 Se um
hippie dos anos 60, recém-chegado de uma
daquelas luminosas peregrinações à Índia,
voltasse, num gap de tempo, ao Rio de
Janeiro do ano 2000, ele não acreditaria.
Além dos cabelos compridos, dos colares
de contas e das batas que desfilam pelas
ruas da cidade, voltou a se falar - e a
se praticar, o que é mais importante -
de sexo tântrico e de taoísta. Ou
melhor, o sexo sacralizado. No primeiro
domingo de março, o popular jornal O
Dia deu uma longa reportagem sobre o
assunto. Nas páginas de outras revistas,
figuras tão díspares quanto o autor
Eduardo Bueno (de A Viagem do
Descobrimento) e o galã Marcelo
Anthony declararam que são praticantes
do tao ou do tantra na hora de ir para a
cama. Nas disputadas palestras da psicóloga
e sexóloga Regina Navarro Lins (colunista
de O Jornal do Brasil) discute-se
o assunto com impressionantes depoimentos
ao vivo da platéia iniciada. O mestre de
yôga De Rose viu seu público se
mutiplicar como nunca: "Nos anos 60,
eu dava um curso de sexo tântrico por
ano, agora é um por semana".
O que
é esse tal de sexo sacralizado?
Para a maioria, sexo sacralizado é
aquele em que se fica horas sem fim, dias
até, transando. O telefone toca, as
crianças passam fome e o casal em êxtase
não está nem aí. Não é bem assim.
Quando conheceu o ator Carlos Couto, a
paisagista Heloísa Costa o presenteou
com o livro The Tao of Love and Sex,
de Jolan Chang. Poderia ter sido o recém-reeditado
O Orgasmo Múltiplo do Homem, de
Mantak Chia, em português mesmo, entre
outros que surgem nas livrarias e na
internet. "Eu já tinha passado por
dois casamentos e estava cansada daquelas
relações rápidas. Aos 43 anos, queria
qualidade, e não quantidade no sexo",
diz. O livro é um manual objetivo,
ilustrado com desenhos. Explica que os
princípios desse antigo tipo de sexo
oriental são: entender que prazer e
ejaculação não são necessariamente a
mesma coisa e que adiar a ejaculação do
homem e o orgasmo da mulher aumenta o
prazer de ambos. E ainda sugere exercícios
de contração da pélvis e de respiração.
Como
segurar o tchan?
O conselho básico aos recém-iniciados,
que ainda não conseguem se segurar, é
ambos pararem de respirar por alguns
segundos quando o desejo atingir o auge.
Heloísa e Carlos contam que isso não é
difícil. A dupla já namora assim há
oito anos e está cada vez mais
satisfeita. "Você vai ficando tão
sensível que uma espécie de
eletricidade começa a percorrer seu
corpo. Depois de uns 20 minutos, é como
se você estive tendo um orgasmo o tempo
todo e, se você não ejacular ou gozar,
sai dali cheio de energia." Pode-se
imaginar que Carlos e Heloísa tenham um
porte atlético ou sejam versados em yôga,
mas não. Os dois são gordinhos, e não
dispensam um chope antes desses encontros.
"Mas um só", ressaltam. "As
pessoas estão falando em outras formas
de sexo porque perceberam que os modelos
tradicionais de casamento e sexo não são
satisfatórios", explica Regina
Navarro. "Quando a liberação
sexual dos anos 70 deu lugar a esta
pseudoliberação em que os meios de
comunicação passaram a exibir um sexo
vulgar e barato 24 horas por dia, todo
mundo ficou frustrado." Regina conta
que 70% dos curiosos sobre o assunto são
homens. "Eles andam muito ansiosos,
massacrados mesmo. Há trinta anos, nós
mulheres questionamos e lemos sobre
nossos relacionamentos e eles não",
explica.
Quem
inventou o tao e o tantra?
Os hindus já se deleitavam há 5.000
anos e os chineses, há 3.000. Parte
desses ensinamentos chegou ao mundo
ocidental via Freud, Jung e Reich. Muitos
orientais descreveram em manuais (o mais
antigo foi feito no século VI) a
filosofia do tao e do tantra para o
encontro amoroso. O tantra surgiu na Índia,
por meio da simples observação das leis
da natureza. Vale lembrar que, naquela época,
não havia religiões institucionalizadas,
leis ou dogmas. "Os hindus
perceberam que a natureza é coletiva. Um
grupo de formigas, por exemplo, pode se
sacrificar para que outras atravessem um
rio", explica Vanessa de Holanda, 25
anos, instrutora de yôga. "Então
eles concluíram que, em vez de colocar a
energia do orgasmo em função de você
mesmo, o casal deve doar essa energia ao
outro ininterruptamente. Não é à toa
que os franceses chamam a ejaculação de
la petite mort (a pequena morte). Depois
do hiperorgasmo fica-se mais vivo, mais
produtivo."
Sem pressa para o prazer
Vanessa pratica o sexo tântrico há
cinco anos e diz que, para ela e o marido,
o mestre de yôga De Rose, 57 anos - que
há quarenta anos estuda e ensina o
assunto -, um encontro rápido demora
umas 2 horas. Importante dizer que
Vanessa e De Rose não consideram o
relacionamento de Carlos e Heloísa como
tântrico. "Para agüentar a carga
de energia que se obtém com essa prática,
não se pode comer carne, beber ou se
drogar. Há que se praticar yôga também
e ter flexibilidade, caso contrário pode-se
ficar doente ou morrer", avisa De
Rose. De Rose e Vanessa são mestres em
explorar seus corpos. Já Carlos e Heloísa
procuram um caminho diferente do habitual.
Em vez de ver 2 horas de vídeo todos os
sábados e transar por 20 minutos, eles
querem transar por 2 horas e deixar o vídeo
de lado.
O
corpo é um playground
A atriz Ítala Nandi diz ter tido uma
experiência inesquecível com um hindu,
que descreve no livro Conversas na
Varanda, de Regina Navarro: "Ele
lavou meus pés, passou óleo no meu
corpo. Quando chegou à cabeça, eu já
estava louca. Detinha-se em lugares do
meu corpo que eu nunca tinha imaginado
que fossem tão interessantes, como
embaixo do braço. Atrás do tornozelo,
então, é incrível. Aprendi que tinha
que fazer o mesmo com ele". Todos de
alguma forma estão tentando se
aprofundar nos mistérios do corpo que,
como diz o psicoterapeuta José Ângelo
Gaiarsa, é "o maior playground do
universo". Nossa pele tem mais de
600.000 pontos sensíveis, somos movidos
por 300.000 neurônios motores medulares
e quase nunca nos lembramos disso.
Setenta por cento dos americanos (não há
estatísticas brasileiras), por exemplo,
ejaculam 2 minutos ou menos depois da
penetração.
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