Doces noites

 

 

 

Disclaimer:Nenhum personagem de Lord of The rings é meu. Isso é apenas uma homenagem...

Resumo: Na triste Mirkwood as noites de Legolas sempre parecem fadadas a serem a epítome de corredores frios e sombras que se movem. Mas mudar isso pode ser simples como um copo com leite e açúcar queimado.

Aviso: Essa fic foi escrita para o desafio de Inverno do Grupo Tolkien da Sadie Sil. Ainda não foi publicada pelo grupo mas é dedicada a mellon Gio que me pediu uma história com Legolas e Thranduil com Gênero livre e final feliz.


Os olhos corriam acompanhando as linhas vermelhas que se misturavam naquele mundo branco. Um suspiro intentou escapar-lhe dos lábios, mas as portas cerradas de sua fala não proclamaram o êxito de tão insigne desbravador. Mais um suspiro e o líquido branco assentou-se na caneca verde escura como tão escura já eram as árvores de sua terra.

Eu não conseguia dormir. Tristes sonhos adornavam as esperanças por trás dos meus olhos e feias bolsas escuras já se formavam, mas as pálpebras não se fechavam, testemunhas eram de noites insones de anseios não correspondidos. Quisera eu que a realidade fosse simples como aquele copo de leite quente.

“Quem está aí?” Ouvi a pergunta meio sussurrada e sorri ante o assomo da figura do novo guarda noturno. Não era um garoto, não havia mais garotos há certo tempo ali, mas era um jovem que há pouco trabalhava dentro do castelo, na inglória  tarefa de patrulhar aqueles noturnos corredores gelados.

O silêncio mais uma vez engoliu minha resposta e eu apenas aguardei uma iminente aproximação daquele rapaz de olhos tão claros e passos tímidos como eu.

O que faz... ah príncipe Legolas, mil perdões... eu ouvi a voz embaraçada do rapaz chegar aos meus ouvidos e não entendi aquele som de sincera devoção que dela emanava. Aquele tom me parecia muito mais adequado ao meu pai, o poderoso rei Thranduil do que a mim, simples servo e amante de suas vontades. Apressei-me então a encerrar tais lamúrias que por certo não deveriam se dirigir a mim visto que o pobre elfo não fez nada.

“Não me foi incômodo, Gillion. Estava apenas a pensar.” – suspirei com a lembrança dos amargos pensamentos que há pouco me habitavam.

“Quais grandes feitos de guerra povoam sua mente, vossa alteza?” – o rapaz me perguntou parecendo espantado por sua própria ousadia. Era um rapaz franzino, podia-se ver pela forma que o uniforme da guarda pecava em ajuste em alguns lugares, com cabelos de um louro escuro a descer finos até os ombros. Mas eram os olhos, sim, os olhos muito azuis que me traziam recordações de alguém muito amado: o pequeno Estel.

“Feitos de guerra que se encerram nessa xícara de leite quente.” – sorri com o assombro do meu interlocutor em perceber que diante dele estava um elfo insone.

“Problemas para dormir?” – ele perguntou parecendo já satisfeito por sua ousadia e eu lancei a sombra de um sorriso pelos meus lábios finos.

“Feias previsões de guerra, você sabe.” – eu respirei mais profundamente vendo-o  tomar a caneca de minhas mãos.

“Não é assim que conseguirá adoçar a noite senhor” – ele despejou o líquido branco na panela parecendo feliz consigo mesmo e eu acompanhei sua ação com atenção, vendo-o se empenhar em um ritual que para ele parecia conter algum tipo de mágica.

Parecendo não se importar com meu silêncio eu o vi despejar uma porção generosa de  açúcar na panela e mexer com a colher de pau até formar uma mistura rosada.

“Boas previsões precisam de um pouco mais de cor, o senhor sabe.” – ele me estendeu a caneca cheia de branco e vermelho em diferentes tons de gradação e voltou a sentar, aguardando que eu bebesse.

“Agradeço-lhe.” – respondi seu gesto e levei o copo aos lábios enlevando-me com a sensação de ser, naquele momento, apenas um elfo saboreando leite com açúcar queimado.

