FUNDAMENTALISMO ( Edmar)
Chama-se “fundamentalismo” certo tipo de reação religiosa contra toda forma de modernidade. No cristianismo, o fenômeno é, sobretudo próprio do protestantismo, mas é também observado no catolicismo.
No protestantismo o termo foi criado no início do século XX nos Estados Unidos somente pelo final do século foi aplicado o certos movimentos católicos.
Entre 1900 e 1915, um grupo de protestantes evangélicos conservadores publicou uma série de brochuras sob o título de Princípios Fundamentais (The Fundamentals).
Fazia eco a certo número de discussões que tinham agitado o protestantismo americano nos cinqüenta anos anteriores.
Sem serem unificadas, as Igrejas evangélicas tinham certa unidade de ponto de vista: mas no fim do século XIX, três debates as dilaceraram.
1º Devia-se à aceitação das teorias darwinistas da evolução por certo número de protestantes liberais e modernistas.
2º Ao ensinamento, em seminários importantes, da crítica bíblica (exegese).
3º A visão progressista da história própria do protestantismo liberal: Um Deus imanente fazendo vir seu reino por meio de esforços humanos. E essas idéias eram defendidas no momento mesmo em que havia evangelistas que se faziam apóstolos de visões milenaristicas e apocalípticas sobre a iminência do fim do mundo.
No catolicismo trata-se de movimentos sem grande importância. A doutrina católica da inspiração das escrituras oferece menos motivos ao fundamentalismo: o catolicismo dá lugar ao desenvolvimento do dogma e à importância da tradição, e, ao contrário dos fundamentalistas, não considera a Bíblia como a única e exclusiva autoridade.
Hoje, porém, podem observar-se alguns movimentos católicos quase fundamentalistas. Apóiam-se sobre documentos pontifícios conservadores dos últimos séculos, desconfiam dos decretos moderadores do Vaticano II, (assim o movimento fundado por Dom Lefebvre na França). Esses movimentos, parece, têm atraído menos a atenção da hierarquia do que certos desenvolvimentos informais de fundamentalismo em certos católicos influenciados por suas relações com os protestantes assim nos movimentos carismáticos, que atravessam fronteiras confessionais.
Pode-se descrever o fundamentalismo bíblico como aquele tipo de leitura da Bíblia que nasce de um tripre condicionamento e o toma de postura:
1- Uma concepção da inspiração bíblica como inspiração mecânica e verbal, que da lugar a defesa de uma inerência bíblica mecânica e sem nenhuma gradação, sempre que se trata do texto original. Consequentemente, tampouco se aceitam problemas especiais na transmissão do texto original da Bíblia.
2- Uma leitura e interpretação individual da Bíblia (sem âmbito eclesial), direta e imediata, porque a escritura e clara e evidente a quem a ela se achega com as devidas disposições espirituais (a este tipo de leitura se denomina impropriamente interpretação literal direta e imediata) com retrocesso explícito dos métodos críticos de exégesis fundados na razão, posto que seria tanto como interpretar com elementos humanos o que e divino, eliminando todo elemento sobrenatural da interpretação bíblica.
3- Uma leitura da Bíblia feita em um âmbito especialmente intenso de piedade (pietismo) e de conversão busca da conversão (revivalismo renascimento espiritual) que não poucas vezes conduz a formar grupos de seitas de origem evangélico, pietistas e de outros tipos de seguimento.
BIBLIOGRAFIA
MARDONES, José Maria, editor. 10 palavras clave sobre fundamentalismos, Estela:Verbo Divino, 1999
LACOSTE, Jean Yves. Dicionário crítico de Teologia, Trad. Paulo Meneses. São Paulo: Paulinas; Edições Loyola, 2004
Faculdade Dehoniana
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Prof: Milton Schuwantes
Aluna: Cleunice Ferreira da Silva
Teologia - 7º Semestre / 2006
Tames, Elsa. “Roteiro Hermenêutico para compreender Gl 3, 28 e 1 Cor 14, 33b-35” In RIBLA,
nº 15 – 1993 / 2, Petrópolis, p.8 – 15.
Roteiro hermenêutico para compreender Gl 3, 28 e 1 Cor 14, 33b-35
O presente artigo oferece algumas linhas hermenêuticas que iluminam uma releitura bíblica libertadora para a mulher.
O artigo estuda as afirmações contrárias que aparecem em Gl 3, 28 e em 1 Cor 14, 34-35. Uma passagem é favorável à mulher, a outra a discrimina. Para interpretar estes textos, será preciso recorrer a uma hermenêutica que privilegie a ótica da mulher e uma exegese que esclareça as situações do texto e do contexto. A intenção é buscar um roteiro que ilumine uma releitura libertadora para a mulher e a partir da mulher.
A leitura a partir da mulher se apega ao Espírito de discernimento. Privilegia o Espírito que, segundo Paulo, é quem orienta para a justiça, a vida, a liberdade, a paz e o respeito para com a dignidade das pessoas.
Uma aproximação exegética a partir da mulher propõe os seguintes princípios de interpretação:
- Para o evangelho todo o ser humano, sem exceção de raça, sexo ou etnia, deve gozar da mesma dignidade e privilégios diante de Deus e da sociedade.
- As desigualdades injustas entre homem e mulher, entre os negros indígenas e brancos, entre pobres e ricos é produto do pecado e devem ser combatidas.
- Na história humana, na qual se vivem às desigualdades injustas e os conflitos desumanizantes Deus, sempre se solidariza com os fracos, os oprimidos, os discriminados e os que sofrem. Deus é solidário com a mulher enquanto discriminada por seu gênero.
- Reconhecer e destinguir que a Bíblia está constituída por um conjunto de escritos, testemunhos de vida de um povo, recolhidos em diferentes épocas e lugares, e por isso refletem a cultura patriarcal da época.
- É importante estudar o texto em si, procurando compreender as intencionalidades do autor e os mecanismos próprios da narrativa e explicar o texto a partir da situação econômica, cultural, ideológica e política do contexto.
- Todo o texto que sugere ou exige a escravidão, ou submissão ou a discriminação vai contra a própria vontade de Deus e por isso não é normativo.
Obs.:provavelmente este texto (! Cor 14, 33b-35)é um adendo posterior de Paulo
Faculdade Dehoniana
Disciplina: Hermenêutica Bíblica
Prof: Dr. Milton Schwantes
Aluno: Claudio da Silva Barbosa
Resenha: BULTMANN, Rudolf, Crer e compreender: Artigos selecionados, São Leopoldo, Sinodal, 2001, p. 363-370.
Será possível uma exegese livre de premissas?
