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C o r p o r i f i c a t

 

I
Ensaio um corpo em formas e texturas.
Meu corpo ensaio, só textura e forma.
No próprio corpo o mundo se conforma;
minha pele é fronteira e é armadura.

O corpo é quem primeiro individua,
quem orna e quem engendra a própria alma.
Eu sou feito floresta: flora e fauna,
sou fogo fátuo em minha pele nua.

II
O meu dorso é sulcado e irregular,
é perecível e orgânica matéria.
Já na infante consciência a deletéria
presença de senões se faz notar.

A minha autoconsciência é corporal.
Amiúde varia e não se ilude:
varia em minha febre e na saúde.
Nos ombros vezes pesa como um mal.

III
Mas toda autoconsciência não se encerra
nas cercanias próprias de si mesmo.
Às vezes o que sou se forma a esmo.
Não é em mim que todo o eu se enterra.

Há pontes entre mim e entre o outro,
há intermédios, espelhares, tempos...
Ligeiro, o olhar se espalha aos quatro ventos.
Do próprio mundo eu já me vejo solto.

IV
O outro devo ver p’ra que eu me veja.
Nós somos pelo ver e pelo visto.
Outros corpos atestam que eu existo
por toda diferença que sobeja.

Tocar é uma forma de se ver.
Toda textura atesta uma existência,
todo sentir traduz experiências.
Sinestésico nasce todo ser.

V
Todo corpo tem marcas fundas fendas,
a quentura da pele atesta a vida.
Sua temperatura é quem convida
a desbravar de um corpo as suas sendas.

Toda forma é vestida pela luz
que lhe abraça, lhe envolve e acaricia.
Pensava que era a forma quem luzia.
Toda forma é vertida pela luz...

VI
É luz a própria forma feminina,
mesmo se desenhada em luz e sombra,
pois reluz tudo aquilo que me conta
o arrepio da pele da menina.

Mesmo fora do foco me é divina
a menina despida retratada.
Só pode ser divina minha amada,
só pode ser luzente esta menina.

VII
O corpo da amada é o romper fronteiras,
o romper das fronteiras de seu corpo.
Descanso nesta pele qual num porto.
Esta pele me aquece qual lareira.

Todo o corpo da amada é metonímico,
a parte traz na pele o próprio todo.
Eu jamais me sacio deste bodo,
jamais sacio o meu desejo anímico.

VIII
São veredas o dorso nu da amada,
são toadas estésicas de fibras.
Flagro-lhe as formas e meu corpo vibra,
mesmo ao flagrar-lhe as formas recortadas.

Revela-se o instantâneo deste corpo
que p’ra mim é presente e permanente.
Gosto de decorar-lhe em minha mente
e gosto de servir-lhe como porto.

IX
É belo o corpo assim iluminado
infinitesimal em sua graça.
O olhar pousa, repousa, nunca passa,
lembra as cores do hoje acinzentado.

Cores e formas são somente lumes.
Lembro: dentro do próprio corpo há cor.
Recordo que queria te compor
e do abraço da luz senti ciúmes...


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