“Minha avó costumava fazer para mim, sabe.” – o rapaz falou parecendo me contar um doce segredo.

“Sábia ela, em atribuir tal doçura a essa vida que levamos”. – a voz sonhadora não parecia, de fato, minha.

“O tempo favorecia suas certezas, vossa alteza.”  – dessa vez ele suspirou, a voz ganhando um pouco de pesar e eu achei que aquele assunto já se prolongara demais.

“Nem todos têm essa sorte.” – completei e levantei pronto a sair, o copo já vazio pousado sob a mesa de madeira escura da cozinha. – “Boa noite, Gillion.”

“Boa noite, príncipe Legolas...” – ele sorriu de uma forma que fez meu coração se apertar de saudades a meu amigo humano. – “que sonhos doces lhe temperem o tempo.”

 Mas nem todas as noites têm o tempero de bons sonhos a lhe dizerem o fim.

 

 “Príncipe Legolas!” – a voz do supervisor da guarda interna chegou aos meus ouvidos e eu levantei apenas para ver o elfo passar pelo balaustre de entrada do cômodo e pisar firme sobre o piso de madeira escura da cozinha até parar em frente a mim, lançando um olhar de censura ao elfo ao meu lado que voltou ao corredor.

“O que há,  Hadrien?” – perguntei assumindo o papel que me era conhecido e o vi inflar o peito para contornar a própria respiração ofegante.

“O grupo de patrulha do posto avançado, senhor, a patrulha que veio de lá foi atacada pelo caminho. O mensageiro chegou a pouco, senhor, eles têm dois feridos e como o rei está no conselho...” – O desconforto do elfo era evidente em se ver obrigado em contrariar uma ordem direta então eu procurei tranqüilizá-lo.

“Eu cuido disso, tenente. Não precisa incomodar o rei. Diga-me, a que distância a cavalo se estima que está essa patrulha?”

“Algumas milhas na estrada do (norte – olhar no mapa), senhor,  que vem de Valle. No galope a viagem dura apenas duas horas e meio.” – eu assenti rapidamente traçando planos em minha mente.

“E de quem é a patrulha em apuros?”

“De Alagos, senhor.”

O peso de preocupação se abateu sobre mim ao mesmo tempo em que eu ponderava sobre o caminho a ser tomado.  Incomodar o rei na Alta Corte era inaceitável, então eu mesmo teria que formar um grupo e mandá-lo. E embora meu coração clamasse para que eu fosse socorrer meu amigo eu tinha total certeza de que o rei desaprovaria minha idéia. O caminho, no entanto, parecia marcado à minha frente... Eu não poderia descansar enquanto não soubesse que meu melhor amigo estava bem.

“Reúna um grupo de 6 homens, Hadrien. Eu mesmo irei buscar o grupo de Alagos.”

“Mas, senhor, a sua patrulha voltou ontem da missão!” – ele tentou argumentar, mas eu o calei.

“Não podemos perder tempo, tenente, faça o que foi pedido.” – eu o dispensei pedindo que fizesse os homens me encontrar em 15 minutos.

Se Ilúvatar me abençoasse o rei não precisava nem ficar sabendo dessa pequena aventura.

 

***********

 

 

“Capitão!” – o grito agudo de um de meus elfos me acordou do devaneio em que eu adentrava e só então percebi a vermelhidão do corte que adornava meu braço. Meio atordoado virei meu rosto em sua direção só a tempo de vê-lo cercado por quase uma dúzia de horrendas criaturas enquanto outro tanto impedia minha passagem enquanto eu me via obrigado a desobstruir o caminho à faca.

“Alagos!” – Gritei, girando o corpo em uma finta meio torta, vendo as criaturas avançarem cegamente em meu melhor amigo enquanto eu me via privado de meios para ajudá-lo. Estocadas e aparadas depois, com cortes renovados, a pilha de corpos sobrepostos no chão formava um caminho de puro desespero. Alagos, meu mais caro amigo, naquela sombria e esquecida parte do mundo, jazia rígido com o pescoço sob o fio de uma daquelas horrendas espadas curvas.

