
Sobre Poder
Estava pensando sobre o caso do "trote" no exército divulgado na mídia e me vieram à cabeça essas idéias sobre poder. Dentro da nauseante cena, exibida alegremente na televisão, eu me perguntei quais motivos levam homens supostamente racionais a agirem como animais e apenas uma palavra se fez luz: "poder", o sentimento de oprimir e sentir-se melhor superior ao outro.
Não, isso não é uma apologia ao desarmamento e muito menos um texto sentimentalóide sobre o quão melhores poderíamos ser se cultivássemos sentimentos como amor e essas coisas. Na verdade, essas secas e duras linhas trazem uma dissertação sobre aquela que rege o mundo desde os primórdios: a lei do mais forte. Aqui, inspiradas nas cenas animalescas, eu trago cruamente o quão sórdido o homem pode ser.
Desde sempre o homem se pautou pela força. Nota-se que força não corresponde à vigor físico como na época em que tônus muscular definia quem ficava com o maior naco de carne, mas a força pode ser traduzida pela possibilidade de usar legitimamente da violência, o que nos subordina ao estado, e, nos recursos para moldar a realidade à sua vontade. Nesse último sentido, conheçam o poder. Sua existência presume uma relação de subordinação, antes física, hoje econômica e social, e divide a humanidade em dois grupos: opressores e oprimidos.
Sem analogias ao pensamento marxista, não é especialmente difícil conceber que o mundo seja movido em prol dos que têm recursos. Isso gera naqueles que não tem o anseio de possuir tais recursos que invertam sua posição de oprimidos para opressores(e acreditem, não há meio termo). Sem a ideologia de justificação ou mesmo sem a posição confortante da religião com esperança do paraíso e tal, no mundo onde é servir ou ser servido, não espera-se que as pessoas escolham a primeira opção.
Há um parêntese, porém nessa realidade, que é a capacidade racional do homem. A realidade concebida aqui, mecânica e cruel, não é aceitável dentro dos parâmetros da benevolente e hipócrita sociedade humana. Faz-se necessário, pois, mascarar os comportamentos de modo que se convertam em uma atitude socialmente aceitável. A máscara se faz sobre novos codinomes: consumos, livre iniciativa, capital, e a opressão ganha contornos diversos e se difunde qual tal se difunde o poder. Mas não deixa de ser opressão.
Um outro parêntese se faz necessário quanto à representações sociais de um sistema opressivo: a inveja, a violência, o medo. A situação se perpetua pelo medo do oprimido em ser agredido física e socialmente ao passo que lhe provoca inveja a possibilidade de ferir o outro submetendo-o à sua vontade conforme lhe foi feito. A inveja leva à reprodução de tal situação injusta no outro, que é a violência, pois quem reproduz goza de um poder falso que não corresponde a um recurso e, portanto, não legitima a se colocar na situação de opressor no exercício de um poder.
Nesse sentido a alusão à arma se faz clara. Há um poder sinistro em ter meios para dispor da vida de outrem e sobretudo da sua própria vida. Imagine alguém que passou a vida sendo oprimida e teve uma formação voltada para isso. Imagine esse alguém com uma arma na mão a dispor sobre a vida de outro. Imagine a adrenalina correndo pelas artérias, a mente traçando o caminho da bala, definindo a velocidade, pesando prós e contras. Agora, pense nas escolhas que esse alguém pode fazer e pense nos torturadores do exército que usaram de violência com seus subordinados. Mais uma vez digo que não faço alusão ao desarmamento, mas ao sistema opressor que vivemos, ao governo que utiliza uma violência institucional contra seu cidadão e não treina sua polícia. Claro, existe a punição à tais atos, mas essa reação não ressuscita pessoas nem as humaniza. Faço alusão, então, à essa organização social capitalista que transforma homens em animais e não traz um meio termo.
Eu costumo dizer que a vida é cruel e não há solução pra isso. No momento, como a perfeita sociedade hipócrita a qual pertenço eu me horrorizo com a violência contida nessa verdade amarga. Mas, como dizem os autores milionários dos livros de auto-ajuda vamos ter fé que o amor resolve tudo. Claro, e as penitenciárias realmente regeneram as pessoas...