Capítulo I - Uma trouxa
 


     Havia uma mão pousada em sua testa e ele podia sentir a maciez. "Devo estar sonhando..." foi sua primeira reação. Estava tão quentinho que ele nem mesmo abriu os olhos."Não, meus sonhos não são quentes" ele pensou mas deixou-se ficar assim por um tempo mas logo a mão desapareceu e a temperatura começou a baixar. "Está muito frio pra ser um sonho." ele finalmente se convenceu e abriu os olhos.
      O teto era azul claro com uma pintura bem-feita. Virando de lado ele pôde vislumbrar um guarda-roupa e uma escrivaninha, ambos de um tom claro. Rapidamente ele se sentou, respirando fundo para o desconforto passar. Seus pensamentos eram um tanto desconexos. "Devo estar em uma casa trouxa. Na certa a pessoa que me encontrou me trouxe para cá." Ele tentou se levantar mas não encontrou forças para firmar-se, caindo na cama. "Droga de vertigem!" Estava com sono, muito sono.
       Os olhos se abriram novamente. "Quanto tempo se passou?" Levantou devagar com medo que a vertigem voltasse e andou até o espelho que havia na porta do roupeiro. Estava desnudo da cintura pra cima mas não era isso que o preocupava. "Por que a minha aparência não mudou?" ele se perguntou observando a tez morena e os cabelos negros. "Será que exagerei na quantidade de hemeróbios?"
       Alguns passos lá fora denunciavam que alguém subia a escada. Com pressa ele procurou sua camisa pelo quarto mas não a encontrou. Havia apenas e capa dobrada em cima da poltrona. Desistindo ele apenas recostou-se na poltrona e esperou.
      Uma jovem entrou no quarto equilibrando um prato com sopa e uma colher sob uma bandeja. Era alta e magra, a pele clara com olhos e cabelos castanhos.Ele a observou com apreço. "Bem, ela parece ser trouxa portanto devo tomar cuidado com o que digo." Notando o olhar dele, ela repousou a bandeja na escrivaninha e sorriu levemente dizendo:
- Vejo que já está melhor... - ele sentiu que a voz lhe era familiar mas não a identificou, então cruzou os braços e respondeu:
- Pareço melhor? - o tom de voz era malicioso.
      A garota corou e ele se alegrou ao perceber tal efeito. "Ela não é de se jogar fora..." Passada a reação, no entanto a expressão dela voltou ao normal e ela respondeu ignorando o comentário.
- Você ainda está muito fraco. - ela apontou a bandeja em cima da escrivaninha. - Eu trouxe algo para comer. - e saiu.
     Sentindo-se faminto ele pegou o prato e sentou-se na poltrona para comer. O gosto era bom e ele já estava no fim quando a garota voltou dessa vez com os cabelos soltos. Ele não pôde deixar de notar como os fios eram sedosos e teve que refrear a vontade de enfiar as mãos ali que se insinuara dentro dele. já controlado ele percebeu que ela o olhava e retribuiu o olhar.
- Vejo que você estava realmente com fome. - ela comentou enquanto ele repousava a colher dentro do prato vazio.
- É, estava. - ele passou a língua pelos lábios para tirar os resquícios do alimento e percebeu com satisfação que ela acompanhou o movimento
Ela cruzou o quarto e sentou na cama ainda o encarando.
- Então acho que agora eu posso obter algumas respostas.
- Espere. - ele a interrompeu bruscamente - Que dia é hoje?
- Terça, 16 de maio.
- Então... - ele fez as contas mentalmente - eu dormi por um dia inteiro?
- Sim. - ela respondeu e ele franziu a testa.
- Como eu vim parar aqui?
- Boa pergunta. - ela respondeu sarcástica e ele riu-se internamente. - Eu esperava que você pudesse me dizer isso.
- Eu não lembro direito. - ele fez uma leva encenação. Não podia dizer a uma trouxa que usara uma chave de portal. - Eu fui assaltado.- "Pelo menos isso explica a falta de documentos e o corte."
- Então eu vou contar a parte que eu sei. - a jovem falou em um tom prático e, mais uma vez, ele teve a impressão de que a conhecia. - Eu cheguei em cada domingo à noite com as compras e vi a porta entreaberta. Então eu puxei a... maçaneta e vi você sentado na poltrona junto à lareira. Vi que você estava ferido então te trouxe para o quarto e cuidei do seu ferimento.
- A última coisa que eu lembro foi eu chegando na rua e vendo o portão da sua casa aberto.
- E o que você estava fazendo por aqui? - ela indagou em um tom curioso.
- Acho que vim procurar uma pessoa.
- Sabe não é normal essa perda de memória.- Ela falou desconfiada. - Os assaltantes bateram na sua cabeça?
    Ele não respondeu e ela não repetiu a pergunta. Aquele mundo de explicações já estava começando a entediá-lo.
- Bem, isso explica. - a praticidade dela voltou e ela levantou encaminhando-se para aporta. - Eu sugiro que você passe a noite aqui.
   "Uma trouxa" ele sentou na cama e ouvindo o ruído da porta fechando. "O que meu pai diria se soubesse..." o pensamento se formou mas ele o cortou. Pensar em seu pai lhe trazia lembranças desagradáveis
   "Eu sugiro que você passe a noite aqui." é, ela estava certa, ele ainda se sentia um pouco zonzo. De repente sua mente deu um estalo.Não, ele não podia passar a noite ali, não sabia quando e efeito da porção passaria e, bem, lhe traria problemas se ela o descobrisse com outra aparência. "É, é melhor eu sair daqui" ele se decidiu a andou até o lugar em que estava seu sobretudo. "Onde diabos está minha camisa?!"
    Já um tanto irritado ele recolheu suas coisas e desceu a escada prestando atenção à casa. A decoração era de muito bom-gosto, sóbria e ao mesmo tempo com um marcante toque feminino. Ele sentiu seu respeito pela garota crescer lembrando do seu próprio apartamento e esquadrinhou o local. A sala era ampla e desembocavam um corredor largo com duas saídas:uma para a cozinha e outra para o lavabo.Ele a procurou em todos os cômodos inferiores sem sucesso então fez o caminho inverso e subiu as escadas pensando. "Ela deve estar em seu quarto."
    A escada dava para um corredor comprido. À direita havia duas portas, uma do quarto onde estivera e uma outra fechada. À esquerda havia apenas uma porta também fechada e no fim do corredor ele vislumbrou um banheiro. "Qual destas é o quarto dela?" ele se perguntou olhando indeciso para os lados. Por fim optou pela esquerda. "É o aposento maior, então..."Distraído ele andou até a porta. "E se ela estiver desnuda?" pensou levando a mão à maçaneta. " E daí?" ele deu um sorriso malicioso." Melhor..." Com cuidado ele girou a maçaneta e ia abrir quando uma voz falou próxima à sua nuca:
- Eu não acho que você deva entrar aí.

 

 

>>Próximo

Hosted by www.Geocities.ws

1