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O MAGO DE MIL FACES


A VIDA E O LEGADO DE

Aleister Crowley




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Um homem cuja vida sempre esteve simultaneamente compartilhada por genialidade e loucura, por cria��o e destrui��o, amor e �dio, encanto e desafeto. Que mist�rios estar�o ocultos na vida e obra desse homem cujo prop�sito sempre esteve muito al�m de todo o dogma e de qualquer moral, al�m de todo �xtase, de toda vida e morte. Talvez poucos tenham as respostas e conhe�am os motivos que moveram o pior homem do mundo a reviver o Culto das Sombras.


por Carlos Raposo

"Uma rosa vermelha absorve todas as cores, menos a vermelha;
Vermelha, portanto, � a �nica cor que ela nao �.
Essa Lei, Raz�o, Tempo e Espa�o,
toda Limita��o, cega-nos � Verdade
Tudo o que sabemos sobre o Homem, Natureza, Deus,
� apenas aquilo que eles n�o s�o;
� aquilo que rejeitam como repugnante."

(Aleister Crowley, Liber CCCXXXIII, Cap. 40)
"A red rose absorbs all colours but red;
red is therefore the one colour that is not.
This Law, Reason, time, Space,
all Limitation blinds us to Truth.
All that we know of Man, Nature, God,
is just that which they are not;
it is that which they throw off as repugnant."

(Aleister Crowley, Liber CCCXXXIII, Cap. 40)

Nota Editorial: Este artigo foi originalmente publicado na Revista Safira Estrela n�mero 0, de Mar�o de 1995 e.v.
O texto aqui apresentado inclui a revis�o feita pelo autor, em 23/09/99 e.v.
Aao final deste, foi adicionado
o complemento Cronologia B�sica, texto originalmente enviado para a
Lista de Discuss�o Arte Magicka.

 

APRESENTA��O:

O ano de 1875 e.v. [1] certamente foi de grande import�ncia para o mundo dito Oculto, e para o estudo do assim chamado simbolismo esot�rico. Entre tantos e v�rios acontecimentos, nesta �poca ocorridos, podemos destacar: a morte de Eliphas Levi, a funda��o da Sociedade Teos�fica e a primeira publica��o de �sis Revelada por Helena P. Blavatsky. Em 1875 tamb�m nasceram Carl G. Jung e Albert Schweitzer. Al�m disto, este mesmo ano testemunhou todo o movimento de grandes Ordens Ocultas que nos legaram boa parte, sen�o tudo, daquilo que hoje � conhecido como Tradi��o da Magia Ocidental.

Um outro fato por�m, viria, depois, consolidar-se como um dos mais importantes relacionados � hist�ria do ocultismo mundial: o nascimento, na Inglaterra, de Edward Alexander Crowley (1875-1947), mais conhecido como Aleister Crowley.

                Mas quem � Aleister Crowley?

                Muito j� foi escrito a respeito dessa singular figura que, considerando-se um Santo, foi tido o mais perverso homem da face da terra; desse homem, cuja vida sempre esteve simultaneamente compartilhada por genialidade e loucura, por cria��o e destrui��o, amor e �dio, encanto e desafeto; cujo prop�sito sempre esteve al�m de todos os dogmas, todo �xtase, al�m de toda vida e morte. Crowley, segundo suas pr�prias palavras, um Himog [2], paradoxalmente a este conceito, adotou, quando assumiu o Grau de Magus da A.'.A.'., o Mote TO MEGA THERION (A Grande Besta, ou, simplesmente, como passou a ser conhecido, Mestre Therion), que sintetizaria a raz�o de sua exist�ncia e o prop�sito de seu trabalho, sendo essa a divisa com qual viria a se tornar o maior Mago do s�culo XX. Sim, muito j� foi escrito sobre sua pessoa e existe tanto material de qualidade a respeito, quanto tolices e absurdos [3]. Tanta � a varia��o de opini�es que, por vezes, o trabalho de pesquisa sobre sua biografia se revela dif�cil ao extremo. Entretanto, mesmo sendo imenso o volume de material dispon�vel, curiosamente, em portugu�s, nossa l�ngua natal, pouco, ou quase nada, consta referindo-se a Aleister Crowley. Tudo a respeito de sua biografia (ou hagiografia, como ele preferiria enfatizar), ou mesmo de sua obra, est� � merc� de um n�o favor�vel crivo editorial que vem, insistentemente, negando espa�o aos trabalhos dos estudantes da Lei de Thelema. Apesar dessas fortes resist�ncias continuarem se antepondo � possibilidade de apresentar a Obra de Crowley, agora, ap�s muito trabalho, j� vislumbramos hip�teses contr�rias...

                Ent�o, aqui intentamos n�o s� apresentar ao p�blico interessado um resumo biogr�fico de Aleister Crowley, mas tamb�m mostrar como o trabalho desse Mago influenciou e continua influenciando diversos segmentos do ocultismo internacional.

ALEISTER CROWLEY - UM ESBO�O BIOGR�FICO

                Na �ltima hora do dia 12 de outubro de 1875, em Leamington Spa, Warwickshire, Inglaterra, nascia Edward Alexander Crowley [4].

                Sua inf�ncia esteve marcada por r�gidos padr�es de comportamento impostos por seus pais, Edward Crowley e Emily Bishop, ativos membros de uma extremada seita Crist� chamada Irmandade de Plymonth (fundada por John N. Darby). Seu pai, um rico cervejeiro aposentado, e fan�tico Irm�o de Plymonth, fez com que Crowley, ainda crian�a, freq�entasse a sua seita, for�ando-o a diversas leituras da B�blia Crist� e acostumando-o � vida religiosa da Irmandade. Este fato, muito embora viesse ser de grande valia bem mais tarde, quando da compreens�o dos Mist�rios com os quais esteve em contato, naquele momento apenas fez nascer na crian�a que se formava, uma intensa repulsa quanto a dogmas, em esp�cie aqueles de natureza "crist�". Outro fator que, certamente, muito contribuiu para a forma��o moral de Crowley, n�o s� em sua inf�ncia como tamb�m na juventude, teria sido aquele bem conhecido e tradicional jeito de vida ingl�s da �poca vitoriana.

                Em 1886, com o falecimento de seu pai, Crowley fica sob os cuidados de seu tio e tutor Tom Bishop. Tamanha era a crueldade de seu tio, que Crowley referiu-se a este per�odo de sua vida como "A Inf�ncia no Inferno".

