A s M e t á f o r a s
Andei lendo que o filósofo chinês Chuan Tzu sonhou,
certa feita, que era uma borboleta. Ao acordar, não sabia
se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta
que sonhara ser homem.
A metáfora homem-lagarta, que de crisálida se liberta
em vôo, borboleta evanescente, em mim culminou com a quebra
do paradigma do real.
Eu, que de uma maneira ou de outra, estive sempre circunscrita
a uma dimensão onírica, também sonhei os
meus sonhos. E neles me achei, me perdi, me atravessei de uma
natureza nova e abstratamente humana.
O por dentro me ardeu como quando se toma muito sol e a pele
repuxa e estica o tempo de sentir. Fiquei ali, naquela cama transformada
em ninho, povoada de uns sonhos esquisitos e belos.
E se esse tal chinês, como apontou Borges, em seu livro
Esse Ofício do Verso tivesse sonhado que era
uma máquina de escrever? Um tigre? Uma baleia?
Ah! Decerto seu sonho de nada lhe teria valido!
Porque se somos sonhos, o verdadeiro modo de sugeri-lo é
com uma borboleta. Há algo nela em que pousam sempre o
sublime, o delicado e o plácido. Algo que sugere a metamorfose,
a beleza... A dor.
E a borboleta na barriga da Ritinha? Pensei nela também.
É que estamos falando de metáforas, e sendo elas
quem são, pouco adianta o convívio do real. A busca
por uma exatidão. Literalidade desde sempre retorcida.
Porque as palavras elas mesmas são metáforas. Porque
as imagens, as etimologias, hão de sempre remeter umas
às outras, associadas que estão pelas fabulações
dos homens.
Haverá sempre uma combinação, um cheiro
de sonho, uma metáfora enfurnada nalgum recanto do
armário de uma criança.
Viu? Recorro novamente a elas, minhas metáforas, minhas
amantes, damas de companhia no universo das palavras. Pois que
são elas que me seduzem, que me observam, que me arrastam
pro quarto escuro de suas vontades. E se despem, se revelam e
se transcendem na luz do meu luar. Que é poesia, infinito
e revelação.
Eu, feita de olhos, gestos e coração, paro no meio
do quarto. Acendo a luz do abajur, contemplo as estrelas retidas
no seio das minhas metáforas. Acabo por me lembrar de uma
frase Platônica: Eu queria ser a noite, de modo a
velar o seu sono com olhos mil.
A ternura dessa hora me põe a amá-las mais e mais.
E não se engane, caro leitor: Metáfora é
homem, metáfora é fêmea...
Metáfora é a alma no corpo de Deus.
Roberta Tostes
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