D a C h u v a a o P o e t a (para Teofilo Tostes, ou simplesmente Theo, meu irmão querido)
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Poderia chover de novo, como tem feito São Pedro à
moda mineira, calado, um pouco resoluto demais pra não
dizer teimoso; os destinos dessa terra molhada lá fora
que eu cheiro como se o passado fosse. Cheiro como quem sorve
da terra seus nutrientes, e apresenta raízes improváveis
que se assemelham com as raízes das plantas. Observo o
cenário que avistei semana passada da janela do ônibus:
canteiros alagados pela submissão à chuva; eu salva
das marés, porém embriagada, a inalar o odor de
terra misturada com água, com tudo que brota de dentro
da terra e que ajuda as plantas a crescer. Colhido como se fossem
flores, eu retiro da atmosfera esse cheiro único que eu
só sou capaz de sentir quando chove. Como se fossem Canteiros
na voz de um Raimundo Fagner! Na voz infantil do meu irmão
a cantar memórias perdidas. Um menino que passa parte da
infância se apaixonando por música e fazendo poesia,
só poderia ser o que é hoje: um homem de bem. Um
menino que passa a vida aos risos ,quando o mote de suas primeiras
horas foi tão trágico, poderia ser tudo nessa vida!
Um menino renascido. Bastasse escolher: 'quero ser mágico'
; e sua força de criança irmanada à força
de alma, correriam de mãos dadas pelos labirintos das leis
da natureza, que é feita de razoável dose de magia
quando se quer viver muito. Poderia ser o que quiser! E choveria
pela manhã, para que a poesia desabrochasse à tarde.
Deve ter sido um dia de chuva, o dia em que algum médico
trouxe meu irmão à vida e percebeu que o menino
devia ser batizado às pressas, para que Deus não
o levasse pagão. Deve ter chovido muito lá pelo
céu também enquanto decidiam em reunião diviníssima
se o menino voltava, ou se o menino vivia. E o menino viveu. Passou
por uns perrengues, mas viveu. Jogou bola, brincou tudo e brincou
tanto! Arremessou a bola da vida com tanta força, que hoje
é homem feito. E seu sorriso é essa pérola
linda. E sua vida é essa graça que ensina. E sua
força de viver me arremessa de volta à vida. Como
quando arremessou o menino na terra. E fez dele mais frágil.
E fez dele o mais forte. Amanhã poderia chover de novo
assim que o sol despertasse. Para que eu também despertasse,
para que eu chovesse junto com as flores, para que o cheiro da
terra molhada me embriagasse de novo no trajeto pra casa, e as
pétalas dos meus dedos se abrissem na oferenda do carinho.
Assim que amanhecesse, o menino que canta Pavarotti de manhã
e desabrocha poeta à tarde, ganharia as cores faiscantes
do arco-íris. E os pingos d'água seriam gentis com
as nossas lágrimas. Também com os sorrisos.
Roberta Tostes
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