                Em sua adolesc�ncia, a busca por aventuras o conduziu ao alpinismo. Praticou com afinco esse esporte, chegando a destacar-se no mesmo. Sua carreira de alpinista chegou ao �pice nos anos de 1902 e 1905, quando participou das primeiras tentativas de escalar o Chogo Ri (K2) e o Kanchenchunga, duas das maiores montanhas do mundo, situadas no Himalaia.

                Estudou, destacando-se em todas as disciplinas, em Trinity College, Cambridge, onde ficou no per�odo de 1895 a 1898. Nesta �poca, Crowley, leitor voraz, estudou intensamente, incluindo tudo de importante que havia da literatura inglesa, francesa, al�m de diversas outras obras em Latim e Grego cl�ssicos, inclusive filosofia e alquimia; se dedicou a canoagem, ciclismo, montanhismo e xadrez, atividade esta em que ganhou notoriedade e que exerceu por toda sua vida. Praticando o montanhismo, Crowley viria a conhecer um homem o qual passou a admirar profundamente: Oscar Eckenstein. Eckenstein, que, segundo Crowley, era um singular exemplo, sem igual em dignidade e nobreza, ensinou-lhe (por hora) o alpinismo. Alguns anos depois, Eckenstein demonstraria que seu conhecimento n�o se limitava apenas � conquista de elevadas montanhas.

                Em Cambridge, seu esp�rito, como era bem pr�prio � natureza da Besta, ansiando por um volume maior de conhecimento e aventuras, encontrava-se perturbado com a insubstancial perspectiva futura. Em 1898, antes de sua gradua��o, Crowley abandona os estudos para se dedicar a algo n�o comum e de maior profundidade do que o oferecido por uma promissora carreira acad�mica.

                Mas o que exatamente seria este algo mais profundo?

                Por volta de 1896, Crowley havia iniciado a leitura de alguns livros sobre magia [5] e misticismo. Algo come�ava a tomar forma dentro de seu inquieto ser; por�m a leitura de Nuvem sobre o Santu�rio [6], obra lhe recomendada por Waite, � que faz com que Crowley decida dedicar sua vida ao estudo do Ocultismo e da Magia, e empenhar-se com afinco no sentido de encontrar a Grande Fraternidade Branca [7] mencionada no inspirador livro de Eckhartshausen. E aqui come�a a carreira m�gica de Aleister Crowley [8].

                Em 1898, atrav�s de dois amigos, Julian Baker e George Cecil Jones (respectivamente Frati D.A. e Volo Noscere, ambos membros da G.'.D.'.), Crowley � apresentado a Samuel Liddell "MacGregor" Mathers (1854-1918), Frater D.D.C.F. (Deo Duce Comite Ferro), um dos lideres da Ordem Herm�tica da Aurora Dourada (The Hermetic Order of the Golden Dawn, mais conhecida pela sigla G.'.D.'.), uma das mais influentes Ordens do final do s�culo passado, que proporcionou a Crowley sua primeva Inicia��o e o contato com os primeiros mist�rios m�gicos que tanto procurava.

                A G.'.D.'. fora fundada pelo pr�prio Mathers, junto com William Winn Westcott (1848-1925), Frater Non Omnis Moriar, e William Robert Woodman (1828-1891), Frater Vincit Omnia Veritas, em 1887. Segundo seus fundadores, a exist�ncia da G.'.D.'. era devida � orienta��o e � ordem de uma alta iniciada alem� chamada Anna Sprengel (Soror S.D.A., Sapiens Donabitur Astris), que autorizara a abertura de uma Loja na Inglaterra que representasse a suposta Ordem ancestral a qual pertencia [9]. Diga-se de passagem que, a G.'.D.'., mesmo levando em conta o poss�vel concili�bulo de sua cria��o, constitui uma das mais importantes Ordens jamais inventadas pelo esp�rito humano, conseguindo reunir em seu corpo de iniciados a nata da intelectualidade inglesa e europ�ia da �poca. Nomes como o pr�mio Nobel de Literatura em 1923, Willian Butler Yeats, al�m de Gustav Meyrink, Florence Farr, A. E. Waite, Sax Homer, Bram Stocker [10], F. L. Gardner, Arthur Machen, o pr�prio Crowley e tantos outros, pertenceram a esta not�vel organiza��o.

                Crowley, iniciado por Mathers em 18 de novembro de 1898, ao Grau de Neophytus (0o=0), tomava, como Mote M�gico, o nome de Perdurabo (eu perdurarei at� o fim), iniciando, assim, seus estudos na G.'.D.'., tendo como primeiro Instrutor Frater Volo Noscere (Jones). Em dezembro do mesmo ano, Crowley atinge o Grau de Zelator (1o=10).

                Sua capacidade de assimila��o de conhecimento e sua dedica��o ao estudo e a pr�tica do Ocultismo o conduziram, agora sob a instru��o de Frater Iehi Aour (Allan Bennett), a ascender rapidamente aos Graus subsequentes da G.'.D.'.; assim, respectivamente em janeiro, fevereiro e maio do ano seguinte, em 1899, Crowley conquistou os Graus de Theoricus (2o=9), Practicus (3o=8) e Philosophus (4o=7). Bennett, considerado por Crowley um aut�ntico Guru, o ensinou v�rias t�cnicas m�gicas oferecidas pela G.'.D.'., t�cnicas como Cabala e Magia Cerimonial, consagra��o de Talism�s, evoca��o de Esp�ritos, etc.

                Este per�odo de sua vida foi fortemente marcado por duas atividades principais. Quando Frater Perdurabo n�o estava estudando ou praticando, Crowley, sob o pseud�nimo de Conde Vladmir Svareff ou Aleister MacGregor, custeava as edi��es de seus escritos (normalmente algum tipo de pornografia ou poesia), al�m de cultivar uma intensa vida sexual, a qual escandalizou alguns membros da G.'.D.'.. Sua grande atividade e principal preocupa��o, no entanto, continuava a ser a Magia.

                Entretanto, e isto deveu-se menos aos esc�ndalos promovidos por Frater Perdurabo do que ao ci�me e inveja de certos Adeptos londrinos, e mesmo Crowley tendo demonstrado capacidade e talento em magia, sua inicia��o � Segunda Ordem [11] fora negada, em fins de 1899, pelos chefes da se��o inglesa da G.'.D.'.. Nesta �poca, Mathers, agora �nico l�der da Ordem, residia em Paris.

                Mesmo contrariando a opini�o dos l�deres londrinos, em 16 janeiro de 1900, em Paris, Mathers, fazendo valer sua autoridade dentro da Ordem, inicia Crowley ao Grau de Adeptus Minor (5o=6), sob o Mote Parzival. Talvez aqui tenha sido o inicio da ru�na da G.'.D.'.. Pouco antes de sua inicia��o, seu grande amigo e Instrutor, Allan Bennett, decide partir para Ceil�o, e tornar-se monge Budista.