Alçando minha cabeça em todas as direções vi apenas eu e ele como sobreviventes naquele conflito desigual. O desespero começava a me consumir e eu quase podia assistir em câmera lenta a negra e afiada lâmina do meu inimigo lacerar as finas veias do pescoço de meu amigo enquanto meu algoz ria, saboreando o desalento que já dominava minha face.

“Você ou ele, capitão.” – a voz cruel se fez som de meus pesadelos e eu apenas me vi amargando a escolha que eu já não tinha.

O rosto de Alagos, sério como sempre me passava uma mensagem clara de advertência que eu ignorei como ignoraria sempre enquanto sacava disfarçadamente meu punhal.

E em um segundo o mundo se fez vermelho-sangue sob meus olhos e eu me vi envolvido em mais uma luta sangrenta de aparar e atacar com minha faca longa enquanto o orc brandia o meu próprio punhal em uma sucessão de golpes fortes onde tentava penetrar na minha defesa.

E em uma certeira estocada de velocidade o atroz inimigo caiu sob uma poça de sangue negro e o mundo virou escuridão sob meus olhos.

 

 

As labaredas da fogueira faziam reflexos estranhos em minha pele enquanto meus olhos lentamente ganhavam foco.

Eu estava confortavelmente deitado no chão duro ao redor de uma fogueira e, bem, o meu cabelo não doía se você pode contar isso como uma bênção. Porque o resto...

Lentamente curvei meu corpo ignorando os lampejos de indignação dolorida que meu corpo enviava e vi o olhar reprovador de Alagos soltar um suspiro que eu não imaginava mais que poderia sair.

“Ilúvatar, você vive!” – eu suspirei em uma constatação cheia de alívio, meus olhos enchendo de lágrimas enquanto os porquês se reviravam dentro de minha cabeça.

“Vivo e inteiro.” – ele me respondeu naquele jeito irônico tão peculiar e eu acenei com a cabeça ignorando tanto as novas pontadas de desaprovação do meu corpo com o movimento quanto àquela mancha branca na minha memória

“Como?” – perguntei obviamente querendo entender o que na minha cabeça ainda era um grande branco.

“Você não lembra, Las?” – ele me questionou e eu neguei enquanto ele acariciava minha mão de um modo que beirava o reconfortante.  Bem, ele nunca fora mesmo bom em confortar pessoas.

 “Eu me lembro de ver você sob o fio de uma espada, mellon-nin. E de pensar que eu não perderia mais alguém, independente das concepções desse alguém sobre me arriscar para salvá-lo.” – Dei-lhe um olhar duro que não condizia com o alívio que sentia ao vê-lo bem, mas que recriminava sua obstinação em me roubar o tempo com tolices.

“Você mais que ninguém conhece os erros que comete, Las.” – ele me respondeu  duro ao mesmo modo e novamente meus olhos encheram de lágrimas ao contemplar aquele dolorido campo de batalha, que tinha pouco mais de 4 elfos de pé, visivelmente abatidos.

“Eu mais que ninguém.”  – respondi com pesar. Algumas escolhas ainda pesavam de forma veemente, mas eu sabia que a culpa jamais abrandaria por tantas vidas perdidas.

Alagos, ao perceber o sombrio rumo dos meus pensamentos tentou se justificar, mas as palavras dele não eram culpadas por minha incompetência, eu sabia e essa certeza vil me gelava a alma me levando a todo o momento à dor de todas as vidas perdidas por aquela escolha errada.

“Não falava sobre isso, Las, você sabe.”  – ele tentou me confortar novamente, mas eu sabia que não merecia seu conforto. – “Era uma batalha. Alguns soldados têm que perecer pra que o reino viva no final.”

“Eles não eram simples soldados, eram meus amigos!” – gritei, a dor me consumindo de voz enquanto deixava meu corpo ajoelhar em abandono naquele chão áspero. – “Não espere que  eu compartilhe com essa visão distorcida, Alagos!”

