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MEDICINA ALTERNATIVA ENCARA LABORAT�RIO

M�dicos debatem a efici�ncia de terapias n�o-convencionais que passaram por testes cl�nicos

Rafael Garcia

     As terapias que os m�dicos chamam de alternativas ou complementares re�nem pelo menos uma centena de nomes. Numa lista de tratamentos em medicina complementar � poss�vel achar desde terapias conhecidas, como acupuntura ou rem�dios fitoter�picos, at� coisas que pouca gente usaria na hora de uma dor de cabe�a, como urinoterapia (ingest�o de urina) ou "cura espiritual" .
Uma d�cada atr�s, quase nenhuma dessas pr�ticas tinha sua efic�cia avaliada por estudos cient�ficos rigorosos. Era dif�cil afirmar com seguran�a se algum tipo de medicina complementar funcionava para valer ou n�o. A opini�o de muitos m�dicos era de que essas pr�ticas s� agiam por meio do efeito placebo - o fen�meno psicossom�tico de cura ou melhora que ocorre quando algu�m recebe sem saber algum tratamento in�cuo, como p�lulas de farinha.
Hoje, por�m, j� existe uma literatura cient�fica, e cientistas se arriscam a dar seu veredicto para algumas terapias. Enquanto pr�ticas como acupuntura passam em alguns testes, a homeopatia continua altamente controvertida. Outras pr�ticas, como a terapia quelante, encontram advers�rios dentro da pr�pria medicina alternativa.
Boa parte da controv�rsia envolve tamb�m um conflito de interesses financeiros. Por um lado est� a ind�stria farmac�utica alop�tica, que pode perder parte do mercado para rem�dios naturais baratos. Do outro est� o rent�vel mercado das consultas em terapias alternativas, que j� se equipara �s consultas convencionais nos EUA.
     � dif�cil dizer se o assunto pode ser debatido sem vi�s. Homeopatas pesquisando sobre homeopatia podem n�o querer publicar resultados de testes que se mostraram negativos. Alopatas, por sua vez, podem exigir um rigor maior que o de costume para aceitar os resultados positivos.
Alguns adeptos de pr�ticas n�o-convencionais, por�m, concordam que � preciso divulgar todos os resultados. "Queremos separar o joio do trigo", diz o m�dico e acupunturista Paulo Farber, presidente da Associa��o Brasileira de Medicina Complementar.
A malha fina da ci�ncia
      Se a pesquisa n�o vai resolver todas as quest�es, pelo menos pode acabar excluindo os terapeutas que se recusam a passar pelo crivo da ci�ncia. "O mundo da medicina complementar precisa se convencer unanimemente de que a pesquisa � o caminho para se ir em frente", afirma Edzard Ernst, professor da Escola de Medicina Pen�nsula, no Reino Unido. Ernst ocupa a cadeira universit�ria brit�nica mais tradicional dessa vertente m�dica, mas acha que as pr�ticas que n�o se provarem eficazes estar�o condenadas no futuro. "Os �ltimos abrigos de resist�ncia contra a ci�ncia na medicina complementar devem desaparecer, e cabe a n�s atingir esse objetivo�.
Por tr�s de um nome
Muitos adeptos da medicina "alternativa" ou "n�o-convencional" preferem usar o termo "complementar", pois acreditam que ela deve se unir �s pr�ticas profissionais j� estabelecidas. Alguns preferem usar medicina "integrativa", sugerindo que n�o deve haver separa��o entre as duas pr�ticas.
     Ainda � cedo para saber quais pr�ticas hoje consideradas alternativas ser�o aceitas pela ci�ncia, mas pelo menos uma terapia j� est� sendo absorvida sem traumas. "A fitoterapia � a �rea de medicina complementar em que muitas pesquisas fornecem evid�ncia de efic�cia, para certas plantas", diz Max Pittler, parceiro de pesquisa de Ernst.
A fitoterapia ocupa uma posi��o privilegiada talvez pelo fato de muitas subst�ncias de rem�dios alop�ticos tamb�m sa�rem de plantas. Mas essa mesma aceita��o n�o vir� f�cil para acupuntura ou homeopatia, por exemplo.
O �nus da prova
     Para uma pr�tica m�dica se estabelecer de maneira convincente, � preciso que muitos testes cl�nicos provem sua efic�cia, e fazer esses testes de maneira bem feita custa caro. Como a ind�stria farmac�utica n�o tem interesse em bancar essas pesquisas, os adeptos da medicina complementar brigam por espa�o na academia.
"Muitos cientistas que cobram demonstra��o de efic�cia s�o contra abrir espa�o nas universidades para se fazer a pesquisa: querem que tudo seja feito sem um tost�o de financiamento", diz o homeopata Marcelo Pustiglione, coordenador do �nico programa de mestrado brasileiro na especialidade, na Facis (Faculdade de Ci�ncias da Sa�de de S�o Paulo).
O problema da discuss�o sobre espa�o na academia e nas publica��es cient�ficas � que muitos c�ticos acreditam que a homeopatia j� teve chance de mostrar que produz efeitos terap�uticos. "Os homeopatas vivem citando uma meia d�zia de testes em favor, sendo que existem milhares de outras an�lises mostrando que n�o h� vantagem para a homeopatia", diz o bioengenheiro Jos� Colucci Jr., fabricante de equipamentos m�dicos. "� um absurdo a homeopatia ser pr�tica m�dica reconhecida no Brasil, ao contr�rio da maioria dos pa�ses", diz o m�dico ga�cho Paulo Bandarra, do Movimento Medicina Respons�vel, que se dedica a combater pr�ticas de sa�de que considera ineficazes.