                A insatisfa��o dos membros da G.'.D.'. com Mathers j� era mais que um fato nessa �poca. Provavelmente o caso Crowley tenha servido como impulso e �libi necess�rios para o grupo londrino, liderado por Yeats, entre outros menos conhecidos, declarar-se independente de seu mentor e l�der, MacGregor Mathers.

                O que se seguiu ap�s a rebeldia londrina resultou em hist�rias fant�sticas de ataques m�gicos envolvendo Crowley e uns dem�nios versus Yeats e, � claro, mais dem�nios. Depois o pr�prio Mathers teria entrado na briga, junto, evidentemente, com uma outra legi�o de encapetados amiguinhos. Mas essa est�ria n�o escapa nem a mais tola cr�tica. O fato � que Crowley e Mathers ficaram praticamente sozinhos, e a outrora grande G.'.D.'., agora conduzida pelos auto-proclamados novos chefes, ia progressivamente implodindo, ou se esfacelando, resultando num sem n�mero de Ordens Cristianizadas, sem o �lan da G.'.D.'. [12] original.

                Crowley, que abandonara um importante trabalho m�gico [13] para ajudar Mathers, v�-se s�. Parte para Nova York e depois vai para o M�xico.

                A estadia no M�xico constituiu um per�odo bem produtivo a Crowley. Al�m de Tannhauser, escrito em ininterruptas 67 horas, conseq��ncia de uma bem sucedida opera Sexualis, esse per�odo na Am�rica Central representou uma decisiva conquista no magista que se formava.

                Foi apresentado a Don Jesus Medina, um dos altos chefes da Ma�onaria local, Rito Escoc�s, que, de t�o impressionado por aquele singular figura, n�o tardou em convidar Crowley para iniciar-se em sua Loja. Como h�bito, Crowley rapidamente galgaria os graus Ma��nicos, alcan�ando, por gra�a, o mais alto Grau do Rito.

                Mas a chegada de seu amigo e mentor, Oscar Eckenstein, � que daria novos rumos a seu aprendizado. Eckenstein, revelando-se, para a surpresa de seu pupilo, um grande instrutor, demonstrou que Crowley n�o tinha controle sobre seus pr�prios pensamentos, qualificando sua atitude para com a magia como apenas mera fascina��o rom�ntica. A partir da�, Crowley decide dar um tom cient�fico a seus experimentos, estudando com Eckenstein, uma s�rie de m�todos de controle mental.

                Ap�s algum tempo de escaladas e treino mental, Crowley parte para o Oriente, para se encontrar com Bennett, seu antigo instrutor, no Ceil�o. Antes, entretanto, combina, com Eckenstein, a escalada do K2, no Himalaia, aventura a se realizar na primavera de 1902.

                Bennett, agora Bhikku Ananda Meteya, que aprendera Yoga e Budismo, instrui Crowley nestas disciplinas.

                No outono de 1902, ap�s a expedi��o ao K2, Crowley retorna a Paris. Seu novo encontro com Mathers o decepciona a tal ponto que s� lhe restou a bo�mia vida parisiense. Retorna a Boleskine em 1903 e ent�o, procurando algo suficientemente prosaico para si, intitula-se Lorde Boleskine. Neste mesmo ano, casa-se com Rose Kelly.

                Mas o ano seguinte revelaria a Crowley o mist�rio que o acompanharia at� seu �ltimo momento: A Lei de Thelema.

livro-tst.jpg (55702 bytes)                Casado com Rose Kelly, de acordo com Crowley, "uma da mais brilhantes e inteligentes mulheres do mundo", viaja pela Europa e Egito. E no Cairo, ap�s uma s�rie de Rituais e Invoca��es, um ser, identificando-se como Aiwass, transmite a Crowley, nos dias 8, 9 e 10 de abril, o Liber Al vel Legis ou, como passaria a ser conhecido, O Livro da Lei [14]. �queles que conhecem todo esse processo, � significativo saber que esse extraordin�rio livro foi o primeiro escrito de Crowley, de cunho m�stico-m�gico.

                Entre tantos significados, Liber Al vel Legis proclama o fim de uma era, ou Eon, marcada pelo sofrimento, pela intermediac�o entre Deus e o homem, pelo deus sacrificado, etc. Em seu lugar, nascia a �poca do deus de alegria, onde o homem teria a liberdade de realiza��o de sua pr�pria vontade. A ep�grafe "Faze o que tu queres dever� de ser o todo da Lei", contida em Liber Al e utilizada nos escritos de natureza thel�mica, sintetiza a pr�pria regra de conduta a ser tomada como t�nica do Eon nascido.

                Essa experi�ncia, levou Crowley a assumir o Grau de Adeptus Major, 6o=5 da G.'.D.'., sob o novo Mote de O.S.V. [15].

                De volta a Boleskine, Crowley imediatamente trata de expor sua experi�ncia a Mathers, revelando ter, finalmente, feito contato com os Mestres Secretos que tanto havia procurado. Como costume, Mathers n�o aceita a revela��o. Conseq�entemente, o mundo do esoterismo novamente, � palco para ataques m�gicos de Mathers a Crowley e vice-versa [16]. Mas o incontest�vel fato � que isso era o fim da conviv�ncia entre os dois magos.

                Em 1905, mais uma expedi��o ao Himalaia: desta vez o alvo era o Kanchenchunga.

                Cansado de suas birras com a G.'.D.'., em 1907, Crowley funda a A.'.A.'.; a Argenteum Astrum, Ordem da Estrela de Prata, que - segundo Frater O.S.V. - substituirira a G.'.D.'., herdando sua estrutura de gradua��o. Entre tantos significados poss�veis, particularmente um inspirou Crowley na escolha desse nome para a Ordem. Segundo ele, o dourado amanhecer (Golden Dawn) � o que precede a Estrela Dalva (V�nus, ou L�cifer), a prateada estrela da manh� que "anuncia" o Sol [17]. Crowley, em 1909, d� in�cio ao primeiro per�odo aberto a Probacionistas a sua A.'.A.'. e, com a publica��o da s�rie The Equinox, "destr�i" magicamente a G.'.D.'. [18].