“Você tem que compartilha-la ou nunca será um bom regente Legolas!” – ele me gritou de volta  e os meus defeitos nunca tiveram um peso tão grande quanto naquelas suas palavras fortes. – “Você sabe que o rei...”

“Eu não sou o rei, Alagos, e ambos sabemos que nunca vou ser. Eu não consigo ao menos cumprir minha função de capitão!”  – um sorriso amargo se desenhou em minha face e eu o aceitei lutando com as lágrimas que queriam escorrer por minha fronte. – “Eu sei que só trago desgosto a ele, mellon-nin, não seja mais um a me lembrar disso.”

“Você é o melhor príncipe que eu já conheci, Las, só precisa aprender a enxergar isso.”  – meu mais fiel amigo se ajoelhou ao meu lado enquanto tentava me fazer deitar, mas uma vez acordado eu já não via motivo para continuar naquela clareira escura.

“Não posso enxergar coisas que não existem.” – respondi me levantando de vez e  sentindo a tontura familiar de ter perdido muito sangue. Olhei pra baixo e vi que o campo de batalha não mudara, corpos ainda aqui e acolá, e os quatro elfos que viveram apagando os focos de sangue; e meu olhar interrogativo pousou no único sobrevivente da patrulha que eu viera salvar.

“Você só esteve desacordado por alguns minutos.” – ele respondeu. – “Depois do giro de corpo que você deu, conseguiu enterrar a espada nele e em seguida desmaiou. Só me deu tempo de suturar alguns de seus cortes.”

Ouvindo a resposta eu comecei a me movimentar, separando os cadáveres a fim de enterrá-los dignamente. Eram bons soldados que não mereciam o capitão incompetente que tinham. Não mereciam serem enterrados sem as honras que lhes eram devidas.

Foram horas arrumando e cavando e sobrepondo a terra e procurando os cânticos certos para os rituais, horas  em que me vi perdido na angústia e no desespero de minhas decisões inconseqüentes e na dor que eu causava a meus amigos.Por que? Por que eu ainda insistia em tentar ser alguém que eu obviamente não era? Quem eu queria enganar quando me achava digno o suficiente pra exercer o cargo de capitão e ter a vida de meus elfos em minhas mãos?  Valar, eu devia partir de uma vez e poupar o reino da vergonha de me ter como capitão, e poupar meu pai da vergonha de me ter como príncipe.

“Devia descansar Las, parece não dormir há uns dez dias.”  – Alagos passou a mão por meus ombros me trazendo de volta àquela realidade de dor e eu alisei a terra debaixo de mim agora que eu já concluíra o trabalho de enterro.

“O descanso só abençoa a quem o merece, mellon-nin.” – falei lembrando das inúmeras recordações tristes que me assolavam aos cerrar os olhos. O peso da culpa já não me deixava encontrar descanso nem mesmo nas boas amigas árvores que me cantavam lamúrias de esperança.

“Então, descanse, amigo meu, que não posso imaginar ninguém que o mereça mais.” – ele falou e eu suspirei de cansaço. Algumas certezas eram dolorosas demais pra serem findas por simples palavras.

“Não vejo nada que me faça merecê-lo.” – retruquei os corpos enterrados assomando em minha visão e com a mão erguida pedi mudamente que Alagos parasse de tentar me contradizer.

Com uma rápida checagem dos elfos sobreviventes desfiz os vestígios do acampamento e ordenei o retomar da viagem de volta. E o silêncio foi meu companheiro durante as três longas horas de caminho enquanto eu pensava no quão perto havia sido daquela vez.

 

 

 

As pedras refulgiam sob a luz do sol parecendo queimar naquele tom de verde-escuro e eu olhei a grande escadaria que levava à abobada da entrada principal. Saltei do cavalo do cavalo sem deixar de mostrar um sorriso cansado de quem não tem as respostas, nenhuma delas. Atrás de mim os elfos da guarda se preparavam, para levar os cinco feridos para a casa de repouso do palácio e eu dei a ordem calmamente sem nunca deixar de agradecê-los como determina o protocolo e o meu coração. Eles eram elfos valorosos, com uma lealdade infinita à família real, e apesar de eu não me sentir merecedor, alguns deles também eram meus amigos.

