O avesso dos ponteiros

  

 

 

                    

                      Ele saiu de casa caminhando devagar. Não sabia ao certo onde seus pés o levavam, mas sabia que cada passo o levava para mais longe dela. Não entendia direito o que ocorrera, os fatos importantes parecem ter a mania de acontecer rápido demais para serem plenamente compreendidos. Mas, algo estava claro, era o fim.

 

Sempre chega a hora da solidão

Sempre chega a hora de arrumar o armário

Sempre chega a hora que o poeta aprende

Sempre chega a hora que o camelo tem sede

 

      Carlos parou e suspirou observando a paisagem em volta. A noite já se apresentava e alguns pontos luminosos despontavam no céu. Logo a rainha branca se apresentaria e daria fim àquele dia, o dia que ele queria que jamais acabasse, ou que nunca acontecesse. Mas o tempo é inexorável em sua jornada e não se importa com as pretensões de um mero mortal. O asfalto reluzia sob a luz prateada e ele reconheceu onde estava, era uma rua comprida do centro da cidade. Seus pés doíam e ele se perguntou porque estava descalço. “Ah, claro, eu saí tão rápido que não lembrei de pegar um calçado.”

 

O tempo passa e engasta a gastura dos sapatos

Na pressa a gente não olha que a Lua muda de formato

As pessoas passam por mim pra pegar o metrô

Confundo a vida sendo um longa-metragem

O diretor segue o seu destino de cortar a cena

O velho vai ficando fraco e esvaziando os frascos

E já não vai mais ao cinema

 

 

     A Lua já subia no céu e ele percebeu que ela estava em sua fase nova. Parecia-lhe tão bela, assim, fria e distante, que ele se perguntou porque dificilmente parava para observá-la. Tinha voltado a andar sem perceber. “Estou indo ou voltando?” Pensou distraído. Era tudo irreal demais: a Lua, a noite, a rua em na qual andava. Ele andava? Não, ele estava parado e o mundo se movia aos seus pés levando-o a lugar nenhum. Ele esbarrou em algo e levantou os olhos para encontrar uma jovem lhe olhando com curiosidade. “Ah, as pessoas...” ele pensou balbuciando desculpas para a garota que já saíra apressada. Ele não havia percebido que elas estavam ali. “Como elas correm!” O pensamento se formou em sua mente. “Eu me sinto em um filme do Almodóvar”.

 

Tudo passa e eu ainda ando pensando em você...

 

 

     Seu pensamento recaiu nela sem querer. Ela, sua ex-esposa, seu eterno amor. Ela adorava Almodóvar. “O que ela estará fazendo?” Ele já estava perto de casa agora e seu peito doía de tristeza e saudade. “Ela deve estar arrumando as malas” ele pensou amargo. “Será que estou chorando?” Perguntou-se levando a mão à face para conferir. “Estou.” Ele constatou ao tocar no olho molhado. Já não sentia seu choro silencioso. Na verdade achava que não conseguiria sentir nada mais. Percebeu que segurava algo em sua mão. Era da jovem com que se batera, um crachá de identificação de uma empresa conhecida. Mas sua atenção foi desviada dele para a mulher à sua frente.

 

Lembro quando você partiu, assim, sem olhar pra trás.

Como um navio que vai ao longe

E já nem se lembra do cais

Os carros na minha frente estão indo, eu nunca sei para onde.

Será que é lá que você se esconde?

 

 

     Ele chegara. Carlos parou em frente ao portão de sua casa onde ela se encostara. Estava tão linda como ele nunca vira; a mala pendia de sua mão e parecia pesar. “Quer que eu segure?” Ele se viu perguntar. “Não precisa, obrigada.” Ele respondeu e parecia determinada a mostrar que não precisava da gentileza dele. “Eu só estou esperando o táxi.” Ele ainda pôde ouvi-la, a voz doce. “Quer que eu espere com você?” Ele perguntou e obteve a resposta meio indiferente dela: “Se você quiser...”

     As estrelas brilhavam no céu quando o carro parou em frente à casa. Imediatamente ela se empertigou e pediu ao motorista que guardasse a mala. Os dois ficaram sozinhos e ele novamente sentia o quão surreal era a situação. Parecia que ele observava tudo fora do seu corpo e um outro alguém estivesse lá dentro. Os dois se encararam silenciosos. “Então é adeus” ela lhe disse antes de entrar no táxi. “Nunca é adeus.” Ele respondeu observando o carro se afastar.

 

A idade aponta na falha dos cabelos

Outro mês aponta na folha do calendário

As senhoras vão trocando o vestuário

As meninas viram a página do diário

 

 

    A casa estava escura e ele entrou já acendendo as luzes. Tudo parecia igual em sua desordem levemente organizada e, ao mesmo tempo, tudo parecia diferente. Sentia o cheiro dela por todo o ambiente, a sua mania de organização nas almofadas do sofá. “Ora, isso são coisas da minha cabeça!” Ele subiu as escadas pensando na primeira vez em que ela subira; no dia em que fôra morar ali, com ele. “Afinal, o tempo passa muito depressa...” Ele se sentia um velho no auge dos seus 24 anos. Por três anos morara com ela, isso somado aos outros 2 em que namoraram. Ela tinha 22. “É tempo demais...”

 

O tempo faz tudo valer a pena

E nenhum erro é desperdício

Tudo cresce e o início deixa de ser início

E vai chegando ao meio

Aí eu começo a pensar que nada tem fim

Nada tem fim...

 

    Ele entrou no quarto do ex-casal. Quase podia vê-la, o corpo pousado suavemente nos lençóis com aquela volúpia suave que lhe inspirava. “De certa forma ainda não acabou” ele pensou se despindo para deitar-se. Podia sentir o toque macio da camisola de seda dela em sua pele. Deitou-se devagar saboreando a sensação de estar novamente sozinho. Ele olhou o criado mudo à direita onde estavam pousados o crachá da moça e uma foto DELA sorrindo de uma moldura. “Acho que nunca acaba realmente”.

 

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