S o n a t a
Sombras sonhos, somos somos.
Sim ao som, ao sim cinético.
Sentidos somos sisudos:
audição, visão, olfato,
tato, paladar e sexto.
O gosto do som,
o cheiro do som,
as cores do som
fazem-me a textura
daquilo que oiço.
Sombras sonhos, somos somos.
Homens em devir-mulher,
velhos em devir-criança
e razões em devir-bicho
fazem os diapasões de mim.
Medida sáfica se faz safira,
mira o ritmo do herói e faz a rima
mais acorde ao acorde dissonante.
A prosódia, melódica, se afina
consoante às vogais e consoantes.
No arco-íris desenho as formas pentagramas;
a flama sustenida e exata e compassada
do acústico universo existente nos poros
das células, do ser, da Terra, de Deus
que, se existente, faz-se apenas pela música.
Os aromas melódicos que eu oiço
são ora multicores, ora a soma
do tom preto e do branco em proporção
tão vária quanto viva, que se toma
dos harmônicos campos da visão.
Sombras sonhos, somos somos.
Soamos, logo nós somos;
somos só a vibração.
Sombras sonhos, somos somos
bem menos luz que canção.
Oiço sons senões,
tonantes toadas,
notas dedilhadas
em todas as quotas
de sons e canções.
Sombras sonhos, somos sons.
Sim ao ser, sim ao se(r)não.
Som é só sinestesia,
é mais do que se sentia:
som é mais luz que canção.
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