                No per�odo de 1907-1911, Crowley, consagrando seu tempo ao estudo, a pr�tica e a escrita, publicaria cerca de uma d�zia de livros de cunho po�tico-m�gico (excluindo a s�rie The Equinox). Neste per�odo tamb�m, ap�s a morte de sua filha em 1906, Crowley separa-se de sua esposa, Rose Kelly, em 1909. Nesse mesmo ano, Crowley assume o Grau Adeptus Exemptus 7o=4(, agora da A.'.A.'., com o Mote OU MH. Em 3 de dezembro de 1909, durante uma a Vis�o do 14o Aethyr, toma o Grau de Magister Templi, sob o Mote V.V.V.V.V., 8o=3 da Ordem da Estrela de Prata [19]. Em 1911 Crowley escreve Liber CCCXXXIII, O Falsamente chamado Livro das Mentiras, que publicaria mais tarde, em 1913.

                Em 1912 por�m, outro acontecimento daria novo rumo a sua vida.

                Crowley, com o seu Livro das Mentiras, curiosamente, mesmo antes de sua publica��o em 1913, chamaria a aten��o de, nada mais nada menos, Theodor Reuss, membro do servi�o secreto germ�nico, ma�om e ocultista, Frater Merlin Peregrinus Xo, ent�o O.H.O. [20] da Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Reuss, tendo lido Liber CCCXXXIII, para seu espanto, l� identificara o segredo central da O.T.O. [21].

                A O.T.O. era uma organiza��o de cunho ma��nico, m�stico e m�gico, fundada por Karl Kellner, em 1902. Kellner, segundo a lenda, teria viajado pelo oriente onde havia sido iniciado por um faquir �rabe, chamado Solimam ben Aifha, e pelos yoguis hindus Bhima Shen Pratap e Sri Mahatma Aganya Guru Paramahansa, recebendo os mist�rios da Filosofia e do Yoga da M�o Esquerda, a Magia Sexual [22].

                A O.T.O., que reivindicara para si a deten��o do conhecimento outrora pertencido aos lend�rios Cavaleiros do Templo, assim como ocorreu com a G.'.D.'., reuniu entre seus Adeptos v�rios eminentes ma�ons e ocultistas da �poca, alguns dos quais, a partir dos fundamentes adquiridos nessa Ordem, ou fundaram ou em muito colaboraram em outros movimentos da �poca. A t�tulo de exemplo temos: Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia; Franz Hartmann, um dos mais importantes colaboradores do movimento Teos�fico; Krumm-Heller, respons�vel pela expans�o da Fraternitas Rosacruciana Antiqua (F.R.A.); Gerald Gardner, considerado como o "pai" da Wicca; Karl Germer, sucessor de Crowley como l�der da O.T.O.; Kenneth Grant, que depois lideraria um varia��o da Ordem na Inglaterra; H. Spencer Lewis, fundador de um bem conhecido movimento neo-rosacruciano denominado AMORC [23]; al�m do pr�prio Crowley.

                O bizarro encontro entre Reuss e Crowley, definitivamente, marcaria o destino da Ordem alem�. Crowley, ap�s ter sido acusado de divulgar abertamente este segredo, exp�e a Reuss que este teria sido aprendido por ele quando de sua viagem ao Oriente [24] e que j� o praticava h� muito; sendo-lhe imposs�vel saber ser este o mesmo Santo Segredo cultivado pela O.T.O.

                O desenvolvimento da conversa entre os dois Iniciados deixou Reuss t�o bem impressionado que este nomearia Crowley l�der da O.T.O. para os pa�ses da l�ngua Inglesa. Essa tarefa foi exercida por Crowley atrav�s do Mote Baphomet.

                Crowley ent�o, passaria a escrever (e tamb�m reescrever) os Rituais da O.T.O. sob a luz de seu Liber Legis. Em 1914, acompanhado de Mary d'Est� Sturges (Soror Virakam), escreve seu famoso Book Four. [25]

                Em 12 de Outubro de 1915, em seu quadrag�ssimo anivers�rio, Aleister Crowley toma o Mote de TO MEGA THERION, 666, para o 9o=2, o Grau de Magus da A.'.A.'..

                E, como 666, Crowley concebe uma das mais belas p�ginas da literatura esot�rica, Liber Aleph, The Book of Wisdow or Folly, uma Ep�stola de 666 a seu Filho 777 (Frater Achad, Charles S. Jones). Em 1919, publica o primeiro n�mero do terceiro volume do The Equinox.

                Um dos mais curiosos feitos da Besta, teve lugar com a funda��o, em 2 de abril de 1920, da Abadia de Thelema, em Cefalu, Sic�lia, It�lia. Depois, Crowley, em secreto juramento, assume, em maio de 1921, o Grau de 10o=1 A.'.A.'., Ipississimus. A Abadia funcionou at� 1923, quando Crowley foi expulso da It�lia por Mussolini.

                Mas, em 1925, com o falecimento de Theodor Reuss, Crowley � convocado para uma reuni�o internacional da O.T.O., onde os rumos dessa Ordem seriam tra�ados. Crowley � convidado a ser o Chefe Internacional da Ordo Templi Orientis. Aceita e toma o Santo Mote de Deus est Homo [26].

                Durante os anos seguintes, Crowley viveu alternadamente na Fran�a, Alemanha e Norte da �frica. Nesta �poca ele viria a conhecer duas pessoas que, al�m de serem disc�pulos e amigos, seriam depois importantes personagens dentro da hist�ria de Thelema: Karl Germer e Israel Regardie [27]. Expulso da Fran�a em 1929 sob acusa��o de ser agente alem�o, Crowley retorna � Inglaterra.

                A publica��o de suas Confiss�es, em 1930, proporcionou a Crowley um interessante encontro com um dos maiores g�nios da literatura portuguesa. Estamos falando de Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa, que al�m de c�lebre poeta era um competente astr�logo, fascinado pelas ci�ncias esot�ricas, envia, neste mesmo ano, uma carta a Crowley, indicando erros em seu mapa natal. Crowley, entusiasmado com o conhecimento do poeta lusitano, contesta sua carta, dando-lhe raz�o, e expressa seu desejo de conhec�-lo.

                Pessoa, mesmo incomodado e receando tal encontro, recebe-o no porto de Lisboa. A lenda diz-nos que estranhos acontecimento tiveram vez naquela tarde, como um inexplicado nevoeiro que, descendo na cidade de Lisboa, atrasou o barco que conduzia a Besta ao encontro do criador de �lvaro de Campos. E tanto foi a admira��o e fasc�nio de Pessoa para com o pior homem do mundo, que, no famoso caso da Boca do Inferno, onde Crowley simulou um tr�gico suic�dio, Pessoa testemunhara, confirmando o que supostamente teria ocorrido a seu novo amigo.