Ao terminar as formalidades, olhei em volta não surpreso ao ver que o teimoso Alagos ainda se encontrava ali, de pé, com aquela mesma expressão desaprovadora que parecia agora quase parte de si.

“Las.” – ele chamou e eu me voltei observando sua postura cansada. – “Você não deveria estar indo à enfermaria também?”

“Tenho relatórios para entregar , amigo . Não estou tão ferido quanto pareço.” – Minha resposta pontuou-se com um sorriso também cansado e eu encerrei a discussão . – “É melhor que tratar dos seus ferimentos , mellon-nin. Tenho que reportar ao rei .”

Não que eu não tivesse ferimentos também , nosso curador teria um colapso se visse o estado do meu corpo . Era mais como se eu não suportasse olhá-los e ver os golpes mal aparados e a minha sempre insuficiente habilidade de luta . Era mais como se eu merecesse as provas de todas as minhas culpas . Não ficariam cicatrizes , eu sabia, nada parece macular minha pele de alabastro , mas eu tinha que sentir as dores . E eu comecei a subir as escadas pensando na difícil conversa que , sem dúvida , me aguardava.

Logo após a minha chegada um mensageiro veio ter comigo, passando o recado de que o rei desejava esclarecimentos. Eu assenti e segui para o escritório pensando em quais pilares iriam me sustentar naquela dura conversa. Mas ao ver a escura porta de carvalho com o brasão do reino esculpido, ao ver os fios de ouro que a adornavam a me lembrar os cachos dourados do cabelo do rei, eu sabia que seria inútil. Meus pilares seriam sempre os mesmos e jamais foram aceitos nas certezas do rei. Ele era aquele que se sustentava em julgamentos de planejamento, austeridade, racionalidade. A mim, só abençoavam os julgamentos de amizade e instinto e eu certamente não precisava ouvir mais uma vez sobre o quão inadequado eles eram. Assim, quando a escura porta se abriu para me dar passagem eu me senti subitamente despreparado para essa conversa com eu sempre estaria.

“Entre capitão!” – a forte melodia daquela voz já fazia seus efeitos e eu senti todo o meu corpo estremecer enquanto dava o derradeiro passo para adentrar o recinto. Ilúvatar, e eu não estava ali há mais que três segundos...

Os meus passos leves ecoaram com o peso de dez toneladas enquanto eu me posicionava no centro da sala, de frente à escrivaninha de carvalho, com os baços para trás e a postura ereta como convinha a um capitão. Por dentro, porém, o meu corpo gelava ao encarar aqueles olhos de verde indefinida que sempre me traziam uma dolorosa emoção. E seja ira, raiva ou decepção eu sempre a bebia como um se sorvesse um néctar, pois era o máximo que eu tinha, migalhas de sentimento, naquela ressequida relação familiar.

“Suponho que tenha explicações para me dar, capitão.” – a voz imperiosa já mostrava as cartas daquele jogo doloroso. E eu me via subitamente sem nenhum ases na mão.

Eu podia dizer que havia uma patrulha em apuros. Podia dizer que ele estava reunido com o conselho na sala do trono e não podia ser incomodado. Podia dizer que no grupo tinham feridos que precisavam de apoio para serem transportados, mas eu sabia que nada disso seria a justificativa certa pra ele. Porque ele, como eu, sabia que a justificativa era ter sido o grupo de Alagos. E para ele essa não era uma justificativa válida.

“Não tenho. Pelo menos não uma que lhe vá ser válida” – respondi finalmente disposto a ouvir a dura reprimenda sem acordar as velhas discussões. Eu estava cansado e tinha consciência da extensão dos meus erros.  – “Majestade.”

Os dedos dele batiam na mesa com impaciência e eu olhei para baixo tentando não cair nas armadilhas daquela vez.

“Isso porque eu já conheço todas as suas justificativas menino. E conheço todas os atos descabidos que faz em nome delas.”  - o imponente rei da floresta escura me respondeu e apesar da resposta não diferir nas palavras de sempre doeu o tom de desaprovação completa da voz dele.

