A m u l h e r d o s o f á
Largada no sofá, com os cabelos desgrenhados, revisito
minha alma. Nas mãos, um maço de Gitanes, e uma
vida inteira pressentida. Todas as tragédias, os gestos
nobres, abismos incontidos...
Cada um dos meus afetos parece encontrar, aqui, na palma da mão
de alabastro, a verdade lisérgica que toda verdade abriga
pra si. Assim, ao longe, embriagada pela luz do sol, contenho
a beleza do mundo inteiro.
Cerzida na pele da minha dona, eu me observo, deitada no chão
do flat. O horror dessa lembrança faz de mim expectadora
da memória. Como que virando estrela, deponho meu céu
íntimo a observar-me. A mulher navegante do meu corpo ainda
exala na temperatura de ontem, o mesmo cheiro remexido do sexo.
Contemplo a imensidão de lugar algum. O peso do cansaço
faz afundar os ombros no sofá. E os dedos dos pés
permanecem sujos. A maquiagem desfeita.
Levanto e bebo na mesma taça que foi ontem dela. Ainda
manchada de batom, entendo minha morte inescapável: Aquela
que deitou aqui, não eras tu.
Sempre entendi o que me ocorreria. A cada noite em que mergulhasse
no corpo do meu amor, morreria na imensidão de mim mesma.
Roberta Tostes
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