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B e m   n o   m e i o   d o   p e i t o


Ando sentindo uma dor desgraçada no peito. Bem no meio do peito. De tudo. Todos. Uma dor que não passa. De pessoas que passam. E que hoje não passam de lembranças cinzentas nas telas decadentes da imaginação. Certas recordações assumem colorações sinistramente vivas. Às vezes são doces. Às vezes, dores. Mesmo doces, carregam o amargo peso de serem, senão, recordações. No tato da memória, tropeçam umas às outras, dentre épicas e cotidianas. Esquálidas. Esquálidas tentativas do viver.

Tinha seis anos quando vi minha mãe chorar de um tal jeito, que jamais volveria a ver. As lágrimas rolavam grossas, brincando de escorrega na feição abatida. Olhava-a como quem olha uma primeira vez, arriscando-me entrever o estado de coisas que um choro revela. E por que chorava? Um colega de trabalho, e um tiro no peito. Bem no meio do peito. Alguém que eu não conhecia acabava de morrer. E, no entanto, estava ali, ceando conosco, na mesa nada farta de nossa farta existência. Alguém que jamais entrara antes em nossa casa, nem rira conosco o riso grato da intimidade possuída, comia agora a mesma comida intragável da felicidade forjada. Alguém que só vim a conhecer pela aparição melancólica naquele telejornal. Esmagada entre uma informação e outra, uma nota breve: era o filho de um figurão da Bolsa de Valores que se suicidara com o tiro. Bem no meio do peito. Aos 28 anos, decretava falência de si. Aquela vida, até então desconhecida, atropelava minha rotina de criança feliz. Espargida no rosto inundado da minha mãe, a vida ia embora e começava diferente. Uma dor imanente, estendida na sala das nossas almas, invadiu-me num silêncio profundo, no peito dos meus amanhãs. Eu jamais esqueci! Jamais esqueci o homem por quem minha mãe tanto chorou. De um tal jeito, que jamais volveria a ver.

Roberta Tostes


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