N u m d i a d e c h u v a . . .
Fui dormir pela manhã. Ainda não me habituei
ao horário novo, à rotina sem rotina dessas férias.
Adormeci pensando em Foucault. Rindo-me largamente de seu Panóptico
revelador.
E nem me pergunte por quê. Nada sei de pilhéria
matinal, de riso incontido, de disciplina que não se institui.
Foi com Foucault que vieram os personagens primeiros dessa manhã.
Ele quem abriu o dia vestido de chuva, gargalhando-se de meu sono
literário. Molhado dos ecos brancos da Joana de Lispector.
Também pudera! Chove desde sempre! É o dilúvio
no meu livro, sob a minha hora, esquecido no edredon...
Da janela, a paisagem não me afigura tão real quanto
Joana. Inundada como Joana... Ainda insone, tive de secar seus
argumentos, dispersos em minha pele, desviá-los de meus
ensopados parágrafos. Em mim, somente multidão.
Foi assim o dia inteiro. Entre uma gota e outra, o sonífero
da tarde anunciava a chuva longa. Era preciso se proteger.
Detive-me no livro o dia inteiro. Vez ou outra, esquadrinhava
um ou outro plano mais ousado. Ir até a cozinha, ligar
o som... A tv muito longe murmurava a notícia pros vizinhos.
Um pouco mais tarde foi preciso acender a luz.
Por dentro, tudo parece ter-se afogado. Água da chuva
na vontade selvagem. Coração-flecha lançado
em qualquer lugar... Sem alvo, sem medida... À luz da intenção!
Deve ter sido o descanso prolongado. A leitura atenta. Estado
mudo das coisas temperando o almoço de amanhã...
Sem me dar conta, fui anoitecendo com o sol. Não mais
o sono, a pilhéria, a multidão.
Repousei os personagens na estante e só então fui
pensar em comida. Em banho, em café, em rotina. A cor da
noite pedia mais luz e óculos.
Fui conversar com mamãe, reclamar com São Pedro,
ver o que sobrara do mundo...
Já é madrugada, e o céu agora, embora encharcado,
dá ares mais submissos. Decerto é a noite sem lua
quem o empalidece de seu choro. Lamento natural por sobre a plantação...
Olho para a tv, e a moça do tempo parece me indagar:
Será que vai chover?
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