                Pessoa, que vira naquele estranho ingl�s um irm�o nos Mist�rios, a partir do encontro e da amizade com Crowley, em muito mudou o tom de sua poesia. Adentrou-se no estudo do simbolismo, publicando obras de not�vel valor, at� sua prematura morte, aos 47 anos, em 1935.

                Crowley segue e, entre casos amorosos, drogas, e causas judiciais, publica nos anos 30 uma s�rie de ensaios e instru��es que comporiam os n�meros subseq�entes de The Equinox, iniciado em 1919. The Equinox of the Gods, relatando suas experi�ncia no Cairo e a escritura de Liber Legis, � publicado em 1937.

                Trabalhando com Lady Frieda Harris, Crowley, ao longo de cerca de cinco anos, concebe um Tarot de modo que a imagem do Eon fique registrada. O resultado final � o maravilhoso The Book of Thoth, onde a principal mensagem de sua obra est� apresentada de forma sint�tica. Durante esse trabalho com Lady Harris, em 1942, na forma de um manifesto da O.T.O., Crowley publica Liber OZ, a Carta dos Deveres e Direitos dos homens e das mulheres. Algo muito parecido seria elaborado alguns anos depois pela ONU.

                Seus �ltimos anos, a partir de 1945, s�o vividos em Hastings, onde uma s�rie de novos disc�pulos continuam recebendo instru��es. E, assim, Kenneth Grant, John Symonds, Grady McMurty, conhecem a Besta. Desta �poca, vem sua �ltima obra, consistindo numa colet�nea de cartas dirigidas a uma jovem disc�pula, que foram publicadas bem mais tarde, ap�s a sua morte, como Magick Without Tears.

                No primeiro dia de dezembro de 1947, aos 72 anos, Aleister Crowley, serenamente segundo alguns, exultante segundo outros, e ainda perplexo, segundo terceiros, falece, v�tima de bronquite cr�nica e complica��es card�acas.

                Quatro dias depois, no cremat�rio de Brighton, assistido por um reduzido n�mero de admiradores e disc�pulos, � realizada a cerim�nia que ficou conhecida como "O �ltimo Ritual", com a leitura de trechos da Missa Gn�stica, e de seu maravilhoso Hino a P�.

                Realizara-se, assim, a �ltima vontade da Besta.

O LEGADO

                Durante boa parte de sua vida, Aleister Crowley buscou incansavelmente, e isto de fato era uma gigantesca obsess�o para ele, reconhecimento de seu trabalho. Sua vida, marcada pela excentricidade, drogas, excessos sexuais, nunca lhe permitiu reconhecimento do valor de sua Obra. Isto por�m, e mesmo ele o soube quando de seu amadurecimento m�gico, s� viria a acontecer ap�s seu falecimento. Ali�s, Crowley dizia estar meio deslocado no tempo, e como diz seu Liber Al vel Legis, entendia ser o sucesso o seu grande ord�lio, a grande prova de sua exist�ncia. Mas seu sucesso, de modo paradoxal, ocorrendo em vida, seria a cabal prova de seu fracasso, pois, segundo Crowley, o estado mental da absoluta maioria dos seus contempor�neos, ainda n�o suportando a revela��o contida em suas obras, o rejeitaria por completo. A aceita��o delas seria, ent�o, o incontest�vel argumento de sua falha [28].

                Esta opini�o poderia ter sido, muito bem, apenas mais uma jact�ncia da presun�osa personalidade da Besta, ou simplesmente uma tola desculpa arquitetada como �libi a ser usado quando de seu fracasso, isto n�o fosse a imparcialidade da hist�ria demonstrando e confirmando a gabolice do pior homem do mundo.

                Alguns de seus disc�pulos diretos se tornaram os principais respons�veis pela maior parte do que se v� em termos de vanguarda ocultista internacional. Entre tantos dignos de nota, citaremos somente aqueles mais conhecidos [29] cujo importante trabalho � apenas um aspecto da forte influ�ncia legada por Aleister Crowley. Personagens como Arnold Krumm-Heller (Fra. Huiracocha), Kenneth Grant (Aossic Aiwass), Austin Osman Spare (Zos vel Thanatos), Karl J. Germer (Saturnus), Louis Grady McMurty (Himenaeus Alfa), Cecil Frederick Russel (Genesthai), Charles Stanfeld Jones (Achad), Gerald Brosseau Gardner, entre outros, estiveram sob direta instru��o de Crowley.

                Todos estes, cada um de acordo com a pr�pria vontade, estabeleceram ou formaram novas Ordens, desenvolveram Ritos e criaram movimentos cuja base � a Lei de Thelema. Assim, Krumm-Heller herdou e estabeleceu a F.R.A., onde a palavra da Lei � (ou pelo menos era) Thelema; Kenneth Grant, tendo como base a Ordo Templi Orientis, funda a Loja Nova �sis na Inglaterra [30], sendo ele um dos principais divulgadores da obra de Crowley; Austin Osman Spare, um talentoso artista pl�stico ingl�s, desenvolveu um culto totalmente pessoal denominado Zos Kia; Karl J. Germer, 8o=3 A.'.A.'., (Magister Templi), torna-se, por heran�a, o O.H.O. da O.T.O.; ap�s Germer, Louis G. McMurty, um outro disc�pulo direto de Crowley, assume a lideran�a da Ordem, estabelecendo definitivamente a O.T.O., como a �nica Ordem thel�mica de express�o mundial. Cecil F. Russel fundou o Choronzon Club, grupo que mais tarde viria a ser conhecido como Great Brotherhood of God, a G.'.B.'.G.'.; Charles S. Jones, considerado o filho m�gico de Crowley, descobriu a chave matem�tica do Liber Al vel Legis; e Gerald B. Gardner, a partir de Rituais escritos por Crowley, escreve seu Book of Shadows, concebe e funda a Wicca moderna [31].

                Mas a influ�ncia de Crowley n�o acaba a�. Uma intermin�vel rela��o de Ordens poderia ser citada como, se considerando ou n�o seguidores da Lei de Thelema, fruto direto ou indireto de seu trabalho. Estas Ordens constantemente utilizam a farta obra de Aleister Crowley n�o s� como refer�ncia, mas como sendo b�sicas a seus trabalhos e imprescind�veis ao desenvolvimento de seus Adeptos.

                Novamente aqui citaremos apenas as mais conhecidas [32] Ordens e movimentos que, de uma forma ou de outra, s�o frutos do trabalho de Lorde Boleskine.