É preciso responder sim a esta pergunta se “livre de premissas” significa sem pressupor os resultados da exegese. Neste sentido, a exegese livre de premissas não só é possível, mas sim uma exigência. Em qualquer outro sentido, nenhuma exegese está livre de premissas, onde o exegeta não sendo uma tabula rasa aborda o texto trazendo consigo certas perguntas, ou seja, abordando-o com certo enfoque, além de ter certa noção do assunto de que trata o texto.
Expliquemos com rápidos traços a exigência de uma exegese no sentido dela não pressupor seus resultados, ou seja, esta livre de preconceitos. Paulo interpreta Dt 25,4 como prescrição de que os pregadores do Evangelho sejam sustentados pela comunidade (1 Cor 9,9), neste caso o exegeta não ouve o que o texto diz, e sim fá-lo dizer aquilo que ele já sabe de antemão. Este é um típico caso com o uso da alegoria.
No caso em que não se faz o uso de alegoria, entra em cena questões dogmáticas, a questão da consciência messiânica de Jesus seria um fato histórico e somente pode ser demonstrado pela pesquisa histórica. Todo conhecimento histórico está em discussão, a questão se Jesus tinha ciência de ser o Messias permanece aberta dentro da exegese. Toda exegese dirigida por preconceitos dogmáticos não houve o que o texto está dizendo, mas fá-lo dizer o que ela quer ouvir.
Se a exegese não está ausente de preconceitos logo não pode haver exegese livre de premissas, cada exegeta tem a sua individualidade, suas tendências, hábitos, dons e pontos fracos. Premissa imprescindível é o método histórico ao se inquirir os textos, onde, na qualidade de interpretação dos textos históricos, a exegese é parte da ciência histórica.
Do método histórico naturalmente faz parte que um texto seja interpretado segundo as regras da gramática e do dicionário, cada texto fala na linguagem de sua época e de sua esfera histórica. Um exemplo, em nossa língua o termo neo-testamentário pnêuma é reproduzido com “espírito”. Daí se explica por que a exegese do século XIX interpretava o NT a partir do idealismo inspirado no pensamento grego, até que, em 1888 Hermann Gunkel mostrou que o pneûma neotestamentário significa algo totalmente diferente, isto é, a prodigiosa força e maneira de atuar de Deus.
O método histórico implica a premissa de que a história é uma unidade no sentido de uma contextura integrada de efeitos, onde os eventos individuais estão concatenados entre si pela seqüência de causa e efeito. O texto precisa ser traduzido e a tradução é tarefa da ciência histórica, no momento em que falamos de traduzir, anuncia-se o problema hermenêutico. Traduzir significa tornar compreensível e pressupõe compreensão. A compreensão da história como contextura de efeitos pressupõe a compreensão de forças atuantes que concatenam os fenômenos individuais. Essas forças são as necessidades econômicas, sociais, ambição de poder na política, paixões, idéias e ideais humanos.
Isso não implica nenhuma falsificação do quadro histórico, contanto que o enfoque pressuposto não seja um preconceito, mas apenas um enfoque, e contanto que o historiador esteja consciente de que seu enfoque é unilateral, ao inquirir o fenômeno ou o texto a partir de determinada perspectiva. O quadro histórico fica falsificado somente quando determinado enfoque é declarado como único possível, quando, por exemplo, toda a história é reduzida à história econômica. Acontecimentos como a Reforma podem ser encarados sob o ponto de vista da história da igreja, da história política, da história econômica e da história da filosofia.
Para a compreensão histórica é necessária a compreensão do objeto em pauta na história e das pessoas que agem na história. Esta compreensão sempre pressupõe uma relação do intérprete com o objeto que se manifesta direta ou indiretamente nos textos. Esta relação está baseada no contexto vivencial no qual se encontra o intérprete. Somente quem vive dentro de um Estado, de uma sociedade, pode entender os fenômenos políticos e sociais do passado e sua história, assim como somente quem tem uma relação com a música poderá entender um texto que trata de música, etc.
Portanto, a exegese sempre pressupõe certa compreensão dos objetos, baseada numa relação vivencial, e nesta medida nenhuma exegese está isenta de premissas. O conhecimento histórico nunca é definitivo e concluído – na medida em que isto também vale para a compreensão prévia com que o historiador vem inquirir os fenômenos.
Quais as conseqüências para a exegese dos textos bíblicos?
Como toda e qualquer interpretação de um texto, a exegese dos escritos bíblicos precisa estar isenta de preconceitos. A exegese não está isenta de premissas, uma vez que, em sua qualidade de interpretação histórica, ela pressupõe o método de pesquisa histórico-crítica. Pressuposta está ainda a relação vivencial do exegeta com o objeto tratado na Bíblia e, portanto, certa compreensão prévia. A compreensão prévia não está concluída, mas aberta, de modo que pode haver um encontro existencial com o texto e uma decisão existencial. A compreensão de um texto nunca é definitiva, mas permanece aberta, porque em cada futuro o sentido da Escritura se manifesta de nova maneira.
Do Hermenêutica Bíblica
Práxis e interpretação
Vitor Mendes Santos e-mail: [email protected]
José Severino CROATTO, Hermenêutica Bíblica, São Paulo-Paulinas, São Leopoldo-Sinodal, 1985, 75p.
PRAXIS E INTERPRETAÇÃO
O texto nasce de uma experiência, que procura sintetizar uma prática, um fato significativo, uma cosmovisão, um estado de opressão, um processo de libertação, uma vivência de graça e salvação. Isto se chama acontecimento. O acontecimento pode ter duas naturezas, que embora distintas não sejam separáveis: a primeira é a ação humana, individual, comunitária ou nacional e a segunda é um fenômeno natural na medida em que incide sobre a vida do homem. Diante destas situações concretas surge a palavra que visa narrar o acontecimento, no entanto, a palavra nunca vai abarcar a totalidade de significados do acontecimento, mas sempre vai privilegiar algum aspecto de interesse e deixar outros que, embora sejam importantes não são contemplados na ocasião. A palavra, no próprio ato de narrar o acontecimento acaba por interpretá-lo. Aliás, toda leitura de um acontecimento/fato se faz a partir de um determinado lugar e sob uma expectativa própria de quem a faz.
Outra consideração pertinente é que um determinado acontecimento pode produzir sentido e manifestar-se em outro fato distinto e, por isso mesmo o acontecimento primeiro vai sendo configurado como fundante de outros e sendo “atualizado” no curso histórico à luz dos novos acontecimentos. Neste sentido a história de Israel é paradigma, uma vez que o episódio do êxodo se atualiza nas experiências posteriores do povo, que por sua vez “bebe” da fonte inesgotável de significado da saída do Egito.
