
Letras de um infinito
Já nem mesmo sei o que desejo guardar nesse papel. Sei que o lápis corre
e as palavras tomam forma como se brotassem de mim. Eu, que sinto e não sei sentir,
amo e não sei amar. É inquietante essa sensação que arrebata aquelas horas incertas
da madrugada. Como se grilhões sufocassem os meus anseios de aventuras e glórias
esquecidas nas palavras que leio.
No relógio os números são estranhos e as horas passam sem se importar com os
desgnios de meu destino. Como se meu mortal sangue pudesse fazer outra coisa a não
ser regar a terra de próximas existências vazias.
E eu própria me sinto
tão sem sentido como um relógio de tempos inevitáveis. Escrever, então, ganha
inúmeros sentidos dos quais me abstenho. Mas minha escrita é vã e pouco vale
se as palavras não me obedecem e enveredam-se por caminhos próprios de si. E o
pior, estão sempre a espreitar-me nas estradas.
Lastimo então essa minha insensatez.
"Como pudera dar vida a tão inconstante companheiras?" Ah! Mas
tão amarga é a minha jornada... E, enfim, as letras se unem, uma a uma, na vigilância
mortal da minha partida.Ah! Esses sinais voluntários que me enlouquecem na infinidade
das horas. Sem inimputáveis em malfadada culpa e sempre passíveis de punição.
A chegar quando menos espero, a ansiar quando pouco preciso, a mar quando não amo.
Dolosos são a me levarem em dolorosas lembranças de tempos futuros. Como se o
futuro não fosse a repetição de um passado acrescido de novas nuances.
Não sei porque acabo por
acreditar nelas. E novamente a inquietação me atormenta. Ah, quisera eu poder
dizer todos os sons silenciados e perceber a beleza das palavras não formadas.
Mas sou temerosa e pouco confiante na perfeição. Pois vi o belo imperfeito e o
amei e jamais pude contemplar o ser perfeito. Odiosas as palavras que não me
permitem escrevê-lo pois no imperfeito reside meu coração e do impalpável
tomo minha matéria.
Duas, quatro, oito letras de
um mero infinito.