O Autor

 

    Eu nasci no dia 01/02/1936, na Rua Guilherme Gomes Fernandes (não recordo o número, mas é uma pequena casa, de primeiro andar, que ficava em frente à serraria do Sr. Peres, (casa que ainda existe) na freguesia de Sta. Maria, concelho de Tavira, no Algarve.
    Minha mãe era natural da Vila Real de Sto. António, onde viviam meus avós e meu pai de Bombarral, perto das Caldas da Rainha.
    Logo após meu nascimento meus pais mudaram-se para uma casa na Rua Nova da Avenida, destruída com as obras que ali foram feitas quando derrubaram a Escola Jara.
    Ali vivi até aos 14 anos de idade.

    Passei a minha meninice entre Tavira e Vila Real de Sto. António onde normalmente passava parte do Verão.
    Andei na Escola da D. Augusta, em Tavira, e da menina Felicidade, em Vila Real de Santo António.
    Estudei no antigo Colégio Nacional em Vila Real e no Colégio Tavirense, em Tavira.
    Tenho amigos, desde que me conheço, nas duas cidades. Costumo dizer que sou filho de Tavira e enteado de Vila Real, para onde meus pais se mudaram em 1951 e onde vivi, até em 1957, quando sai para ir cumprir o Serviço Militar.
    Aos 14 anos, precisamente no dia 15 de Agosto de 1950, comecei a trabalhar na antiga Fábrica de Pimentos (hoje Paga Pouco) junto da passagem de nível da Vale do Caranguejo, em Tavira.
    Em finais de 1951 a firma transferiu-me para Faro onde trabalhei até 31 de Março de 1957.
    Em 03/04/1957 apresentei-me, para cumprir o Serviço Militar na Escola Prática da Artilharia em Vendas Novas, para tirar a recruta.
    Recordo que o "Oficial Dia" era um já falecido amigo, o Alferes, recém saído da Academia Militar, Fernando Ferro, que logo mandou rapar o pouco de cabelo que eu levava para "ver de passava". Não passou ao olhar do jovem Oficial Ferro, Deus lhe tenha a alma em descanso.
    Finda a recruta mandaram-me apresentar em Sintra para a inspecção de ingresso na Força Aérea.
    Tirei depois o curso de Radiotelegrafista de avião, em Paço d'Arcos e Sintra, cumprindo o resto do Serviço Militar em Monsanto.
    Durante o tempo que estive em Monsanto fiz um "bico" como operador dos emissores da Rádio Renascença que ficavam junto ao Campo de Futebol do Casa Pia, em Lisboa.
    Acabado o Serviço Militar fui chamado para um Serviço Público, extinto após o 25 de abril, onde ingressei em agosto de 1957 e estive, até que acabaram, em 1974.
    Meu maior sonho sempre foi conhecer o mundo e estes serviços proporcionaram-me a concretização desses sonhos.
No continente trabalhei em Lisboa, Ficalho, Vila Real de Santo António, Guarda e na Presidência do Concelho.
    Estive quatro anos nos Açores, conheci todas as ilhas.
Viajei pelo país inteiro, fui à Guiné e a todas as ilhas de Cabo Verde, à Madeira e a Porto Santo. Acabei em 1968 por ir para Angola.
    Colocaram-me na fronteira com a Namíbia, numa pequena localidade chamada CALAI. Tinha meia dúzia de casas de alvenaria e uns 15 brancos.
    Em conjunto com as tropas Sul Africanas combatemos a UNITA, o MPLA e a SWAPO do Rio Cuando ao Rio Cuito e do Luiana a Pereira d'Eça.
    Depois Serpa Pinto, Luanda, Carmona, S.ta Eulália, o 25 de Abril e Luanda de 25 de Abril a 04 de novembro de 1974.... a desilusão.... o começo da destruição.... o exílio.
    Luanda .... Pretória..... Rio.... Recife onde recomecei a viver. Eu, que mal sabia o que era um tijolo, fui ser mestre de obras e sou-o orgulhosamente há mais de 28 anos.
    E o Poeta!!!!!!
    Poesia não é uma profissão nem um emprego público ...... é um estado d`alma....
    Comecei a fazer quadras eu não lembro bem quando, mas acho que dos 14 para os 15 anos de idade. Estas quadras começaram a ser publicadas no Jornal "Notícias do Algarve" até que o Jornal deixou de existir.
    Depois, sempre como distracção, continuei a fazer quadras, poesias, normalmente nos guardanapos de papel dos bares e restaurantes que frequentava. Uns passava para um caderno e guardava, outros dava os originais e não lembro a quem e nem o teor do que escrevi. Já no Brasil publiquei alguns poemas em livros de Antologia Poética e ganhei prémios em concursos em Brasília e no Rio Grande do Sul. Normalmente só sei dos concursos depois de encerrados os prazos de inscrição e não faz o meu género participar deles.
    Aqui no Recife existiu uma Casa de Fados chamada "Canoa", cujo dono era o Silva. Nesta altura eu já tinha dactilografado vários poemas e feito colecções de quadras e poesias. O Silva começou a insistir para que eu declamasse meus versos na Canoa. Comecei a faze-lo com todos os defeitos inerentes a um indivíduo que nunca havia declamado, penso que hoje já o faço um pouco melhor. Houve então a solicitação do Silva para que fizesse letras de Fado para ele e sua esposa, que também cantava naquela casa. A primeira letra que fiz chamava-se "O Fado nasceu aqui" baseado na hipótese do Fado ter nascido no Brasil. A música, feita por nós, misturava samba e fado e os frequentadores da Canoa gostavam de ouvi-lo. Depois fiz mais 2 letras de Fados "Eu nasci no Bairro Alto" e "O Fado não morreu não". Sem sabermos uma só nota de música eu, o Silva e o guitarrista, fizemos a música e já havia pessoas que iam à Canoa para ouvir estes fados. A Canoa fechou, do Silva não sei mais notícias, apenas que está em Portugal (gostava de saber dele).
    Continuei a fazer poemas e quadras, até que me aposentei e resolvi comprar um computador para passar todos os meus trabalhos para o papel. Adoptei o sistema de seleccionar 50 poemas e entre 50 e 80 quadras, e fazer um caderno.
    Quando os primeiros cadernos ficaram concluídos, pensei que seria interessante dá-los a alguém da minha terra que pudesse conservá-los mesmo após a minha morte. Essa pessoa ficaria com os meus trabalhos para usá-los como quisesse.
Lembrei-me então do Ofir, que é da minha idade e meu amigo desde que nascemos e eu o considero o coleccionador e historiador de tudo que se refere a Tavira. Ele recebeu os cadernos e mostrou-os a, um hoje amigo comum, Prof. Octávio, que na altura eu não conhecia e que por sua iniciativa e por ter gostado do meu trabalho, foi colocando os cadernos na internet e enviando os endereços para que eu visse.
    Acho que para um Poeta que nunca publicou um livro (birra minha, já o podia ter feito) os mais de 29.000 acessos aos sites que ali possuo me enchem de orgulho, pois um trabalho que era só meu e de alguns poucos amigos, está sendo conhecido no mundo inteiro.
    Enquanto for vivo e Deus me der saúde, espero continuar a fazer um "Caderno de Poesias" e de "Quadras" todos os anos, para enviar aos Amigos, de presente de Natal.



Recife
24.02.2002

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