No processo hermenêutico de um acontecimento há conflitos na medida em que os acontecimentos posteriores são lidos à luz do fato, ou seja, há um acúmulo de interpretações. A este conflito se atribui o fato de que o acontecimento sempre tem um excesso de sentido que não se esgota em sua primeira realização (polissêmico), no entanto, cada interpretação é totalizadora, exclusivista, “apropriadora” de sentido, embora esteja fora da realidade contextual da origem do fato fundante. Portanto, dá-se origem a uma corrente hermenêutica a partir do acontecimento (polissêmico = muitos significados) e a interpretação do mesmo numa determinada perspectiva (monossêmico = clausura ou único significado).
Este processo dinâmico (polissemia/monossemia) converte-se em tradição viva, que por sua vez se reveste de muitas formas, desde práticas, celebrações festivas, cantos e por fim textos orais e escritos que, por sua vez, ganha expressões nos diversos gêneros literários. Da tradição formada acerca de um determinado acontecimento símbolo, pode formas outras, que embora o fato original seja o mesmo, o conteúdo da tradição pode ser conflitivo em relação à primeira tradição. A tradição por sua vez não é fechada e como tal é interpretada pelas tradições posteriores. Esta dinâmica das tradições tende a se dividir ou fixar-se em um cânon, que por sua vez vai enclausurar-se ou privilegiar aspectos do acontecimento e excluir outros. Portanto, o cânon é um movimento de clausura que exclui outras leituras de uma tradição antecedente e orienta a interpretação de novas práticas. Toda clausura do cânon, portanto, é parte de um longo processo hermenêutico. Em um determinado momento de seu percurso, faz-se um corte e uma delimitação dos textos (orais ou escritos) que representam a interpretação dos acontecimentos que deram origem a essa mesma tradição. Assim, se desloca da intertextualidade (um texto relacionado com outro, um mito compreendido por outro da mesma comunidade) para a intratextualidade (tudo o que está dentro de um outro texto).
O “adiante” do texto
Toda leitura é produção de sentido e se faz a partir de um contexto ou lugar diferente no acontecimento, logo o relevante passa a ser, sem negar o elemento histórico, o que se construí, ou seja, o adiante do texto: o que ele sugere como mensagem pertinente para a vida daquele que recebe ou busca. O texto, adiante desprende um mundo de possibilidade, que o leitor pode sintonizar com o seu próprio mundo. O adiante de um texto contrapõe ao fato/acontecimento, enquanto ele é enclausurado no seu significado, neste sentido, um determinado fato/acontecimento deixa de ser uma realidade estática e fixa no seu contexto. No entanto, o adiante do texto oferece muitas possibilidade de releitura a partir do fato acontecimento em si, iluminado assim, outras realidades, épocas e contextos diferentes do primitivo.
Exegese e eisegese
A exploração do sentido de um texto não se reduz a um trabalho crítico, puramente literário e acadêmico. Existe também uma práxis, do crítico ou do seu contexto sócio-histórico, que indica o parâmetro da leitura. Não é possível “sair” do texto trazendo um sentido puro recolhido nele (ex-egese, do grego conduzir/guiar). No entanto, ao “sair” no texto a pessoa leva consigo a sua experiência vivencial que repercute significativamente na produção de sentido que é a leitura. Portanto, “entra-se” no texto com perguntas que nem sempre são as de seu autor (eis-egese).
FACULDADE DEHONIANA – Taubaté
Aluno: Marcelo Motta da Silva. 4º Teologia.
HERMENÊUTICA BÍBLICA. J. Severino Croatto
Texto e acontecimentos humanos são signos que necessitam de interpretação.
No texto desaparece o emissor original. O autor (se falamos de escritura) “morre” no próprio ato de codificar sua mensagem.
Desvanece-se o horizonte do primeiro discurso, seja porque o contexto cultural ou histórico não é o mesmo, seja porque os destinatários atuais que recebem a mensagem tem um outro “mundo” de interesses, preocupações, cultura, etc.
O surgimento de um novo receptor da mensagem, por sua vez situado em um novo horizonte de compreensão, distancia ainda mais o texto de seu marco original e do contato com seu autor. Não é a mesma coisa ler ou escutar como primeiro destinatário ou como segundo. A autonomia do texto que condiciona a abertura hermenêutica do ato de ler.
Quanto maior a distância em relação ao autor, tanto maior dimensão adquire a releitura de um texto. Inversamente, quanto maior é a riqueza semântica de um relato, mais distante está o autor da mente do intérprete. Por essa razão, os textos sagrados ou os relatos míticos costumam ser anônimos. Isto não somente por às vezes serem criação progressiva de uma comunidade, mas sobretudo porque tem mais significação por aquilo que dizem do que por aquele que o diz. Parece que sua carga de sentido é mais densa quanto menos se sabe sobre seus autores.
Toda leitura é produção de um discurso e, portanto, de um sentido, a partir do texto. Um texto é suscetível de dizer muitas coisas ao mesmo tempo.
Um mesmo texto pode ter uma leitura fenomenológica, histórica, sociológica, psicológica, literária, teológica e outras mais. Cada uma das leituras do mesmo relato é uma produção de um discurso a partir desse texto. Cada leitura é uma produção de sentido. Sempre se pode voltar ao texto e uma e outra vez produzir sentido. Podemos ver um texto como produção inesgotável de sentido e, portanto, como recriação constante da mensagem.
Em todo texto há um “adiante”, esse mundo de sentidos que se abre em virtude de sua polissemia, potenciada por sua própria condição de estrutura lingüística e, como sabemos, pela morte de seu “autor”.
A leitura de um texto será uma produção de sentido, nunca uma repetição do primeiro sentido. Isto é fundamental para entender o processo hermenêutico.
Todo texto concentra uma polissemia que, por sua condição de “tecido” estrutural de códigos lingüísticos, abre-o até o “adiante”. Toda leitura de um texto é uma produção de sentido em códigos novos que, por sua vez, geram outras leituras como produção de sentido e assim
A cadeia de releituras da Bíblia, ou de outro texto, significa, em última instância, uma acumulação de sentido. Quanto maior é a dist6ancia, mais fecunda pode ser a exploração da reserva-de-sentido do texto. Por causa disso se pode afirmar que a “distanciação” cumpre uma função interpretativa. A partir de um ponto de vista “historicista”, este fenômeno assusta, porque parece que se perde em proximidade e em exatidão em relação ao sentido original. A partir de um ponto de vista hermenêutico, no entanto, é um fenômeno fecundo e criativo.
Querer ler os fatos como se tivessem acontecido na forma em que estão contados é roubar-lhes a distância hermenêutica que novamente os fez ser significativos.
