L o u c u r a , S a n t i d a d e e M ú s i c a
Heitor Villa-Lobos rouba a cena da música clássica
no Brasil. Ele reconstrói uma identidade, suaviza as nossas
notas, penetra surdamente o diapasão no nosso peito, e
ajusta uma orquestra inteira só com a emoção.
Eis o que sou: uma leiga, anti-clériga, devota de uma
santa louca. Eis o que sou, e penso, que sinto. Ouvindo a música
de dentro, tocando um Villa-Lobos ainda mais louco que eu. É
o arrebatamento.
Esse gênio, esse mártir de si mesmo. Porque todo
gênio é um pouco mártir, e eu não sei
bem por que. Mas são uns arrebatados, que eu faço
questão de ter por perto pro resto da minha vida. Mesmo
que num rádio, que se assemelhe a uma abelha, de tão
feio, zunindo essa música maravilhosa pra mim.
Desconheço rítmica, desconheço tom. Sou
uma desafinada. Na vida e na música. Mas penso que o musicista,
o maestro, é alguém a quem a música se dá
como uma amante fogosa, sob o nome de inspiração.
E penso que toda arte é assim, é o sexo nas coisas,
possuindo a cavidade da alma, criando, gerando, num orgasmo sem
fim.
Comigo, comigo ela se mascara. Comigo a música se faz
de santa, de donzela. Comigo a música é virgem e
muito honesta. Eu a ouço, e só. Não a decifro,
não a possuo à força, e tudo é muito
antinatural. E por mais que eu sinta, que eu me emocione, não
desnudo os meus pés pra sentir o calor do chão.
Eu viro donzela, viro a minha santa, mais louca que eu, aquela
que andou por aí, com os pés descalços nas
suas alucinações! Porque eu sou o arrebatamento,
sou a loucura, a imensidão.
Mais uma vez eu vejo que minha alma é barroca, do princípio
ao fim. Eu sinto a vida como um grande tormento, um jogo de colorações
sinistras e vertiginosas oposições. Já misturei
Villa-Lobos com Teresa DÁvilla, e acabo por pintar
um quadro barroco com isso tudo. Com as minhas palavras, com meu
grito de entrelinhas. Com as minhas obsessões.
O que falta mais? De Teresa, eu revisito Joana, Joana dArc,
e vejo que ambas cabem exatamente no Ponteio das Bachianas nº
07.
Dá pra entender?
Em tudo há um desenfreio. O meu dentro parece mais dentro
que o dos outros. A minha lágrima tem mais sal e arranha
mais o rosto. A mente é um projetor de cinema. São
as cenas da existência humana, todas as cenas. Épicas,
mortais, cotidianas.
Tento me persuadir de minha alucinação, mas escapo,
num emaranhado de palavras, de frenesis; insuportáveis,
cruciais. Eu vejo sangue, para onde vou. E isso não é
morte. É recomeço.
A existência é frágil e rosna como uma gata
no cio. Me seduz, me arranca as vestes. Eu então agarro
essa donzela, a música, as horas, a circunstância.
E à força, à força mesmo eu ensino
a ela as minhas dores, eu lhe mostro o meu tato. Ela, diáfana,
coisa entregue, rompendo-me os véus.
Então é a música de Villa-Lobos que aparece
de novo, sorrindo pra mim, num volume insuportavelmente belo.
Aparece de novo na consciência, me enlouquecendo, e me fazendo
feliz.
Roberta Tostes
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