                Desta forma, temos a pr�pria Ordo Templi Orientis Antiqua, a O.T.O.A., movimento fundado no Haiti, como dissid�ncia da O.T.O., por Lucien-Francois Jean-Maine em 1921 [33]. Um inovador e interessante movimento conhecido na Inglaterra como Kaos Magick e a curiosa IOT (Illuminates of Thanateros) de Peter James Carrol [34], baseados nas obras de Crowley e Spare, tiveram vez nos anos 80. Os membros da IOT consideram-se herdeiros da Tradi��o da A.'.A.'. e do Culto Zos Kia, t�m em Liber Null and Psychonaut, um grupo de ensaios de boa qualidade, um de seus mais importantes escritos.

                A Ordo Templi Orientis [35], reestabelecida por Frater Hymenaeus Alfa (Louis Grady McMurty), atualmente dirigida por Frater Hymenaeus Beta, est� fundamentalmente edificada sobre as obras de Crowley e muito tem feito para a divulga��o de seu trabalho. Mas, como j� dito, embora seja a �nica organiza��o a difundir, em n�vel internacional, os preceitos de Liber Al e Liber OZ, a Lei de Thelema n�o se resume a O.T.O., cuja sede hoje se encontra nos EUA. Atualmente existe uma enorme varia��o de Ordens menores espalhadas pelo mundo sob as mais diversas nomenclaturas. Cada uma a seu modo, na Inglaterra, Su��a, Espanha, Venezuela, Fran�a, Austr�lia, trabalham para a promulga��o da Lei de Thelema.

                Devemos aqui, tamb�m, mencionar um interessante fen�meno dos anos 60, que at� hoje permanece conquistando uma consider�vel gama de interessados em ocultismo. Trata-se da Igreja de Sat�, movimento fundado na Calif�rnia, por Anton Szandor La Vey, que, muito embora n�o tenha uma direta liga��o com Crowley, consiste numa esp�cie de simplifica��o de seus mais b�sicos escritos. Outro que adquiriu certa notoriedade, nessa mesma �poca, foi Alex Sanders, um disc�pulo de Gardner que se denominou Rei dos Bruxos, utilizou alguns rituais elaborados por Crowley, desenvolvendo seu pr�prio controvertido sistema de Witchcraft.

                Al�m destas, temos tamb�m algumas deriva��es da G.'.D.'. e da Stella Matutina que, embora "cristianizadas" por seus fundadores, utilizam a Obra da Besta como importante fonte de pesquisa: Society of the Inner Light, de Madame Violet Firth [36], Servants of Light, de W. E. Butler e Basil Wilby (mais conhecido como Gareth Knigth). A Aurum Solis, liderada por Melita Denning e Osborne Phillipis, tamb�m consiste numa varia��o da Golden Dawn.

                � parte os movimentos m�gicos e inici�ticos, Crowley tamb�m exerceu enorme influ�ncia sobre o trabalho de v�rios artistas, compositores e conjunto musicais; famosos grupos e cantores de rock como Black Sabbath, Led Zeppelin (Jimmy Page, guitarrista do Led, inclusive comprou o Castelo de Boleskine, onde Crowley morou por alguns anos), Rolling Stones, The Clash, Beatles (no �lbum Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band, sua fotografia aparece como "uma das pessoas que gostamos"), Iron Maiden, Ozzy Osbourne, entre tantos outros; e artistas e escritores do quilate de H. R. Giger, Kenneth Anger, David Bowie e Aldous Huxley [37], t�m no exemplo de 666 uma fonte de inspira��o para seus trabalhos e vidas.

                Tamb�m na literatura encontramos v�rios romances que foram concebidos utilizando a imagem cultivada por Crowley, como exemplo: The Magician de W. Somerset Maugham (o mesmo autor de O Fio da Navalha), The Goat-Food God de Dion Fortune, Stranger in a Strange Land de Robert A. Heinlein, etc.

                Finalizando, n�o poder�amos deixar de mencionar o meio art�stico brasileiro, que teve no memor�vel Raul Seixas, o grande arauto da mensagem de Crowley. Em especial as m�sicas A Lei e Sociedade Alternativa (ambas de Raul Seixas e Paulo Coelho), que t�m como base Liber OZ. Outras not�veis obras de sua autoria s�o A Ma��, Tente Outra Vez (estas em parceria com Marcelo Motta [38] e Paulo Coelho) e Pedra do G�nese (de Raul Seixas e J. R. R. Abrah�o), al�m de muitas outras can��es do maluco beleza que apresentam, de um modo bem particular ao Raul, a Lei de Thelema.

CONCLUS�O:

                Certamente o legado da Besta (como passou a ser conhecida a influ�ncia de Aleister Crowley) surpreendeu aqueles que esperavam, e at� mesmo ansiavam, seu esquecimento. Esses nunca poderiam imaginar que a quantidade de admiradores e disc�pulos da Tradi��o revivida por Crowley, o Culto da Besta, ou o Culto das Sombras, aumentasse de forma "assustadora, chegando mesmo a comprometer as bases morais, nas quais nossa sociedade est� erigida". Talvez esses tenham esquecidos que as tais mesmas bases morais, nas quais t�o solidamente foi estabelecido aquilo que hoje denominamos sociedade, s�o as �nicas respons�veis pela obtusa condi��o em que se encontram centenas de milh�es de homens e mulheres, massacrados que est�o pelas in�pias e n�o qualific�veis condi��es de vida, seguro retorno do bi-milenar investimento s�cio-religioso e econ�mico, que � a mis�ria.

                Vontade fraca e entendimento nulo. A resultante desta insidiosa a��o n�o poderia ser outra. E quando vontade e entendimento, dois dos princ�pios b�sicos que constituem o homem, operam sem harmonia, o esp�rito cai enfermo. O estudo e a pr�tica da Lei de Thelema intentam fazer com que o conjunto Vontade e Entendimento, funcione devidamente, levando o Adepto a sua realiza��o plena.

                Sim, a Lei de Thelema. Muito j� foi feito, e tamb�m muito ainda resta por fazer. Aleister Crowley representou, t�o somente neste sentido, o papel de Profeta, Vate e Ap�stolo. Mas sua grande aspira��o reflete a aspira��o de todo ser humano, sim, o anseio do homem por Liberdade. Seu trabalho n�o � apenas resultado dos caprichos de uma controvertida personalidade, mas, principalmente, vem da necessidade humana de tomada de consci�ncia, necessidade de Vontade, necessidade de entendimento. Este era todo o anseio de Crowley. Isto � liberdade, liberdade apenas para a realiza��o de sua Vontade Verdadeira, nada mais.

