
Talvez
Ela estava deitada sobre a cama envolta por papéis de várias cores. Ela tentara escrever mas a melodia romântica do som não lhe permitia tirar o pensamento dele. Sim, ele que já lhe inspirara bons e maus poemas e algumas lágrimas. Mas hoje ela queria algo especial, ela queria externar toda a angústia que andava sentindo.
Seus olhos se fecharam e ela descansou o corpo sobre o colchão, os lábios se movendo para acompanhar as notas e palavras tristes do violão.
Talvez
Tenha sido um beijo e nada mais
Mas eu fiquei assim
Ela o imaginava chegando. Os cabelos revoltos que ela gostava de acariciar, a blusa preta por fora da calça. Ela podia senti-los nesses pequenos detalhes
Talvez
O teu perfume não me deixa em paz
Você ficou em mim
Ela não chorava. Ela não conseguia chorar. Mas aquela tristeza em seus olhos valia um rio de lágrimas. Ela estava cansada de ser usada. Cansada de ser enrolada. Cansada de ser a válvula de escape dos problemas alheios. Ela queria ser importante.
Oh, por que ela sempre tinha que entender?
A voz doce do cantor chegava aos seus ouvidos mas não era aquilo que ela queria ouvir. Ele parecia cantar pra ela mas ela sonhava com o "trim" estridente do telefone seguida de uma voz rouca que tanto lhe arrepiava.Porque quando ela pegasse aquele ônibus para viajar muita coisa podia mudar. Ela podia voltar uma outra pessoa. Ela não sabia se queria mesmo isso...
Porque eu só penso em você!
Preciso te encontrar
Mais uma vez te ver
Um vento frio passou e ela se encolheu na cama se abraçando. Não eram aquelas mão que ela queria sentir. Ela queria mãos quentes e ao mesmo tempo suaves envolvendo sua cintura e uma boca macia procurando a sua.
Ela abriu os olhos e ficou olhando o papel do seu lado esperando ser completamente rabiscado por suas angústias e decepções. Ela não queria símbolos nem figuras, ela queria ele aparecendo como um poema preguiçoso... Ela queria que ele a escolhesse e assumisse sua escolha. Sem promessas nos olhos nem exigências nos lábios.
Ela queria não precisar pedir. Queria que ele prometesse por si. E ela pegou a folha azul e começou a escrever embalada pela música.
Quero tanto te falar
Atende que sou eu
Me apaixonei!
Talvez...
Ela só desejava que aquele maldito aparelho tocasse de uma vez. Ela estava apaixonada e, céus, ela queria que fosse pela pessoa certa só pra variar. E ela lembra do cara que tinha lhe ligado e fica triste porque ele era o cara errado e não era naqueles olhos que ela ansiava se perder. Outra pessoa errada.Algumas palavras tomam forma no papel como uma história. Não uma história, um desabafo. A música está no fim...
Ah! Diz pra mim
Tudo aquilo que eu preciso ouvir da sua voz
Ah! Diz pra mim
Que você também andou pensando em nós.
A música acabou. Ela acabou. Ela pode ver o sorriso dele se lesse. Ela não queria só um sorriso.Ela queria esquecer. Ela queria mas não conseguia. E no outro dia pela manhã o ônibus vê os cabelos esvoaçantes da garota entrando, os olhos escondidos por um grande sorriso de expectativas.