Há um excesso-de-sentido que transborda e deve ser recolhido em novas práticas e em novas palavras. Os novos acontecimentos são vividos à luz das escrituras normativas, porém ultrapassam-nas.
O exegeta está imerso em uma tradição, em um contexto histórico, é sujeito de determinadas práticas sociais. Tudo isso condiciona sua leitura da Bíblia como “releitura”. O acontecimento se abre para muitas leituras, cada uma das quais fecha o sentido, para novamente abrir-se, e assim sucessivamente, relendo a Bíblia a partir de nossa vida.
Hermenêutica bíblica
Inspiração e autoridade da Bíblia
Eni Aparecida Rodrigues.
A Bíblia antes de ser escrita, ela foi vivida com
profundidade na fé de um povo que procurou em meio as suas dificuldades existenciais ser fiel e seguir o caminho de Deus.
Os escritos surgiram pela necessidade de manter a fidelidade a
Deus em uma época de crise e de transição, onde se intensificava
a reflexão sobre o passado em busca de identidade. Aconteceu num processo natural sem intervenção extraordinária, com interesse principal de manter viva sua memória.
O processo pelo qual passou o povo bíblico e se chegou à
conclusão de que a Bíblia é inspiração divina e autoridade, se dá de duas maneiras: do lado de fora e do lado de dentro. Visto
do lado de fora temos um povo que a principio não tinha uma
consciência reflexiva e clara sobre a questão de ser povo de
Deus. Porém, existia desde o começo de sua história a vontade de
realizar o compromisso assumido com o Deus do povo e a vontade de ser fiel. Isto só será explícito e atingirá seu objetivo no
Sermão da montanha (Mt 5-7) e na Morte e Ressurreição de Jesus
Cristo. Na realidade a consciência de ser povo de Deus é fruto de experiências vividas através de meios que exprimiam,
transmitiam e faziam crescer a sua consciência de povo. Meios
estes, que eram as festas e celebrações (Páscoa); legislações
(acontecimento históricos da libertação do Egito, os dez
mandamentos...) Através desta vivência, o povo descobriu o
alcance da grande verdade de Deus-conosco. E acabaram por reconhecer a raiz última das suas motivações que era à de serem
guiados e impulsionados pela luz da Palavra de Deus e pela força do seu Espírito (cf. Is 55, 8-13). Foi esta luz, (visto do lado de dentro) que fez com que o povo criasse dentro de si a consciência de pertença a Javé e o distinguisse de outro povo. Esta forma de ver se manifestava por expressões como: “Eu sou Javé, vosso Santo, o criador de Israel, vosso rei” (Is 43,15)... É partindo desta fé, do Deus-conosco, que a Bíblia tira a sua autoridade e inspiração. Assim, os escritos tem autoridade divina, ela é dada pelo próprio Deus, que através dos profetas pede fidelidade.
No Novo testamento com Jesus, tudo fica mais claro, (principalmente com o mistério pascal) Ele próprio reconheceu a autoridade bíblica como vinda de Deus usando passagens para justificar sua conduta, um exemplo; quando diz que Davi falou sob a inspiração do Espírito (Mt 22,43)... Nos escritos de Paulo a Timóteo (2Tm 3,16), pela primeira e única vez é firmada que “toda a escritura é inspirada por Deus”, e também explicita o seu objetivo. Nisto, se concluiu que a Bíblia não foi escrita pelo homem em si, mas o próprio Deus o mandou escrever. Essa é a fé até hoje do povo hebreu e da Igreja, que olhando pelo lado de dentro, lê com o mesmo olhar de fé e com a mesma consciência de Povo de Deus.
Com Jesus, pela sua ressurreição, apareceu o fim para o qual tudo caminhava, ele iluminou o caminho percorrido e dele revelou uma nova dimensão. Cristo tornou-se a chave da interpretação da história e dos acontecimentos vividos desde o começo (cf. Lc 24, 25-27; At 13, 32-37). Nesta concepção, o fim justificou o começo, e, a inspiração e a autoridade dos escritos bíblicos adquiriram autenticidade de Palavra viva e eficaz.
MESTERS, C. “Inspiração e Autoridade da Bíblia”, In Por trás das Palavras. Petrópolis: Vozes, 1999, p.163-224.
Hermenêutica Bíblica
Aluno: Ronaldo Rodolfo Ferreira
Apresentado no dia: 05/05/06
A parábola da porta (ou a história da explicação da Bíblia ao povo)
“Os dois estudiosos descobriram coisas lindas que o povo não conhecia, embora as visse na sua casa, todos os dias. Obtiveram licença para raspar algumas paredes e descobriram pinturas antigas que representavam a história da vida do povo, história que o povo não conhecia. Fizeram escavações junto às colunas e conseguiram retraçar a história da construção da casa, história que ninguém se lembrava. O povo não conhecia o passado da sua vida e da sua casa, porque o passado estava dentro dele, atrás dos seus olhos que não se enxergam a si mesmos, mas que enxergam todo o resto, orientando a vida para a frente” .
O autor faz uma visão critica sobre a interpretação e compreensão da Bíblia. Para ele nós não podemos reduzir a Bíblia ao nosso tamanho. Procuramos explicar e explicitar o olhar com que olhamos o interpretamos a Bíblia e a vida. E isto ele usa duas vias: 1º voltando para trás, até onde nasceu a Bíblia; a segunda olhando ao redor, lá onde nasce hoje a luz sempre nova que ilumina o passado descrito na Bíblia e que abre o seu sentido para nós. Luz que vem do povo de Deus que vive hoje a sua fé. O livro é como uma parábola. A parábola procura, em termos visíveis e compreensíveis, chamar a atenção para a realidade invisível inefável que existe na vida.
Descreve a história da explicação da Bíblia ao povo. Descreve a história deste livro (Por trás das Palavras), uma introdução à leitura da Bíblia. O livro quer contribuir para que se realize a esperança que nasceu.Procura mostrar como nasceu e onde estão as suas fontes de informação. Nasceu de noite, no meio da alegria do povo.
Nasceu de dia, no meio da rua deserta e triste. Nasceu de dia e de noite, junto aos livros e às máquinas complicadas, num canto escuro da Casa do Povo. A parábola procura contribuir para que o povo possa reencontrar a porta da frente, fechada pelo vento, por causa da atitude estranha dos doutores. Ficamos em frente da porta, ainda fechada pela metade. Os mendigos não conseguiram abri-la inteiramente. Porta bonita e larga, sempre aberta; cujo limiar traz marcas dos pés daqueles que por aí passaram, no silêncio do tempo, à procura de Deus e do irmão. Porta que une a casa à rua e a rua à casa, o passado ao presente e o presente ao passado, o objeto ao sujeito e o sujeito ao objeto, a Bíblia à vida e a vida à Bíblia, Deus aos homens e os homens a Deus.