Acupuntura
O que �


     Pr�tica m�dica chinesa para terapia e diagn�stico. � baseada no "qi", energia vital que flui por linhas no corpo. A terapia � feita com a aplica��o de agulhas em pontos ao longo dessas linhas. Segundo a doutrina da pr�tica, o fluxo do "qi" equilibra aspectos biol�gicos e de personalidade considerados "frios e quietos" ("yin") ou "quentes e din�micos" ("yang").
Efic�cia
     O ac�mulo de testes cl�nicos mostra que a acupuntura controla alguns tipos de n�usea e alivia dores de dente melhor do que efeito placebo. A efic�cia para dor de cabe�a e dores cr�nicas em geral � controversa. Acupunturistas argumentam que a pr�tica ajuda a equilibrar a sa�de do organismo como um todo, mas nenhum estudo chegou a comprovar ou desmentir isso.
O que a ci�ncia diz:
Fonte: Ann Intern Med. 2002;136:374-383

     N�o h� comprova��o cient�fica para o "qi", o "yin" e o "yang", mas isso n�o significa que a acupuntura n�o funciona. Pesquisas mostram que agulhas espetadas no lugar certo alteram o fluxo de alguns neurotransmissores no corpo. Estudos com resson�ncia magn�tica indicam que elas estimulam certos pontos do c�rebro. Outros trabalhos indicam que promove ativa��o de genes ligados ao sistema nervoso.

Homeopatia
O que �:


     Pr�tica criada no s�culo 19, se baseia no princ�pio segundo o qual uma doen�a pode ser tratada por uma subst�ncia nociva que produza sintomas semelhantes. Rem�dios homeop�ticos s�o dilui��es infinitas em �gua. As concentra��es das subst�ncias s�o t�o pequenas que na pr�tica n�o h� nenhuma mol�cula de princ�pio ativo na solu��o. A �gua teria uma esp�cie de "mem�ria" para guardar propriedades de subst�ncias com que entra em contato.