                � a esta demanda por irrestrita Liberdade, munidos pela Tradi��o, que os Adeptos e Estudantes de Thelema dedicam sua Obra. E eles, certamente, estar�o sempre acompanhados, como acontece com a pr�pria hist�ria da Magia, pela lembran�a do calvo semblante da Grande Besta 666, Aleister Crowley.


CRONOLOGIA B�SICA DA VIDA DE CROWLEY

Uma colabora��o de Frater Sinn, da Ordo Templi Orientis. Adaptado a partir de Gerald Suster em "The Legacy of the Beast" – Segunda Edi��o de 1990 e originalmente postado na Lista Arte M�gicka.  

12-10-1875 e.v. - Edward Alexander Crowley nasce em Leamington Spa. Warwickshire.
1887 - Seu pai, Edward Crowley morre.
1895 - Matricula-se no Trinity College, Cambridge.
1896 - Primeira experi�ncia m�stica.
1898 - Publica seu primeiro poema, Aceldama.
           Conhece Gerald Kelly.
           Deixa Cambridge.
           Conhece George Cecil Jones.
18/11/1898 - � iniciado na Ordem Herm�tica da Aurora Dourada [Hermetic Order of the Golden Dawn]. Assume o nome de Frater Perdurabo isto �, "eu perdurarei at� o fim".
1899 - Conhece Allan Bennet e recebe instru��es m�gicas mais intensas.
           Conhece o Chefe da Aurora Dourada, 'MacGregor' Mathers.
           Adquire a Casa de Boleskine.
1900 - Cisma na Aurora Dourada.
           Mathers inicia Crowley no Adeptado em Paris.
           Crowley parte para o M�xico.
1901 - Exercicios de Concentra��o e alpinismo no M�xico com Oscar Eckenstein.
           Escreve Alice: um Adult�rio.
           V� Allan Bennet e estuda/pratica Yoga com ele no Ceil�o. Atinge o Dhyana.
1901-2 - Viagens pela �ndia.
1902 - Visita Bennet em Burma.
           Expedi��o ao K2 liderada por Eckenstein.
           Chega em Paris.
1903 - Retorna a Boleskine.
           Conhece Rose Kelly, irm� de Gerald, e a desposa.
1903-4 - Viagens em Lua-de-mel para Paris, N�poles, Cairo e �ndia.
09/02/1904 - Retornam ao Cairo.
20/03/1904 - Equin�cio dos Deuses.
16/03/1904 - Frater Perdurabo tenta divertir a sua esposa mostrando-lhe os silfos. Esta fica subitamente "inspirada" e repete sem cessar que "Eles est�o esperando por voc�!"
17/03/1904 - "� 'tudo sobre a crian�a'. Tamb�m 'tudo Os�ris'."
18/03/1904 - � "revelado que o que o aguardava era H�rus", o qual Frater Perdurabo teria "ofendido" e "deveria incocar". Identificada a Estela da Revela��o no Museu do Cairo sob o n�mero 666.
19/03/1904 - Realizada a Invoca��o de H�rus.
8, 9 & 10/04/1904 - Recep��o do LIVRO DA LEI.
1904-5 - Crowley rejeita intelectualmente o Livro e perde o manuscrito.
1905-7 - Publica��o das "Obras Completas de Aleister Crowley".
1905 - Expedi��o a Kangchenjunga.
1906 - Viagens pelo Sul da China com Rose e sua filha, Lilith.
           Invoca��es do Augoeides.
           Lilith morre.
           Atinge Nirvikalpa Samadhi e completa a Opera��o de Abramelin.
           Escreve o 777.
           Reconhecido como Mestre por George Cecil Jones.
1907 - Inicia-se a Recep��o dos "Livros Sagrados".
           Funda��o da A.'. A.'.
           Amizade com o Capit�o J.F.C. Fuller.
1908 - Realiza o "Jo�o S�o Jo�o" em Paris.
1909-1913 - Publica os dez primeiros n�meros de "O Equin�cio".
1909 - A A.'. A.'. � aberta a novos membros.
           Encontra o manuscrito perdido do LIVRO DA LEI (28/06/1909).
           Rose se divorcia de Crowley.
           A Vis�o e a Voz � recebido no Saara com Victor Neuburg.
           Crowley formalmente aceita o Grau de Mestre do Templo.
1910 - Conhece Leila Waddell - que seria L.A.Y.L.A.H.
           Os Ritos de El�usis realizados em Caxton Hall.
1911 - George Cecil Jones processa o jornal The Looking Glass por perdas e danos.
Jones, Fuller e outros rompem com Crowley.
           Outra visita ao Saara com Neuberg.
           Conhece Mary d'Este Sturges.
           � realizado o Trabalho de Abuldiz.
1912 - Livro Quatro - Partes 1 & 2 - publicado como resultado do Trabalho de Abuldiz.
Theodore Reuss inicia Crowley na Ordo Templi Orientis e o aponta como Cabe�a do Ramo Brit�nico.
1913 - Visita � Moscou com "The Ragged Rag-Time Girls".
            Escreve o Hino a Pan, entre outros Trabalhos.
            Publica��o de O Livro das Mentiras.
1914 - O Trabalho de Paris - The Paris Working - com Victor Neuberg.
           Parte para os Estados Unidos.
1915 –Comp�e LIBER XV – A MISSA GN�STICA.
           Trabalha no livro Astrology com Evangeline Adams.
           Envolve-se com Jeane Foster - que seria Hilarion & A Gata.
           Trabalha com Charles Stansfield Jones - Frater Achad – em Vancouver.
           Crowley assume o Grau de Magus, o Profeta do Novo Aeon.
1916 - Retiro M�gicko em New Hampshire.
           Per�odo de priva��es em Nova Orleans.
1917 - Se torna editor do The International.
           Come�a a pintar.
1918 - Finaliza Liber Aleph.
           Trabalho de Amalantrah com Roddie Minor.
           Retiro M�gicko na Ilha de Esopo.
           Vers�o de Crowley do Tao Teh King.
           Conhece Leah Hirsig.
1919 - O Equin�cio Azul, Volume III, n�mero 1, publicado.
           Volta para a Inglaterra com Leah.
           Recebe uma heran�a de 3000 libras.
           1920 - Abadia de Thelema fundada em Cefalu, Sic�lia.
           Anna Leah (Poupe�), filha de Crowley e Leah, morre.
           Ninette Shumway na Abadia ; chegada de Jane Wolf.
1921 - Crowley assume o Grau de Ipisissimus mas jura jamais divulgar o fato.
1922 - Publica��o de Diary of a Drug Fiend.
           Na Inglaterra, a Imprensa move uma campanha contra Crowley.
1923 - Raul Loveday morre em Cefalu.
           Crowley expulso da It�lia por Mussolini.
           Completa As Confiss�es de Aleister Crowley.
1925 - Crowley � convidado a ser o Cabe�a Internacional da Ordo Templi Orientis (O.T.O.).
1928 - Israel Regardie une-se a Crowley em Paris e se torna o seu Secret�rio.
1929 - Crowley, Regardie & a ent�o amante de Crowley, Maria Teresa de Miramar, expulsos da Fran�a. Crowley retorna a Inglaterra. Magick in Theory and Practice publicado em Paris e Londres.
            Crowley casa-se com Maria em Londres.
1930 - Publicados os dois primeiros volumes de As Confiss�es.
1930-4 - Viagens a Alemanha e Portugal.
1932 - Regardie e Crowley se afastam.
1934 - Crowley perde um processo que havia movido contra Nina Hamnett e Constance & Co.
1935 - Crowley vai a fal�ncia.
1937 - Publica��o de O Equin�cio dos Deuses.
1939 - Publica��o de Oito Li��es de Ioga.
           Sugere o sinal do "V" da Vit�ria ao Governo Ingl�s.
1944 - Publica��o de O Livro de Thoth com as cartas de Tarot pintadas por Frieda Harris.
1945 - Crowley muda-se para 'Netherwood', Hastings.
           Trabalha no Magick without Tears.
1947 - 1 Dezembro: morre Aleister Crowley aos 72 anos de idade e de causas naturais, em Hastings.
5 Dezembro: seu corpo f�sico � cremado em Brighton.
 