Para o futuro, se espera: que apareça de novo a porta da frente; que se tire o mato que lá cresceu; que se abram os batentes a mais não poder; que se devolva ao povo a alegria que perdeu; que se devolva ao povo aquilo que era seu.
Para o futuro, se espera: que mude de novo o aspecto da rua; que a entrada bonita lhe restitua a beleza; que a luz da rua penetre, de novo, na Casa do Povo; que assim desapareça a cor artificial.
Para o futuro, se espera: que seja fechada a porta do lado; que ela seja fechada, não porque não presta, mas para que todos, tanto os estudiosos como os visitantes, junto com o povo sabido e o povo sofrido, possam todos saborear a verdadeira alegria que a casa comunica quando é a casa de todos.
Para o futuro, se espera: que entrada seja novamente na frente; que os estudiosos entrem por lá, no meio do povo, misturados com ele; que, assim, o conhecimento das riquezas da casa já não afaste o povo da casa; que os alunos formados na escola dos doutores não se esqueçam de que pertencem ao povo; que devolvam ao povo a vida e a alegria que do povo receberam.
Para o futuro, se espera: que sejam feitos estudos sempre mais profundos da beleza e da riqueza da Casa do Povo, mas que sejam feitos à luz que vem da rua e da alegria do povo; que, assim, os estudos contribuam para aumentar ainda mais a alegria. Alegria que nasce da vida de hoje que o povo vive, da vida de ontem que doutores estudam, da vida de amanhã que todos esperam.
O único problema que fica é aquele estudioso que ficou bravo e que considera a casa como sua. Mas o povo resolveu ir falar com ele e dizer-lhe: “Sem nós, a casa nunca teria surgido! Sem nós, você nunca teria nascido”.
Eu preciso de três coisas para reconhecer a Bíblia: a realidade da vida, das coisas ao meu redor e saber viver em comunidade: a Igreja, a vida e a comunidade. (
BIBLIOGRAFIA
MESTERS, Carlos. Por Trás das Palavras: Um estudo sobre a porta de entrada no mundo da Bíblia. Vozes: Petrópolis, 1999.
Faculdade Dehoniana
Hermenêutica Bíblica
Prof. Dr. Pt. Milton Schwantes
Aluno: Antonio J. Vilas Boas
Homilia do Segundo Domingo da Páscoa
Pe. Rolando Gabriel de Oliveira
Nós continuamos celebrando a Páscoa, que é preparada quarenta dias na quaresma e é celebrada cinqüenta dias até Pentecostes. A Ressurreição de Cristo, é a razão da nossa fé. Nós percebemos no Evangelho de hoje, nas suas ultimas palavras, onde João diz: “Jesus realizou muitos outros milagres que não estão escritos nesse livro, mas o que está escrito aqui, foi escrito para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que crendo tenhais a vida em seu nome”. Portanto, tudo na Bíblia, na Palavra de Deus, na vida, deve nos levar a Jesus Cristo Ressuscitado. Porque Nele está a vida que nós buscamos, Nele está a garantia da vida para sempre. E é na fé, em nome de Cristo, que nós encontramos o nosso Redentor, o nosso libertador, porque é Ele o único que realmente pode nos salvar.
João apresenta as aparições de Jesus aos seus discípulos, e elas acontecem num domingo. Por que num domingo e não no sábado, tão sagrado para os judeus? Primeiro, porque foi num domingo e não num sábado que Jesus ressuscitou . Segundo, porque os cristãos se reuniam num domingo para celebrar a ressurreição; Terceiro , porque o centro da vida cristã deixou de ser a lei e os profetas celebrados no sábado, para dar lugar à ressurreição celebrada no domingo. .
A comunidade não é só um lugar de encontro com o ressuscitado, mas ela mesma é um testemunho vivo da ressurreição de Jesus e sua presença entre os cristão. “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles”, “que eles sejam um para que o mundo creia que tu me enviaste”
Jesus apresenta-se na comunidade desejando a paz. “Estando fechadas as portas, Jesus entrou”. As portas estavam fechadas não por vontade, nem por recusa do Cristo ressuscitado mas por medo dos judeus. Bem que os apóstolos queriam, a presença de Jesus. O medo, o sofrimento, a dúvida, a angústia, o desemprego, a doença ... são trancas que impedem nosso coração de se abrir para Jesus. Mas só a recusa, a má vontade, impedem que Ele entre.
Aqui a paz dá lugar ao medo que trancava as portas. A paz e a confiança que abrem as portas a Jesus vencendo o medo dos judeus. “Não tenhais medo, havia dito Jesus às mulheres que haviam se encontrado com Ele ao lado do túmulo. Não tenham medo também disseram os membros do Sinédrio aos soldados que cuidavam do sepulcro, quando Jesus ressuscitou. O medo paralisa muita gente boa na prática do bem, a vergonha e o respeito humano não se atrevam a expressar o que sente. A segurança do sinédrio era fundamentada na mentira. A de Jesus no amor e na entrega de sua própria vida.
Nas duas aparições, Jesus mostra as mãos e o lado para dizer que não é um fantasma, uma ilusão, mas é o próprio Jesus.
Finalmente Jesus perdoa os pecados e está mandando os discípulos perdoar em seu lugar. É o mais importante lava-pés feito em nome de Jesus.
Jesus já lhes havia deixado a missão de celebrar a Eucaristia na qual Ele estará presente todos os dias em cada santa Missa. “Façam isso em memória de mim”. Agora lhes dá o Espírito Santo, para que em seu nome continuem perdoando os pecados. Não se trata de perguntar porque, trata-se de crer no que ele fez. O Domingo de hoje é chamado Domingo da misericórdia, porque o perdão de Deus se torna para sempre presente através de sua Igreja.
Faltava um dos 12 na comunidade quando Jesus apareceu. Era Tomé. Por não ter visto Jesus, Tomé se recusa a crer. Mais uma vez a misericórdia se manifesta e Jesus dá ao seu apóstolo uma nova oportunidade. “Põe aqui teu dedo e olha as minhas mãos, não sejas incrédulo mas tenha fé”.
Tomé faz então uma bela profissão de fé que deveríamos repetir todos os dias a todos os momentos, como oração, como exame de consciência, até criar em nós a convicção mais profunda de servos e filhos que amam e vivem para o seu Senhor e Deus.
João no Evangelho, não quer crucificar Tomé. Ele foi escolhido como símbolo de todos os que têm dificuldade em aceitar a ressurreição de Cristo não só na comunidade de João mas hoje também. Não só entre o povo mas também entre os apóstolos e seus sucessores.