Efic�cia

     A opini�o varia muito, mas existem relatos favor�veis � homeopatia contra gripe, alergias e diarr�ia infantil. V�rios testes falharam, no entanto, para tratar enxaqueca ou prevenir gripe. Homeopatas alegam que sua pr�tica ajuda a equilibrar o funcionamento geral do organismo, algo dif�cil de se testar objetivamente.
O que a ci�ncia diz:

Fonte: Ann Intern Med. 2002;138:393-399

     Estudos favor�veis � mem�ria da �gua s�o escassos e altamente controversos. Alguns homeopatas sugerem que essa propriedade pode estar relacionada a aspectos estranhos da f�sica qu�ntica, como part�culas distantes no espa�o que t�m propriedades interconectadas. Cientistas mais c�ticos acham que essa extrapola��o � um exagero

Medicina complementar em n�meros:

Fonte: CAM use among adults 2002, CDC & NCCAM

     N�o h� no Brasil nenhum levantamento nacional recente sobre o uso de medicina n�o-convencional. Uma pesquisa rec�m-publicada nos EUA, por�m, d� pistas sobre o espa�o que essas pr�ticas ocupam hoje no Ocidente. Foram feitas perguntas sobre CAM (medicina complementar e alternativa, na sigla em ingl�s) para 31 mil adultos.
Alguns alopatas, por�m, adotam posi��o mais aberta. "Em geral a qualidade da pesquisa em homeopatia � baixa, mas quando s� estudos de alta qualidade s�o selecionados, um n�mero surpreendente mostra resultados positivos", diz Ted Kaptchuk, da renomada Escola M�dica de Harvard.

Perspectivas diferentes

     Outras pr�ticas, por�m, ca�ram em desgra�a mesmo entre entusiastas da vertente complementar. "Uma coisa que eu acho que n�o ajuda nada na sa�de � urinoterapia", diz Paulo Farber. "Quem faz fica com cara de quem tem insufici�ncia renal." Mas mesmo pr�ticas menos estranhas, como os florais de Bach e a iridologia, n�o passam pela peneira de alguns.
"Conduzi uma revis�o de todas as evid�ncias confi�veis sobre iridologia e conclu� que ela n�o � uma ferramenta aproveit�vel", diz Edzard Ernst. "Ela � at� potencialmente prejudicial, por meio de diagn�sticos errados." Praticantes da iridologia, por�m, n�o acreditam que uma abordagem cl�ssica sirva para desqualific�-la. "A iridologia n�o faz diagn�stico, porque isso pressup�e voc� dar um nome a uma doen�a", diz o iridologista Celso Batello, da Facis. "O que a �ris possibilita ver � a constitui��o geral de sa�de."
     O que dificulta a troca de argumentos � justamente que a maioria das pr�ticas de medicina complementar adota a chamada perspectiva "hol�stica", que observa a sa�de geral e n�o um sintoma espec�fico. Isso torna mais dif�cil a produ��o de provas de efic�cia ou inefic�cia, mas ser� preciso arranjar uma forma de test�-la. "Na minha opini�o a pesquisa cient�fica, seja qual for o tratamento que avalia, tem que ir nessa dire��o", diz Paulo Farber.

Quiropraxia
O que �:?


     Pouco conhecida no Brasil e muito difundida nos EUA, a quiropraxia � uma t�cnica de manipula��o da coluna vertebral e das juntas. Sua pr�tica come�ou em 1895 com o americano Daniel D. Palmer, um curandeiro leigo que atribu�a a causa da maioria das doen�as a nervos que incomodavam a regi�o da coluna.
Efic�cia:
A quiropraxia j� se mostrou bastante eficaz para dores agudas no pesco�o e dores agudas ou cr�nicas nas costas. Obteve sucesso relativo com enxaqueca, mas possui evid�ncia contradit�ria para problemas como asma, hipertens�o ou dores em articula��es do bra�o.

O que a ci�ncia diz:

Fonte: Ann Intern Med. 2002;136:216-227

     Pondo as alega��es de Palmer de lado, diversos estudos sugeriram mecanismos plaus�veis para o funcionamento da quiropraxia. H� tanto evid�ncias anat�micas/mec�nicas quanto neurol�gicas, como a descompress�o de nervos.