Meus  lábios cerraram, rígidos de apreensão em vista do conflito que se armara. Eu não ia agüentar, estava cansado e a visão dos corpos não me abandonava, os meus erros passando em um filme dentro de minha cabeça, eu não precisava daquele tom de decepção pra me lembrar o que eu era naquele reino. Pelo canto dos olhos eu vi o olhar do rei procurar pelo meu, mas me contive, olhos baixos, resistindo à tentação de banhar-me no seu olhar de ira e atiçar o os nossos sentimentos incandescentes.

“De quem era o grupo ? Quem era dessa vez , Legolas?” – eu o ouvi perguntar pelo meu nome e soube naquela hora que a batalha estava perdida.

Meus olhos subiram na esperança de beber um pouco a aura daquela figura mágica e roubar preciosos segundos de contemplação, mas fui tomado por um olhar férreo e não pude impedir as lágrimas se formando nos meus olhos claros. Nós simplesmente não nos entendíamos. Estava claro que eu era uma permanente decepção ali. Que só fazia errar e errar e desapontar os poucos que ainda acreditavam em mim.  Que naquela corte eu parecia muito mais o bobo que propriamente o príncipe.

“Era o grupo de Alagos, senhor.” – eu respondi, a voz tremida denunciando a tempestade já esperada.

“O grupo de Alagos, Legolas? Então você sai, no meio da noite, sem qualquer preparação e planejamento, contrariando ordens como uma criança inconseqüente, para buscar o grupo de Alagos?” – a ira já transbordava de sua voz agora e eu não tive opção a não ser enfrentar o agora verde escuro do seu olhar e aceitar a punição pelos meus erros.

A ausência de defesa parecia-lhe uma afronta e ele voltou a bradar em uma voz estrangulada  todos os meus erros.

“E se fosse uma armadilha, menino? E se fosse um chamado falso? E se você tivesse sido atacado pelo caminho também? Apenas com 6 soldados!” – aquela voz amada parecia agora um veneno a cuspir minhas desventuras. – “o que você faria, menino? Com um grupo pequeno, sem o conhecimento da guarda?”

Aqueles “ses” penetraram na minha cabeça a confundir  com o tristes quadros que lá habitavam e eu amarguei novamente o peso de minhas escolhas. E se tivesse acontecido qualquer dessas coisas? O que eu faria? Na hora me parecera o certo, eu apenas pegara meu cavalo e fôra, sem maiores ponderações. Mas não podia ser errado, alagos era meu amigo!

“Eu não pensei, senhor” – respondi, por fim, a voz trêmula de todas as possibilidades desenhadas.

“Esse é o problema Legolas, você não pensa ! Você não pensou no reino ou em qualquer outra coisa , apenas utilizou dessas suas justificativas inúteis pra dar asas à própria estupidez ”.

As palavras cortavam meu interior como facas deslizando pelo meu espírito e eu só desejava não ter as certezas que se escondiam ali. Mas eu tinha e isso doía ainda mais.

“Que tipo de príncipe eu sou se preciso incomodar o rei em um conselho importante por conta de uma patrulha atacada ? Patrulhas são atacadas todos os dias , senhor , nesse reino que tristemente chamamos de Mirkwood.” – à altura da última sentença minha voz saía lívida de tristeza e cansaço .

“Você sabe por que não foi convocado para o conselho, Legolas?”

A mudança de assunto foi tão brusca que minha mente cansada demorou de processar a pergunta.

“O que isso tem de relevante, senhor” – inquiri devolvendo a pergunta e carregando ainda mais o semblante já carregado de irritação de meu pai.

“Responda rapaz !” – ele bradou e eu me senti mais uma vez um elfinho sendo chamado a atenção .

“Não senhor.” – respondi por fim, rebatendo aquele olhar gelado.

“Por que eu não podia pôr alguém que não descansava a mais de dez dias na chefia de uma negociação tão importante.”

Um soco no estômago seria menos atordoante. Como ele sabia que eu não andava dormindo? E a voz dele continuava soando, apontando minhas falhas sem piedade.

