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©Ilustração o galo vermelho de tenini.

O galo vermelho



O galo deve ter fugido da degola na hora do batuque, que semanalmente se realiza na rua dos fundos da minha casa . Quem se arrisca a pegar galo de batuque ? Ninguém, pensava eu e todos a quem perguntava. Assim, ele permaneceu livre, dono da rua e das matas adjacentes por mais de sete meses. Já taludo, muitas vezes eu o via pulando de árvore em árvore, livrando-se de algum bicho inoportuno. Parecia um gavião vermelho, cuja crista ondeava escarlate feito coroa sob o sol da manhã.

Gostava de entrar pelas grades do portão para ciscar no meu jardim, aproveitando-se do descuido dos cães, aflita eu gritava: "Xo xô , galinho, xo xô.." para que não fosse apanhado pela máfia canina. O galo costumava, ainda, brindar-nos com calorosos e tonitruantes corococós, às quatro de la matina , infernizando alguns moradores sonolentos, mas, a mim, deliciando como serenatas de Romeu...

Soube que alguns moradores tramavam a condenação do galo. Espingardas de chumbo grosso, facões e até laços de gaúcho foram preparados, numa sentença implacável, mas acabaram desistindo porque espalhei o boato de que quem se atrevesse a matar o galo, seria vítima de terrível maldição...

Certa vez, pensei em arrumar-lhe uma galinha, de olho nos ovos, mas depois de observá-lo bem, concluí que teríamos maiores encrencas. O galo tinha um belo porte capaz de virar a cabeça de qualquer galinha metida a besta, mas tinha ares filosofais dos solitários... Um galo que pensa não é tão comum e uma galinha por perto, cacarejando o tempo todo, convenhamos, perderia a paciência e o bom humor. Mais adiante, teria de aturar brigas de galinhas às esporadas. Afinal, sendo um galo espirituoso, não dado a tricas e futricas, acabaria por se indispor com o sexo oposto. Também não tinha vocação para cuidar dos pintos, já que não havia cerca para agrupá-los, além de ter de assumir responsabilidades, cassando-lhe a liberdade de ir ,vir ... Sem contar que teria de dar mais trepadas do que tivesse vontade.

Um dia, o Galo de Batuque não cantou de madrugada. Saí à procura pelas redondezas, ninguém vira e, ante a minha insistência, todos olhavam-me desconfiados. Juro que cheguei a ver alguém estalando os dedos... ( pensariam que fosse eu, a batuqueira ?) Fiquei a matutar, o galo teria cansado da solidão ? teria encontrado alguma galinha fuleira que o desencaminhara ? Fora pego pela turma da macumba ? Fora um enlouquecido vizinho que o fuzilara ? Ou foi parar na panela de algum incrédulo ? Talvez fosse aquele vigia de obra quem papou o galo, porque, logo depois, deu um azarão na vida dele. A firma quebrou, foi despedido e andou às voltas com a polícia, por roubo de galinhas. O certo é que o desaparecimento do galo, deixou-me sorumbática... pois, Meninas, quando se dobra o Cabo da Boa Esperança, cantada de galo, só de batuque mesmo...


Tenini

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