Em que  espécie de mulher patética eu tinha me transformado?

O ar parecia preso em meus pulmões formando um bolo em minha garganta à medida que eu juntava coragem para olhar o visor e a imagem do anjo canino me assaltou. Eu nem tinha percebido o quão imprescindível ele era pra mim no pesadelo em que eu vivia. E o bolo de minha garganta se tornou insuportável quando a noção de que ele simplesmente evaporara de minha vida se substanciou no número “privado” que piscava no visor.

“Não é possível que ele seja tão covarde.” Eu tentei pela ducentésima vez me convencer de que ele voltaria sem sucesso. Eu sabia que estava sozinha de novo, um peão cansado no meio do tabuleiro, mas dessa vez eu não iria seguir as estratégias dos outros.

Desligando o celular eu rumei para a cozinha a fim de me alimentar um pouco antes de começar minha maratona. Um passo de cada vez e talvez eu conseguisse um cheque-mate. Em primeiro lugar eu achei interessante escrever um pouco sobre a história desde o começo.  Talvez clareasse minha mente sobre tudo que acontecera e ajudasse a não recair em lembranças dolorosas que aquela casa me trazia. Então eu me vi lembrando e organizando os fatos desde que eu acordei do infame jantar no apartamento do Sess...

Revendo as minhas lembranças deu pra contar todas as burradas que eu tinha feito desde que a história havia começado. Mas não dava pra exigir conduta diversa em certas ocasiões, pois eu era uma jornalista e não uma policial. Mas em todo caso, agora, com os pensamentos mais organizados já dava pra traçar uma linha de ação mais inteligente do que toda a confusão que eu fora capaz de armar.

Em primeiro lugar eu tenho que admitir que havia sido uma bobagem eu tomar tantas precauções quanto à moradia e telefone e não procurar proteção policial quanto às ameaças... mas com tantas suspeitas envolvendo o SIJ eu não podia simplesmente arriscar a polícia também. Em segundo lugar eu vi que esse não é realmente o momento de estar pensando na minha vida amorosa. Bem, mesmo com toda a falta que eu sentia de Inuyasha e tal  é inegável que meus problemas com ele e com o Sesshoumaru atrapalharam minha concentração e me deixaram distraída e, portanto, vulnerável nas investigações. Em terceiro lugar estavam minhas suspeitas quanto à quarta ponta da Shikon no tama que eu carinhosamente apelidara de inominável. Nos meus raciocínios anteriores eu havia deixado passar alguns aspectos da questão e eu não estava disposta a repetir o erro.  Eu iria partir apenas de uma certeza: a pessoa inominável  trabalhava no SIJ, eu só faltava eu descobrir quem.

Traçando essas diretrizes na minha cabeça eu me permiti uma análise mais impessoal sobre a situação no serviço secreto. É fato que eu dera meu celular a Seshoumaru, mas essa realmente não era uma prova conclusiva... foi uma bobagem eu tentar confronta-lo. Algumas palavras de Inuyasha sobre a insossa também me chamaram a atenção: ele me falara, quando bêbado, que a Kikyou era amante de um político. E se por um lado as questões todas convergiam ao SIJ, por outro, cada vez mais eu me via indecisa sobre quem era a pessoa que eu devia pegar.

Deixando a parte reflexiva de lado eu me espreguicei sobre a cadeira acolchoada e sorri ao perceber que já era perto da hora do almoço e eu ainda não comera nada. Meu estômago protestava já algum tempo e agora, um pouco mais serena, eu me vi disposta a cuidar desse pequeno contratempo doméstico. 

A cozinha me trouxe sensações boas que eu pensei ter esquecido e eu jurava que podia sentir o cheiro do bolo de cenoura que meu pai adorava quando entrei lá. Dessa vez, porém, a sensação não veio acompanhada do desespero das outras lembranças e sim de certa melancolia inevitável.  Vasculhando os armários que se faziam de despensa eu encontrei leite, farinha, massa para panquecas e cereais de chocolate além de leite em caixa. Havia uma mínima quantidade, possível apenas para uma refeição, pois eu há muito não vinha ali, mas por hora devia servir. Quando eu fosse encontrar Miroku na cidade eu abasteceria a casa de mantimentos e vegetais frescos, frutas eu recolheria no pomar.

Mas as coisas tendiam a não seguir qualquer planejamento quando se tratava de mim...

Mais uma vez o meu celular tocou. E dessa vez eu vi surpresa o número celular de Miroku piscar no visor. Certo, o trabalho primeiro, eu pensei e atendi a ligação.