“E sem dormir há mais de 10 dias você simplesmente se acha apto a comandar uma patrulha absolutamente despreparada no meio da noite em uma equipe de salvamento? Podia ter mandado outra patrulha e não ir você mesmo!”

Eu abri a boca pra retrucar, mas as palavras pareciam presas. Ele sabia, sabia da minha insônia e provavelmente dos motivos. As primeiras lágrimas já escorriam, pois eu já conhecia o desfecho desse conflito.Por que ele não podia compreender?

“Alagos é meu amigo , senhor .” – eu respondi tentando fazê-lo ao menos enxergar meu ponto de vista .

“É ai que você erra mais.” – ele falou no tom de decepção que parecia acompanhar nossas conversas.  – “Alagos é um soldado como qualquer outro. Não há espaço pra amizade nessa guerra só lealdade e disciplina.”

“Ada...” – eu tentei me desculpar mas um olhar dele me fez ver que ali desculpas não bastavam. Não havia espaço para amizades , eu quase podia senti-lo me dizer . Também não havia para amor .

E a porta aberta foi a clara indicação de que por um longo tempo eu não voltaria a ver meu pai.

 

 

************

 

As sombras pareciam me acompanhar enquanto eu percorria mais uma vez aqueles noturnos corredores gelados rumo à cozinha, traçando um conhecido caminho que eu percorria sem cessar ultimamente. Fazia quase um mês desde aquela noite em que eu chefiara um grupo de busca pra salvar a patrulha de Alagos e me desentendera com o rei. E fazia um mês completo que nenhum descanso me agraciava as noites insones.

O balaustre da porta da cozinha me brindou como um velho filme repetido, e eu suspirei, vendo a inutilidade também daquele ritual que insistia em fazer. Os olhos pesavam e as olheiras se pronunciavam a cada dia, mas nenhum sono vinha me agraciar ou quando os olhos eram fechados  apenas figuras de dor e tragédia penetravam em minha mente me fazendo acordar mais cansado e angustiado do que deitara. E minha exaustão já interferia até no meu paladar que já não suportava comida, especialmente doces.

Cumprimentei Gillion como sempre e passei rumo à mesa  sem conseguir mais combater a sensação de sonho que se apoderava de mim. Ultimamente eu vinha tendo dificuldades pra me focar na realidade como se estivesse sonhando acordado e já sentia inútil lutar contra essa sensação apenas a aceitando quando vinha e sentindo seus efeitos quando passava.

Já junto ao fogão peguei uma panela pequena e despejei um pouco de leite, tentando minimizar as dores e simplesmente alcançar o tão almejado sono do esquecimento nem que fosse  por apenas algumas horas. O fogo ligado foi de alguma forma reconfortante ao meu corpo cansado, mas não o suficiente pra suprimir o frio constante que eu já lograva sentir.

Passando os olhos ao conteúdo da panela eu observei o branco se remexer e borbulhar em mais um daqueles momentos em que o passado era palpável demais até mesmo para me arriscar a fechar os olhos e ser assaltado por imagens que não queria ver.

Um ofego foi o suficiente, no entanto, para que eu percebesse o quanto minhas distrações traziam de conseqüência e eu sacudi os dedos avermelhados pela queimadura me sentindo momentaneamente agoniado demais até para apreciar o calor que emanava da panela quente sob o fogão.

“Dedos queimados são, no entanto, o menor de meus problemas...” eu pensei ao vislumbrar um relance de cachos louros entrar na cozinha naquele tom que era tão dele e meu corpo estremeceu como despertando de um sonho ruim, ao que eu sabia que meu pesadelo só se intensificava com a entrada daquela figura. O silêncio, porém, continuou a imperar, me rasgando como uma afiada faca enquanto eu observava em um rabo de olho o que aquela figura tão imponente viera fazer naquele território tão estranho a si.

Mais um borbulhar do leite na panela, e eu me apressei em desligá-lo antes que minha distração me fizesse cometer outra idiotice na frente do rei e aumentasse ainda mais a decepção que eu já lhe causava.  Contendo um suspiro eu passei o líquido branco da panela ao copo e me sentei, dessa vez sentindo olhos verdes queimarem minhas costas.