“Estes sinais foram escritos, para que creiais que Jesus Cristo é o Filho de Deus e crendo tenhais Nele a vida eterna.
Na segunda leitura que ouvimos, ( 1Pd 1, 3-9), Pedro nos dá a importância da ressurreição. Ela fecunda nossa vida. Se pegarmos duas sementes iguais, sendo uma fecundada e outra não, elas na verdade serão essencialmente diferentes. Assim duas pessoas, podem ser iguais em tudo, mas diferentes na fé e na graça de Deus, dependendo da fecundidade que vem da ressurreição de Jesus. A presença de Cristo ressuscitado traz alegria porque ele dá sentido e vida eterna a tudo o que fazemos, apesar de nossas fraquezas. Apesar das portas fechadas Jesus entra. Ele só não entra quando segurarmos as portas por dentro para que ele não entre, assim como fizeram os fariseus.
A primeira leitura, (At 2, 42-47) nos ensina como cultivar a vida divina entre nós. Apresentando-nos a vida da primeira comunidade. De Jerusalém, a comunidade mãe do cristianismo, fundada a partir dos apóstolos.
A primeira característica é a perseverança. Só é cristão quem persevera. É fácil entusiasmar-se pelas coisas de Deus, mas é muito difícil perseverar nos seus caminhos todos os dias e em todas as circunstâncias. A semente embora fecundada, não nasce de um dia para o outro, temos que ter a fidelidade à catequese dos apóstolos. Nossa Igreja é católica e apostólica. Tem suas raízes e seu tronco em Cristo e seus primeiros ramos são os apóstolos. Pela catequese os apóstolos anunciam o cumprimento das profecias e proclamam que os últimos tempos chegaram. A escuta da palavra de Deus é o único e sólido fundamento sobre o qual se apóia a fé da comunidade de Jerusalém e das nossas também. Outras manifestações, como emoções religiosas, revelações particulares são estímulos fracos e passageiros.
Se não vivermos em comunhão, não seremos testemunhas de Cristo A comunhão foi o que Jesus pediu em sua oração sacerdotal. “Que todos sejam um”, e deu como exemplo a união entre Ele e o Pai. “Assim como nós somos um, eu em ti e tu em mim, para que o mundo creia que tu me enviaste”.
O partir do pão, lembra o pai de familia que no início da refeição proferia a bênção, partia o pão, e o distribuia a todos os convivas. Ainda hoje não se pode imaginar uma comunidade cristã sem a celebracão da eucaristia.
Jesus ressuscitado continua buscando alimentar a nossa fé. Foi o que Ele fez com o apóstolo Tomé. Tomé queria sinais e Jesus foi ao seu encontro e lhe diz: Sou eu mesmo. E Tomé faz esta bonita profissão de fé: Meu Senhor e meu Deus. Jesus dá sinais, mas diz: Felizes os que crêem sem terem visto. A fé é isto, é crer e aceitar sem ter visto, é aceitar e acolher Jesus Cristo como Deus e Senhor da nossa vida.
É neste Cristo que nós cremos e queremos professar a nossa fé. Creio em Deus Pai...
Comentário
Participando da missa da qual transcrevi a homilia acima, percebi que o padre conseguiu usar uma linguagem acessível que permitia ao público se concentrar e criar um clima que ajudava pensar em Deus. observei que as pessoas que estavam ao meu lado estavam atentos ao pregador. Certamente, o pregador conseguiu ajudar as pessoas que ali se encontravam a reconhecer Jesus Cristo, como fez o apóstolo Tomé.
Certamente o silêncio absoluto daquela Igreja, naquele momento, era a confirmação que o povo estava entendendo perfeitamente o podre, pois ele usou uma linguagem familiar, sem ser fundamentalista respondendo aos desafios que a própria homilia comporta:
* Comunicar: aquilo que Jesus quis dizer (Reconhecer no Evangelho os valores centrais que foram apresentados nas leituras.
• responder: as perguntas, inquietações e ansiedades da comunidade cristã naquele momento. Portanto tem que conhecer a comunidade.
• Unir: a comunidade com as palavras de Jesus, incentivando a comunidade a reconhecer Jesus Ressuscitado como Senhor da vida.
Assim, percebe-se que a homilia é parte integral da vida, e nessa homilia transparece aquilo que este padre procura viver, perece ser o espelho de sua vida. Ligou a experiência vivida pelos discípulos do Evangelho com as experiências que as pessoas devem fazer no dia-dia.
Ele não usa explicações do tipo hermenêutica, e nem faz uma teologia da morte ou outras explicações teológicas abstratas sobre tal argumento. Deixou que as imagens da narração do Evangelho, entrassem na vida do povo.
Faculdade Dehoniana
Disciplina: HERMENÊUTICA BÍBLICA
Professor: Milton S.
Aluno: Geovane Inácio dos Santos
4º. Ano – 7º. Semestre
ENTRE DUAS MARGENS: O PROCESSO HERMENÊUTICO
Resumo: Ribla 53 – Ediberto López
“Entre duas margens” é uma metáfora que trata sobre o diálogo, sobre a pergunta hermenêutica no Caribe. A partir do Caribe se intenta compreender formas de interpretar o texto bíblico na margem original do pano de fundo histórico social e a margem dos leitores caribenhos que lêem o texto com novas lentes. Mas existem outras duas margens que servem de marco teórico para o processo interpretativo: a margem do processo hermenêutico na leitura popular da Bíblia entre os biblistas latino-americanos e a outra margem dos biblistas latinos nos Estados Unidos.
“Nós, os indígenas dos Andes e da América, decidimos aproveitar a visita de João Paulo II para devolver-lhe a sua Bíblia, porque em cinco séculos não nos tem dado nem amor, nem paz, nem justiça. ... A Bíblia chegou até nós como parte de um empreendimento colonial imposto. Foi o braço ideológico do assalto colonial.” (Ruiz, 114).