- Kagome, eu soube o que aconteceu no jornal. Onde você está? – a voz inconfundível de Miroku, em seu tom impossivelmente cínico me perguntou e eu me permiti um sorriso.

- Pelo visto  Sango estava ocupada demais pra te passar o recado, não é? – eu respondi maliciosamente  e senti o riso silencioso dele no outro lado da linha.

- É, digamos que sim.

Eu sorri também antes de me voltar a um assunto sério.

- Eu estou no velho templo. – falei rapidamente. – Precisava pensar um pouco então vim pra cá. – Suponho que você esteja a par dos fatos. – tentei encurtar o assunto pois o medo do telefone não me abandonava.

- Estou em parte. – ele me respondeu. – Algumas coisas eu não tive tempo de perguntar.

- Oh, entendo – reprimi um riso.  – Vamos nos encontrar, então, em algum lugar.

-  Você podia vir aqui – ele sugeriu e eu declinei.

- Melhor não, Miroku, pelo bem da minha sanidade mental. Eu até imagino como seu apartamento deve estar já que você esteve tão sem tempo.

Ele deu uma risada entredentes antes de responder:

- Marque você, então.

- Eu sugiro que a gente vá em algum lugar público. – minha voz voltou ao tom sério no momento ao recordar uma das inúmeras recomendações de Sesshoumaru. – E que seja ao mesmo tempo bem policiado.

- Podíamos nos encontrar na Catedral. As obras de Kenzo Tange normalmente atraem muitos turistas e o policiamento é bom.

O pensamento de entrar em uma igreja depois de tantos anos me assustava, ainda mais depois de toda aquela história de Inuyasha. Mas eu não tinha muitas escolhas e talvez até me ajudasse a entender o que acontecera com o Inuyasha.

Patético. Eu tinha medo de acertar minhas contas com ELE... um suspiro se fez ouvir antes que eu assentisse e marcasse com ele às 4:00. Desligamos, então e eu fui cuidar da minha alimentação.

 

***************************

 

Eu estava nervosa. Corrigindo eu estava assustada e com medo e receosa em ter que entrar naquele terreno sagrado para uma fé que eu tinha renegado por longos 10 anos e que resolvera me por a prova sob a forma de um olhos dourados e longos cabelos brancos. O sol fustigava minha cabeça  enquanto eu permanecia parada olhando aquelas pesadas portas de carvalho incapaz de entrar e ao mesmo tempo sem poder dar a volta. Eu sentia que havia atraído alguns olhares de pessoas que decerto se perguntavam o  que eu fazia ali há uns bons minutos mas eu estava imersa demais em meu próprio conflito interior pra dar atenção ao olhar de quem quer que seja.

Um suspiro audível se fez ouvir enquanto eu tentava exorcizar alguns de meus fantasmas junto com o ar expelido pelos meus pulmões. A minha longa experiência, no entanto já me fazia ter o conhecimento de que o ar não nos dava força e muito menos levava embora dores tão antigas. Tentando manter meu andar firme diante da vasta gama de emoções que me assaltavam eu apenas percorri o pouco espaço que fazia toda a diferença entre estar dentro ou não.

Parei junto às portas de carvalho e a atmosfera lúgubre da igreja fez retornar a tremedeira do meu corpo de modo abrupto. Eu não imaginava assim, não mesmo, em minha cabeça Inuyasha estaria do meu lado e toda aquela confusão já teria acabado quando eu ousasse adentrar aquelas portas pra pedir perdão por ter duvidado. Mas não havia Inuyasha ali e a realidade é que eu estava sozinha com meus medos e traumas pra enfrentar a pra enfrentar a parte mais dolorosa do meu passo e não haveria anjo nenhum pra interceder por mim.

Atraída pela escuridão e pela brisa suave eu entrei e segui até o altar, os olhos queimando de lágrimas não derramadas por todos esses anos. Eu me sentia como se houvesse passado a vida inteira fora e voltava para casa com a incerteza de ser perdoada ou não e quando voltei meu olhar para o quadro que retratava a crucificação algumas lágrimas furtivas escorreram ao que eu na me incomodei em limpar. Só então notei a presença de Miroku, a alguns passos, sentado em um banco de madeira negra junto com Sango e me dirigi pra lá deixando aquela explosão de sentimentos de lado por ora.

Meu olhar recaiu para o CD na mão dele e uma cópia na mão de Sango. E envolta naquele sentimento bom de reencontro comigo mesma eu me vi acreditando que as coisas iam começar a se resolver a partir dali.

 

 

Continua...

 

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