Fé e Obras                                             por Agnaldo Fernandes

Paulo X Tiago

Argumentos a favor de uma reconciliação

"Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da Lei"

Rom 3.28

"Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo?" Tiago 2.14

 Introdução

Parece haver uma contradição entre Paulo e Tiago referente a doutrina da justificação, pois em Tiago 2.14-26 o autor afirma que a fé sem obras é morta e Paulo em Romanos 3.21-31 nos assegura que a justificação diante de Deus ocorre somente pela fé sem necessidades de obras.

Existem muitos pontos de vistas tentando harmonizar os dois ensinamentos e outros totalmente contrários enfatizando que realmente existe a contradição entre os dois apóstolos. Alguns tentam demonstrar que Tiago escreveu para corrigir o pensamento de Paulo que não valorizava as obras da Lei e outros procuram demonstrar que os dois estão certos, mas cada um está falando de perspectivas diferentes da mesma verdade. Aí surge a pergunta: Quem está certo, Paulo ou Tiago? Eles se contradizem ou se complementam ?

A questão das Datas

Para começar, acredito que conhecer as datas de composição dos dois livros podem nos ajudar muito, se Tiago foi escrito após Romanos bem pode ser que realmente Tiago tivesse em mente contradizer os ensinos de Paulo mas se Tiago for anterior a Romanos de forma nenhuma poderia acontecer a controvérsia. Então restaria a idéia de um paradoxo ou ainda a idéia de complemento das doutrinas.

De acordo com estudiosos, Tiago pode ser o livro mais antigo do Novo Testamento, pois possui estilo judaico e pouca teologia, foram sugeridas datas desde alguns anos antes de Cristo como até mesmo 150 d.C. Se considerarmos o autor como sendo o Tiago irmão de Jesus, então, a carta foi escrita aproximadamente em 45-48 d.C. enquanto Romanos foi escrito 58 d.C, durante a sua terceira viagem missionária, isso indicaria que Tiago não teve como intenção ao escrever sua epístola contradizer o apóstolo Paulo.

Formas de Reconciliação

Aqueles que tentam reconciliar os dois apóstolos geralmente procuram descrever que as palavras usadas por eles (Paulo e Tiago) não são usadas com o mesmo significado, por exemplo:

O termo – Fé como obediência à lei mosaica e fé como um princípio espiritual .

O termo obras - Obras da Lei e obras de caridade .

A palavra lei - Lei de Moisés e lei da liberdade.

Existe também aqueles que sustentam o Paradoxo, isto é, a idéia de que tanto Paulo como Tiago estão certos em seus argumentos – onde a salvação seria realmente pela fé mas as obras seriam necessárias, sem reconciliar os dois pensamentos.

Uma Solução

No meu entender (tradutor do Champlin), o apóstolo dos gentios olhava a questão do ângulo de quem ensinava a justificação exclusivamente pela fé como uma tese, provando que Deus nunca considera nossas obras, mas somente nossa fé, quando nos justifica inicialmente.

Vale dizer, quais sejam ou tenham sido nossas obras, antes do ato justificador inicial, é algo que não se reveste do menor peso diante do Senhor. Deus não leva em conta nossas obras, pois não é levado por respeito humano. Tiago, por sua vez, escrevia sobre o perigo de certos que afirmam ter fé, mas não a confirmam com as «obras da fé». Essa espécie de fé é ilusória. Só existe na imaginação.

A fé autêntica conduz o crente às «obras». Sumariando, Paulo considerava a questão como que antes e até o momento do ato justificador; Tiago, considerava-a a partir desse ponto, Paulo fazia o retrospecto da justificação; Tiago examinava os seus resultados.

Creio também que nem todos os apóstolos tinham a mesma sabedoria e discernimento espirituais, e que Paulo recebeu revelações que os outros não possuíram. Mas, porventura Tiago teria expressado todo o seu tesouro de conhecimento espiritual em uma epístola tão pequena?. Seja-me permitido duvidar.

Por outro lado, a questão a que Tiago se reportou, nunca preocupou a Paulo? É evidente que o preocupou. Todas as porções oratórias de suas epístolas são outras tantas provas disso. Uma vez convertido, o crente, justificado que está diante de Deus, precisa pôr em ação a sua fé, mediante as boas obras produzidas pela fé.

Assim sendo, para mim, Paulo e Tiago se completam mutuamente, dentro daquilo que o Espirito de Deus permitiu que chegasse até nós, dentre os ensinamentos que nos legaram. Se nos fosse possível reuni-los em uma mesa de conferência, estou certo de que, após pequeno intervalo de tempo, sairiam dali de mãos dadas, apresentando ao mundo uma declaração conjunta. Infelizmente, esse encontro e essa declaração conjunta não ocorreram. E isso tem levado alguns intérpretes a pensarem em discrepâncias entre Paulo e Tiago!

Conclusão

Se não existe contradição entre os pensamentos de Paulo e Tiago temos de encontrar uma posição onde os dois pensamentos se completam.

Até o próprio Paulo reconhece que não adianta uma fé sem obras quando diz:

  • "Porque os que ouvem a Lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados" (Rom 2.13)
  • Penso que os dois estavam falando partes da mesma verdade, talvez Tiago estivesse tentando corrigir um erro de pessoas que entenderam mau o argumento de que a fé somente salva para justificarem a falta de uma vida religiosa prática dizendo que o mais importante era ter a fé, uma vez salvo, não haveria necessidade de praticar ações de justiça e altruísmo.

    No caso de Paulo, ele estava enfrentando os judaizantes, que enfatizavam demais a guarda dos mandamentos, como se isso fosse o todo de uma vida que agrada a Deus. Os judaizantes enfatizavam as atitudes pessoais em detrimento da graça de Deus,

    então somos justificados pela graça de Deus mediante a fé salvadora (Ef. 2.8), essa graça nos constrange (2Co 5.14,15) a sermos justos diante desse Deus maravilhoso.

    Dessa forma fica explicado: A justificação vem pela fé somente, mas aqueles que a possuem manifestam-na através de suas obras.

    Ou seja, somos salvos por Deus e não por nossos méritos e boas obras, mas devemos mostrar nossa fé através das obras, para que outros possam ser alcançados através do nosso testemunho e abençoados por nossas boas ações.

     

     

    BIBLIOGRAFIA

    MOO, Douglas J. Tiago Introdução e Comentário, Ed. Vida Nova, São Paulo, 1999.

    CHAMPLIN, Russel Norman, O novo Testamento Interpretado, vol. VI, Ed. Candeia, São Paulo.

    GEISLER, Norman, Manual Popular de dúvidas, Enigmas e "Contradições" da Bíblia, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, 1999.

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