“A Bíblia tem sido tão boa conosco.” (González, 23)
O título das duas margens com que iniciamos esta apresentação é uma metáfora do encontro entre os leitores e leitoras da Bíblia em nossa margem social e a outra margem distante em que foi escrito o texto, em outra localização social. A imagem da margem me parece que é uma metáfora apropriada para compreender este encontro entre o texto e os leitores e leitoras de nosso tempo. Foi Gadamer quem utilizou a metáfora horizonte para tornar explícito o processo de interpretação nos quais um texto de um horizonte é compreendido por leitores e leitoras de outro horizonte. Eu tenho utilizado uma imagem caribenha, margem, ou seja, duas margens. Duas margens por várias razões. Isto então, porque os textos bíblicos provem de outra margem, das margens do Mar Mediterrâneo e as margens dos rios que faziam germinar o Antigo Médio Oriente. Mas também, duas margens porque os porto-riquenhos vivemos entre as margens de nossa pátria e a outra margem norte-americana, mas com um ouvido atento a margem latino-americana. Com efeito, quando viajamos ao Estados Unidos usamos um refrão que parte da premissa de que entre Porto Rico e Estados Unidos existe duas margens. Por isto dizemos: Brincaste no charco? Quando nos referimos ao Mar Atlântico, que separa os porto-riquenhos desta margem dos porto-riquenhos da outra margem. Num mundo globalizado, existe cada vez mais diálogo entre nossas margens e outras margens, e especialmente nossas outras margens no sul latino-americano. Portanto, duas margens é uma metáfora que recolherá todo este diálogo entre nossa leitura acadêmica e pastoral da Bíblia no diálogo com o contexto social inicial e as comunidades interpretativas entre hispanos e latino-americanos.
Interpretar o texto é a possibilidade de que leitores e leitoras de outra margem podem fazer exercício interpretativo que lhes permita de alguma maneira submergir-se nas margens virtuais do texto. Quando os leitores e leitoras podem nadar na margem do texto, a isto chamamos interpretação. Gadamer havia chamado este processo hemenêutico de fusão de horizontes, mas nós, os caribenhos, bem o podemos chamar de fusão de margens.
O problema da interpretação sempre tem mesclado diferentes margens. Um recebe o impacto do potencial de cada margem e neste diálogo entre o texto e seus leitores.
A polivalência do texto se apresenta clara tanto dentro do texto, como entre os rabinos e os Pais e Mães da Igreja. Assim, os rabinos alegam que as palavras da tora teriam 70 significados. Cada leitor deve reconhecer que 70 é o múltiplo de 7x10. Dois números que implicam totalidade. Com isto os rabinos queriam assinalar a completa polissemia que tem os textos bíblicos. Os Pais e Mães da Igreja assinalaram a natureza da metáfora do texto com os quatro tipos de interpretação que viam no texto: (1) literal, (2) espiritual ou alegórica, (3) Antropológica ou ética, (4) analógica ou escatológico-mística. Desta maneira nossos antepassados hermeneutas no tem advertido que o texto no tem só um significado. Os leitores e as leitoras estão separados do texto, mas o texto está livre de suas correntes de localização histórica e social no encontro com cada leitor em sua nova situação. Como tanto o texto como os leitores estão separados pela distância temporal, cultural e histórica, o encontro entre ambos propicia um enriquecimento potencial do texto. Neste sentido, o melhor do texto é seu potencial hemenêutico. Nós interpretamos a partir da nossa margem. Portanto, a interpretação é em nossa linguagem, com nossos pré-entendimentos partindo de nossas perguntas. Por isso interpretamos o texto em nossa língua e em nossa realidade social. É sempre um percurso quando o texto antigo entra em nossa margem. Todavia nossas interpretações históricas, sociológicas, literárias modos de paradigmas de nossa margem, com nossas perguntas e preocupações que abordam o texto de outra margem. Esta é a beleza e o perigo da interpretação do texto. Perigo e beleza iniludível. Beleza, porque o texto antigo pode converte-se em Espírito que vivifica, perigo porque está a opção de que se converta em “letra que mata” (2Cor 3, 6). A interpretação do texto está abordando a instabilidade do mesmo. O texto tem uma natureza instável. Isto significa que o processo de interpretação sempre estará abordando um processo de abertura cheia de significados. O texto pode se r interpretado fechando a significação no presente, mas é impossível dar-lhe um fechamento absoluto ao potencial de significação. Por isso o que temos modos de leituras do texto. Isto no obriga a fazer uma revisão de nossa compreensão do processo hemenêutico.
Como interpretamos os textos bíblicos? Quais são as nossas chaves para interpretar o texto em nossa realidade social? Toda leitura do texto pressupõe que este tem três dimensões no diálogo entre o texto e os leitores e as leitoras: (1) por trás do texto, (2) no texto, (3) diante do texto.
Por trás do texto se refere à dimensão diacrônica do texto. Uma leitura diacrônica do texto intenta reconstruir o significado do texto com toda a informação possível que pode utilizar para localizar o texto em seu contexto histórico-social. Uma segunda dimensão de qualquer leitura apropriada é uma olhada no texto. Isto é o que conhecemos nos círculos hermenêuticos de uma leitura sincrônica ou uma aproximação literária do texto. Uma terceira dimensão é o que está diante do texto, a interpretação que leva a sério nossa margem de maneira que o texto dê uma nova mensagem para hoje. Esta aproximação está relacionado às teorias da recepção. Esta perspectiva tem sido desenvolvida pela teoria da recepção, pelo pós-estruturalismo, pelas leituras a partir de uma perspectiva ideológica do texto, pela leitura centrada no gênero, e cada vez mais pelos latino-americanos e pelos hispanos nos Estados Unidos. Mas o medular, é que este tipo de aproximação é vital para compreender como podemos ler o texto em nosso contexto de maneira que a leitura seja pertinente para nossas comunidades interpretativas.
Por fim podemos dizer que a palavra profética e o evangelho que se encontram na Bíblia nos podem ajudar a discernir a presença de Deus em nosso tempo, denunciar a opressão em todas as manifestações pessoais, sociais, políticas, ecológicas, e globais de maneira que o texto, que uma vez serviu erroneamente de ferramenta colonial hegemônica, sirva hoje como ferramenta de libertação e plena humanização. Uma interpretação profética e a partir da perspectiva do evangelho hoje nos permite interpretar a Bíblia como uma palavra que nos convida a vida, a justiça e a paz.
HERMENÊUTICA BÍBLICA
MESTERS, Carlos. Rute – Comentário Bíblico. Petrópolis: Vozes, 1986.
Itelvina Miranda Vieira – itelvinam @ yahoo.com.br
Segundo Carlos Mesters, o Livro de Rute foi escrito no ano 450 a.C., isto é, mais ou menos 100 anos depois do fim do cativeiro. É o período pós-exílico, época de Neemias e Esdras.
A história de Rute começa com a descrição da opressão em que vive o povo (1,1-5) e termina com a descrição do final feliz que o povo espera realizar (4,13-17).
O objetivo do Livro de Rute é contar a história do povo, apontando a causa da dolorosa situação de fome que se vivia em Judá, naquela época: falta pão, família e terra.
O Livro de Rute revela a criatividade do povo, a sua coragem de encontrar caminhos novos para resolver problemas e o seu jeito de mostrar que o problema maior não é a observância da lei, mas sim servir às pessoas, servir a comunidade para que todos tenham: pão, família e terra.