A sa�de dos olhos

     A iridologia usa mapas especiais para relacionar a constitui��o de sa�de de uma pessoa a imagens que se formam na �ris. N�o � uma pr�tica reconhecida cientificamente, mas ainda � alvo de pesquisas.

Panorama cient�fico da medicina alternativa

     A tabela elaborada abaixo traz exemplos das avalia��es de algumas t�cnicas realizadas pelo Setor de Medicina Complementar da Escola M�dica Pen�nsula, em Exeter, no Reino Unido. O grupo de pesquisa completou dez anos de trabalho no ano passado. As opini�es foram baseadas em revis�es sistem�ticas de testes cl�nicos feitos mundo afora.
Revista GALILEU �Edi��o 156 � Julho 2004
CAM nos EUA:
19%
24%
43%
dos americanos recorreram � CAM nos 12 meses anteriores � pesquisa
recorreram � CAM se alguma forma de reza � inclu�da entre essas pr�ticas
procuraram um profissional de CAM no mesmo per�odo
36%
62%
12%
As dez pr�ticas de CAM mais usadas nos EUA:
12%
8%
5%
5%
4%
fazem exerc�cios de respira��o
usam produtos naturais
das pessoas rezam pela pr�pria sa�de
participam de reza em grupo pela pr�pria sa�de
s�o adeptos da quiropraxia
fazem massagem por motivos de sa�de
praticam ioga como terapia
cuidam da sa�de com dietas especiais
26%
50%
55%
Raz�es alegadas para procurar CAM:
28%
13%
recorreram � CAM por recomenda��o de algum m�dico
achavam que valia a pena experimentar a CAM
acreditam que a CAM � eficaz quando aliada � medicina convencional
n�o acreditavam que tratamentos convencionais poderiam ajud�-los
de usu�rios aderiram � CAM porque o tratamento convencional era muito caro
T�cnica
Fun��o
Indica��o
Riscos S�rios
Benef�cios
An�lise Risco-Benef�cio
Acupuntura (aplica��o de agulhas)
Terapia Diagn�stico
Dor Cr�nica
Trauma do tecido infec��o (raro)
Nenhuma evid�ncia convincente
Incerta
Acupuntura (aplica��o de agulhas)
Terapia Diagn�stico
N�usea
Trauma do tecido infec��o (raro)
Evid�ncia convincente
Provavelmente positiva
Aromaterapia (tratamento com �leos arom�ticos)
Terapia
V�rias
Rea��o al�rgica, potencial carcinog�nico de alguns �leos
Boa evid�ncia para efeitos de relaxamento
Incerta
Terapia quelante (desintoxica��o com uso do amino�cido sint�tico EDTA)
Terapia
Cansa�o e dor muscular intermitente Doen�a coron�ria cr�nica
Danos ao rim, desregula��o de eletr�litos
Nenhuma evid�ncia convincente
Negativa
Quiropraxia (avalia��o e manipula��o da coluna vertebral)
Terapia diagn�stico
Dores no pesco�o e nas costas
Dissec��o de v�rtebra ou art�ria car�tida
Evid�ncia promissora mas n�o convincente para dor lombar aguda ou cr�nica
Incerta
Fitoterapia (rem�dios a base de plantas)
Terapia
Erva-de-S�o-Jo�o para depress�o
Intera��o com anticoagulantes e outras drogas
Clara evid�ncia de que � melhor que placebo
Positiva
Fitoterapia (rem�dios a base de plantas)
Terapia
Ginkgo biloba para fadiga muscular por m� oxigena��o
Intera��o com anticoagulantes e outras drogas
Clara evid�ncia de que � melhor que placebo
Positiva
Homeopatia
Terapia
V�rias
Nenhum risco
Nenhuma
Incerta
Olga Maria Mendon�a
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