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O   T e x t o   d e   A g n e s


Um suspiro mais agudo e os lábios da donzela quase afundam o papel.

Dedos muitos ciosos de si percorrem todo o corpo branco da folha, e a matéria perecível da mente ganha vida no seio-leite da criação.

A moça exala para fora de si, a vida-rito do papel, entremeado de pulmões e órgãos vitais. Outra sombra se despede, e um pouco mais acima, à esquerda do pensamento, a letra A descobre-se gérmen de toda a história. Muito cheia de curvas, a primeira letra do mundo pulsa e bombeia o texto de Agnes.

Por dentro das coisas o ar lambe-se e se despe. Renovada, a palavra nua persegue o paraíso. Esvai-se de poder. O coração-vogal da moça se oferenda e Deus preenche, límpida, a tinta dos tempos sagrados.

Arrancada de um desvio, o sentido das linhas faz perder o verso. Chove e faz muitas outras sílabas loucas. Estrelas e polissílabas se amontoam nos porões da inspiração. Dentre sacras e profanas, vêem negros zarparem dores.

Latente, a parede mesma do papel desloca-se e sangra. Um sangue terra que veste e alimenta o ventre ruivo da criança que escreve. Agnes compõe seus versos e com eles dá luz às sereias tenras da sensação.

Venta forte a história no papel. Toda noite composta se dissolve na morada da moça, dentre plebeus, tigres dente de Sabre, e palavras que, enamoradas de si, reinventam sentidos sonoros.

Ecos de um fragmento de corpo, de uma linha. O papel-bicho reinventa o homem, que reinventa o bicho, que reinventa a mulher...

Agnes acarinha o papel e toca no mundo. Dos seios da moça florescem o sonho, e seres do sono. Formas etéreas singram até seus pés, nos cachos de uva, verbetes, decassílabos...

Toda a sorte de anjos e de estranhos demônios emerge do corpo-folha do papel, invade o quarto-mundo de Agnes, estrela, escrita, intimidades de si.

Sobre os próprios pés, chora a pequena, temerosa de si e de seus reinos mágicos...

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