A protagonista é uma mulher estrangeira, e isso mostra que a salvação não tem fronteiras: o amor de Deus não é nacionalista, nem exclusivista. Ele quer liberdade e vida para todos.
O futuro nasce a partir de duas mulheres pobres: Rute e Noemi. Toda a renovação e reconstrução do povo parte destas mulheres. Elas descobrem saídas nos momentos decisivos da caminhada (cf. Rt 2,2.19-23; 3,1-5.16-18).
Numa época em que todos davam o máximo valor à raça, ao Templo e a Lei, a história de Rute não fala de templo, nem de culto, nem de sacerdócio, nem de Jerusalém. Em vez de insistir na observância da Lei, propõe uma releitura da Lei do resgate e a atualiza dentro de um novo contexto. Solicita que não se desligue da posse da terra, da situação concreta dos seus moradores (cf. Rt 4,5-6). Ou seja, a Lei é para o povo, e não o povo para a Lei. Quando as leis não servem para proteger o povo, devem ser modificadas, atualizadas ou abolidas.
A história de Rute deixa bem claro que é através da solidariedade no sentir e no pensar poderia gerar uma nova esperança. A visão messiânica! Proposta de abertura e inclusão! Esperança de um messias nascido de uma mulher estrangeira.
Carlos Mesters consegue iluminar com o estudo do Livro de Rute a situação da maioria do povo brasileiro: onde existe uma situação de marginalização, exclusão, fome, problema da terra – reforma agrária, leis políticas e sistema econômico que não promovem a dignidade e a defesa da vida.
Bibliografia:
MESTERS, Carlos. Rute – Comentário Bíblico. Petrópolis: Vozes: 1986.
_________, Carlos. “Casos de imaginação criativa”. In Estudos Bíblicos – 41 (1994). Petrópolis: Vozes, p.20-27.
LOPES, Mercedes. “O Livro de Rute”. In Ribla – 52 (2005) Petrópolis: Vozes, p.88-100.
Hermenêutica Bíblica
Arildo José Ferrari – Maio de 2006
SECONDIN Bruno. Leitura Orante da Palavra. “Lectio Divina” em comunidade e na paróquia. São Paulo: Paulinas, 2004.
O autor fundamenta a importância e atualidade da “Lectio Divina” nas cartas de Paulo aos cristãos das pequenas comunidades (Cf. Cl 3,16). Em todos os principais escritos do Novo Testamento encontra-se esta insistência sobre a centralidade da Palavra ouvida, rezada, vivida, anunciada e testemunhada. Jesus diz aquele que ouve a minha palavra e põe em prática com um coração dócil e generoso (Cf. Lc 8, 15.21) e em outro contexto (Cf. Mt 7, 24-27). O apóstolo Pedro define a Palavra como semente incorruptível que faz renascer para a vida nova eterna (Cf. 1Pd 1,23). Tiago fala da liberdade e de felicidade (Cf. Tg 1, 25). Com efeito “toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça”(Cf. 2Tm 3,16).
Historicamente a Lectio Divina foi marcada por tempos fortes e tempos fracos. Com co Vaticano II, sobretudo na Dei Verbum, com a centralidade da Palavra de Deus foi se valorizando a prática da Lectio Divina. “É preciso que os fiéis tenham amplo acesso à Sagrada Escritura” e portanto, “a Palavra de Deus deve estar sempre acessível” com traduções feitas de preferência a partir dos textos originais. (Cf DV 22)
A busca da Lectio Divina deverá se fundamentar nos motivos da fé para exprimir a busca apaixonada do rosto de Cristo. Esta busca deverá levar a oração e à contemplação. Na busca da Lectio Divina muitas vezes buscamos uma verdade e não encontramos na Bíblia, isto se dá porque buscamos a verdade que queremos e não damos atenção à verdade que ela nos oferece. A verdade bíblica deve ser descoberta, isto se dá a partir da tentativa de fixar o inexprimível, quiçá retomando-o a partir de sempre novos ângulos, com retificações e integrações.
Para que a Lectio Divina se torne uma experiência de amor efetivo e constante da Palavra e para que alimente a vida interior a pessoa deverá cultivar algumas atitudes. A) primeiramente deveremos criar um clima de silêncio externo e interno. B) Depois devemos ter uma atitude de fé, isto é, acreditar que o texto é sagrado e é inspirado por Deus. C) No terceiro passo devemos ter a convicção que a Escritura é dada mediante a comunidade e ela deverá ser lida na Igreja e ressoa como Palavra viva e eclesial. D) Por seguinte devemos pedir ao Senhor um coração magnânimo, bom, que escuta, que esteja aberto e dócil. E) No quinto passo devemos deixar-nos questionar pela Palavra e conformar nossa vida às exigências que ela nos apresenta. F) Por último não devemos esquecer a invocação do Espírito Santo, se falta o dom do Espírito Santo, o livro permanece fechado diante de nós. A Lectio Divina é compreendida em quatro passos: Lectio, Meditatio, Oratio, Contemplatio. A Lectio leva o alimento sólido na boca. A Meditatio o mastiga e tritura. A Oratio sente-lhe o sabor. A Contemplatio é a doçura mesma que desperta a alegria e refaz as forças.
A Lectio Divina fundamenta-se na teologia da Palavra, mas também ela procura urdir a teologia espiritual que vamos apresentar em seguida. Invocar: só mediante o dom do Espírito é que se pode penetrar o segredo das Escrituras. Ler: é preciso ler o texto atentamente, se possível, em voz alta, a fim de fazer ressoar também os nossos ouvidos. É preciso compreender a estrutura do texto, as palavras chaves, o gênero literário. Meditar: é confrontar várias referências que fomos capaz de recolher, a fim de buscar, para além das palavras o rosto de Cristo. Conhecer: é importante conhecer os textos, porque por de trás existe uma tradição hebraica e cristã. É um imenso rio de sabedoria e de fé vivida. Iluminar: a Palavra lança luz sobre nossa situação concreta e releva os desígnios de Deus para a humanidade. Rezar: a oração é uma resposta exigida por uma Palavra que Deus nos dirigiu. A Palavra rezada transforma a nossa vida, faz com que se torne anúncio da justiça divina, ícone do amor de Deus que salva. Contemplar: é aquele esforço de fixar o olhar e o coração em Deus. Partilhar: é um dos frutos da Palavra lida, meditada, assimilada, rezada, contemplada com autenticidade pessoal. Recordar: Escolher uma frase do texto, bem expressiva que recorda o todo. Agir: Por em prática a Palavra ouvida e meditada. Outras dimensões fundamentais do serviço da Palavra são: Anunciar, celebrar, testemunhar, esperar.