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5 de fevereiro de 2008. passagem comprada, malas feitas. vou-me embora pra pasárgada. dizem que o ano produtivo no brasil só começa depois do carnaval. pois é, estamos sobre a transição de duas eras. daqui a alguns dias sairá o resultado do carnaval 2008 e o 13º salário chegará ao fim. é o início do ano para o trabalhador brasileiro. se sacrificará durante outro ano para receber novamente o sagrado 13º para poder colocar no crediário aquela tevê de algumas dezenas de polegadas, tal como tanto sonhou, para assistir ao carnaval do mesmo ano, em resolução digital. evidenciei a total infelicidade da idéia de tevê no carnaval porque a alguns momentos atrás me percebi na frente da tela, procurando algo agradável com pessoas não embriagadas para passar o tempo da madrugada com algum indício de dignidade. o primeiro canal, claro, a globo. transmissão de um desfile da sapucaí. a repórter aparece o tempo todo no meio da muvuca sambística, gritando para @ entrevistad@ (sempre @s mais gostos@s da avenida), com os mesmos questionamentos: "quantos anos já na sapucaí na mesma escola? qual a sua sensação nesse ano tão especial e diferentíssimo de desfile?". se a resposta não for "é, tamo aí mais uma vêiz, esperando as órdi aí do professor, pra entrá no segundo tempo com garra pra fechá com o resultado positivo", sempre é interrompida na quarta palavra de resposta por um "carnavalo" rotativo, fantasiado de flamingo, que toma o close da câmera pra mandar um beijo para sua mulher: "amor, eu ainda te amo". realmente, espera o fim do carnaval que ele volta pra casa para tirar o atraso, oficialmente, rerrerrê. dado o insucesso da entrevista de nível intelectual tão profundo, a repórter apela para o sensacionalismo: "áh, então dá uma sambadinha pra gente, querida". ela sambará a noite toda, por que não num close exclusivo da globo? continuei com a minha heróica e mesopotâmica busca pelo "programa perfeito". dessa vez, fui parar num filme de pancadaria chinês, comparável aos do steven seagal. não que o steven seagal não seja ótimo, mas hoje não dá. seria impossível aprovar os cúmulos surreais aos quais fui submetido (mais que os flamingos falantes). rodei novamente o canal. pousei na sapucaí mais uma vez. dessa vez, um estilista comentava a respeito da fantasia de um bloco: "são cores bastantes sedutoras, que somadas às penagens, produzem um efeito eletrizante". sim, claro, eletrizante ninguém duvida, mas sedutoras? imagina seu namorado ou namorada na hora h dizer um "volto logo" e voltar fantasiad@ de pavão! (RARRARRÁ!!!) tirem suas próprias conclusões. ninguém merece. o botão de alternância foi cutucado novamente. me localizei numa vitrine de jóias e uma mão com vozes no fundo descrevendo um anel sendo leiloado, do tempo de um faraó da quinta dinastia de algum reino do passado, com a vantagem exclusiva de facilidade no pagamento. em até 3 vezes sem juros! que vantagem, quase liguei lá para fazer meu lance: "caso aceitam trocas, tenho aqui os três primeiros dos mutantes e alguns do doors, vamos fazer negócio?". como me decepcionei com o valor que remataram o anel, paupérrimos quatro mil e quinhentos reais, em três vezes sem juros, mudei de canal. e imagina? caí em outro leiloeiro! que mostrava o mesmo programa de vendas com um atraso de exatamente 2 minutos e meio! que estratégia perfeita! você vende jóias, dai aluga dois canais na tevê consecultivos. se a sua audiência perder um lance, é só sintonizar o outro e resgatar tal momento de distração. como já tinha visto aquela viradinha de mão em 23 graus para a esquerda, sintonizei no próximo. e acreditem, era o mesmo programa com 7 minutos de atraso! sim, efetivamente o fundo do poço! eles querem mesmo todos os públicos possíveis! os canais de exorcismo não podiam faltar. estava até sentindo falta daqueles olhos fixos na câmera e ternos-e-gravatas dizendo, convictos: "minha irmã, vem pra jesus". numa crise agonizante, quase me converti ao evangelho, ligando pro pastor. não encontrava nenhuma saída para a minha angústia e o tempo passava. que desperdício! "alô, pastor, esse tal de jesus faz gato de tevê-a-cabo?". mas não, me contive e continuei minha jornada. pensei que o controle estava quebrado. pela repetência sistemática dos programas, ele poderia estar um tanto equivocado na sua atitude. apertando "para cima", entenderia "para baixo", e versa-vice. enfim, não desisti e lutei contra a maré, caindo novamente na globo. seria um ciclo infinito de carma? ó, destino cruel! eu só queria um coverzinho do raulzito ou do cazuza, e tudo que eu encontrei foi o mesmo besteirol de todos os anos nos mesmos canais da tevê! da mesma forma e conteúdo! mesmas pessoas e fantasias! as escolas de samba dizem que o enredo do desfile de cada ano é temático. sim, claro. uma escola do ano passado lançou um slogan de "em memória às vítimas do holocausto". onde for que estejam, estariam demasiadamente felizes por lembrarem sua carbonização ou sufocamento numa câmara fechada e claustrofóbica ao som de cavacos, batuques e canções que se repetem incessantemente. de duas uma: seria um ritual para tentar reencarnar seus espíritos sofridos em corpos sacrificados ou se trata de uma cerimônia para comemorar a desgraça do passado e afirmar a total babaquice de um costume latino-americano, que proporciona o estado de felicidade de algumas muitas dezenas do percentual dos egos tupiniquins? só não consegui relacionar uma crítica a um desastre da humanidade com um close nos peitos salientes da capa da playboy do mês passado, requebrando sorridente. um dia eu ainda cheguei a pensar que a tamanha dedicação e fé coletiva d@s adpt@s carnavalesc@s poderiam ser revertidas numa revolução ou destruição de governos marcados por corruptores fossilizados e dinossauros. sonho de criança. revolucionando ou não, minha tevê é algo inútil nos primeiros dias de fevereiro, e em quaisquer outras datas. áh, esse ano revoltarei meus padrões! lerei um livro no carnaval! um segredo: a minha revolta com o controle remoto fez com que eu o joguasse pela janela. um miado angustiante e tenebroso tomou o ar, no quintal de casa, espalhando dor nessa calorosa e sambante noite. a cena do crime está assinada com o meu nome, matei o gatinho da vizinha. lerei o livro do carnaval bem longe, antes de amanhecer e ser acusado por homicídio culposo. malas feitas, livros selecionados. áh, vou-me embora pra pasárgada!!! (qualquer crítica ou sugestão, eu adoro fanáticos religiosos e conservadores da terceira idade no meu i ½. Rarrarrá!!)
pedro
leia! |
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| lá sou amigo do rei! |