
Inexorável
Os ladrilhos desenhavam um pouco a sua perplexidade enquanto ela refletia se
tinha valido a pena daquela vez e tudo que ela respondia a si eram palavras
vazias de [des]consolo. Porque mais uma vez ela tinha saído e se arriscado e
mais de uma vez ela pudera vez o basalto preto de outras ruas e ouvido história
erradas sobre ninguém, mas o ciclo sempre se fechava ali, em meio aos cacos que
formavam o muro e as pedras que cobriam o chão. Porque o ciclo sempre haveria
de se fechar e aquele era o lugar das incontáveis horas de melancolia e erro
antes que ela se perdesse novamente.
Ela poderia se ver na postura poética daquele
anoitecer de outono e pensar sobre os ladrilhos no chão, mas a estrada de
tijolos amarelos subitamente já não levava a nenhum lugar e a ela restava
apenas sentar e fechar o ciclo, dessa vez sem choro, só a amargura e o alívio
de mais um ciclo fechado. Porque o tempo parecia não passar naquela rua
silenciosa mas ao mesmo tempo ela sabia o quão enganoso era esse sentimento
porque o tempo, como o destino, é inexorável com suas estradas, cores e
ciclos.
E então ela escolhia se sentir parte de uma antiga produção
em preto-e branco do cinema mudo como se Doroty pudesse aparecer em uma nuvem
furta-cor e levar a sensação de surrealidade embora. Mas no fim ela sabia que
tocaria apenas uma música melancólica em homenagem à poesia daquele final,
que afinal, se pressentia desde o início.
Porque sua vida era nada mais que ciclos fechados e
orgulhosos de sua convexidade e não havia a paixão pela busca do mágico de
Oz...
E porque metida naquele vestido branco a sua palidez não lhe
mostrava parte de algum alegre musical da Brodway, não até que a cortina
fechasse pra alguma passagem de ato e ela se visse, de repente, perdida nos
rodopios da dança. Mas até que isso acontecesse ela devia enfrentar aquele fim
de tarde melancólico e encarar a cortina fechada de mais um ato. Porque o
teatro, como o destino, é nada mais que uma sucessão de atos em torno de uma
protagonista.
E porque uma hora haveria de se desenrolar o último ato.
O Sol finalmente se pôs, levando as últimas notas da trilha
sonora desse ciclo e ela levantou deixando pra trás os últimos acordes. Era o
momento de um novo ciclo, ela novamente sairia e poderia até se perder, sempre
torcendo pra dessa vez não haver ciclos, em vão.
Porque o mundo anda em círculos e a vida anda em círculos e o
circulo dela era sempre voltar ali juntar os cacos dos seus ciclos quebrados.
E porque o destino era inexorável no ciclo universal do
big-bang.
Mas não importava porque ela iria seguir aquele caminho de tijolos
amarelos. E quem, sabe, um dia o ciclo se encerrava com o mágico de Oz.