O que faz aqui a essa hora menino? – a voz de trovão ressoou  e eu, que não esperava tal investida visto a lei do silêncio que imperava durante meus castigos, me virei em um sobressalto, o calor do copo repentinamente machucando minhas mãos.

“Apenas curava minha sede, majestade.” – respondi tomando cuidado para nossos olhos não se encontrarem enquanto tentava combater a sensação de irrealidade que já começava a me assaltar.

E os passos que vieram até mim me disseram que, como em todas as outras vezes, nada passava à observação do meu pai. E eu senti o copo ser tomado das minhas mãos frias sem interpor luta enquanto ouvia a frase que exprimia minha derrota:

“ Vejo que procura meios alternativos para realizar tal tarefa, então.”

O silêncio foi o cansado escudo de quem já não tinha forças para travar nenhuma luta até que eu sentisse o inevitável contato das mãos fortes com o meu queixo e meu olhar inexoravelmente preso naquele olhar indecifrável que aos poucos escurecia enquanto absorvia as linhas cansadas sob meus olhos. E eu penso que se era um sonho, aquele era o sonho mais estranho que eu já me atrevera a ter. 

Mas a voz retumbante me fez ver que a realidade  era ainda mais estranha.

“O que diabos está acontecendo, menino?” o assombro era palpável. “Há quanto tempo não dorme?”

O olhar verde escuro me disse que era impossível mentir e eu me resignei a responder baixinho: “Um mês” ao que o aperto da mão  no meu rosto se intensificou.

“Como assim, um mês? Elfo algum agüentaria tanto tempo sem sucumbir à exaustão e você sabe, rapaz”

A raiva se fez conselheira de minha resignação e me vi respondendo com amargura.

“Não me parece que eu esteja exatamente bem, majestade.” Respondi sentindo meus olhos nublarem para um desmaio eminente quando meus olhos se fechavam para trazer mais dor e lutei com a sensação procurando o leite que já morno estava sobre a mesa, fora do meu alcance.

“É, não parece.” Eu ouvi a resposta  vir de longe e senti braços quentes me abraçarem como há muito não faziam, enquanto a pergunta veio baixinha dessa vez:

“Porque não dorme, menino? Que sonhos tristes têm impedido seu descanso?”

E a minha voz se fez ainda mais baixa, temerosa em perder aquele momento tão estranho e ao mesmo tempo tão gostoso.

“Não são sonhos, majestade. São realidades que já fizeram culpas em minhas mãos.”

“Nem mesmo tu podes ter tantas culpas menino.” Ele me respondeu e eu me remexi querendo retrucar a informação a começar da culpa que se fazia mais forte e dolorosa, minha mãe. Braços de ferro, no entanto, frustraram meu intento e eu pude apenas ouvir o resto e conter minhas lágrimas. “Nem tudo que acontece de ruim é tua culpa, menino. É uma guerra e coisas ruins acontecem em guerras sem que possamos impedir ou minimizar.”

 “Tu me perdoas, então, ada?” – me vi a soltar a pergunta cuja resposta era o tormento de minha existência há muito.

“Se tu te perdoares, menino.” A resposta veio incisiva como sempre e eu senti que aquele momento logo se perderia o que se fez concreto logo depois, com braços se afastando.

“Agora eu esquentarei esse leite como tu tanto aprecias menino e tu vais ao teu quarto descansar para que tenha forças para ajudar teu reino.”  

E como em um sonho de menino eu vi o rei colocar a panela sobre o fogão e jogar açúcar dentro dela como quando eu era criança.  E depois eu vi o vermelho e o branco se misturando em diferentes tons de gradação na panela e em dois copos sobre a mesa.

Logo, eu e o rei bebíamos a doce mistura pedindo a Ilúvatar que de fato ela nos trouxesse noites mais doces.

E eu pensei que talvez não houvesse espaço ainda para o amor em Mirkwood, mas a esperança ainda lograva habitar os corredores e corações daquele reino sofrido.

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