Notas:

1) e.v., era vulgari. Todos as datas deste artigo s�o referentes a era vulgar (i.e. era Crist�).

2) Um Notarikon de Holy & Iluminated Man of God (Santo e Iluminado Homem de Deus). Uma brincadeira bem t�pica de Crowley.

3) Sobre o assunto recomendamos The Eye in the Triangle de Israel Regardie, The Legacy of the Beast de Gerald Suster, e The Magical Word of Aleister Crowley de Francis King, as quais s�o consideradas boas obras de refer�ncia. N�o podemos deixar de mencionar o volumoso The King of the Shadow Realm (edi��o revisada de The Great Beast) de John Symonds, uma das mais conhecidas biografias de Crowley; apesar de uma escrachada antipatia para com Crowley, Symonds, mesmo enfatizando as supostas bizarrias da Besta, n�o consegue refutar seu amor e admira��o por seu biografado. Caso o leitor esteja disposto a dedicar seu tempo a obras n�o t�o valiosas quanto as j� citadas, indicamos a leitura dos sofr�veis The Nature of the Beast de Colin Wilson, e tamb�m The Beast de Dan Mannix.

4) Hora corrigida por Fernando Pessoa: 11:16 pm.

5) Principalmente The Book of Black Magic and of Pacts de Arthur Edward Waite (1867-1940), norte-americano, ma�om, erudito e autor de diversas obras sobre Cabala, Ma�onaria, Rosacrucianismo, etc.

6) Der Wolke vor dem Heiligthume (1802), de autoria de Karl von Eckhartshausen (1752-1803), bibliotec�rio, m�stico e autor alem�o (Baviera).

7) Devemos lembrar que isto ocorreu ao final do s�culo passado, quando o termo "Grande Fraternidade Branca" de fato significava algo mais interessante do que se v� hoje.

8) Aleister � apenas a forma ga�lica de Alexander, e n�o, como muitos pensam, uma oculta refer�ncia a algum tipo de terr�vel dem�nio.

9) Para maiores informa��es sobre a trama e a hist�ria da G.'.D.'., ver The Magicians of the Golden Dawn de Ellic Howe.

10) Sax Homer, autor de Dr. Fumanchu, e Bram Stocker, autor de Dr�cula, segundo consta no best-seller de Louis Pauwels e Jacques Bergier, Le Matin des Magiciens, pertenceram a G.'.D.'. (essa informa��o, entretanto, � refutada por Howe). Em rela��o a Gustav Meyrink, sua participa��o na G.'.D.'. tamb�m � negada por alguns pesquisadores.

11) A G.'.D.'. era dividida em tr�s sub-ordens: a primeira consistia dos cinco primeiros Graus (de Neophytus a Philosophus), a segunda de Adpetus Minor � Exemptus, a terceira e �ltima comportava os Graus de Magister Templi e Magus. Uma excelente explana��o sobre a G.'.D.'.( � dada por Israel Regardie, em seu memor�vel The Complete Golden Dawn System of Magic.

12) Exemplos: Stella Matutina de Waite, Inner Light de Dion Fortune, Servants Of Light de W. E. Butler e Gareth Knight, al�m das diversas "Golden Dawns" espalhadas pelo mundo afora.

13) A Opera��o de Abramelin.

14) Para uma descri��o detalhada do ocorrido com Crowley e Rose, bem como a respeito de Aiwass, ver The Equinox of the Gods, do pr�prio Crowley.

15) O.S.V. s�o as iniciais de "Ol Sonuf Vaoresagi", parte da Primeira Invoca��o Enoquiana, e que significa "Eu Reino sobre Ti".

16) Crowley, segundo se afirma, enviou o Sr. Beelzebub e seus 49 "comparsas" para recha�ar um ataque m�gico desferido por Mathers.

17) Isto � apenas um sentido po�tico. Existindo outros, inclusive de natureza t�ntrica, associado com o trabalho interno da Ordem.

18) Isso apenas se constituiu em mais um glamour. A G.'.D.'., nessa �poca, j� se encontrava em processo de fragmenta��o e em nada poderia ser mais prejudicada com a publica��o de suas Instru��o na s�rie The Equinox. Diga-se ainda que, o fato de uma Organiza��o qualquer, ver publicado seus pr�prios Rituais n�o significa, em hip�tese alguma, que seus trabalhos tenham deixados de ser v�lidos. Pensar assim seria o mesmo que supor estarem h� muito inv�lidadas as v�rias posi��es sexuais contidas no Kama-Sutra, visto ter ele sido publicado. Resumindo, a experi�ncia, pr�tica e pessoal, sempre valer�.

19) Como resultado da opera��o temos o Liber CDXVIII, The Vision and The Voice.

20) O.H.O, do ingl�s Outer Head of Orde, ou Chefe Externo da Ordem.

21) N�o se sabe ao certo como Reuss teria adquirido o Liber CCCXXXIII, antes de sua publica��o. Sup�e-se que isto poderia ter sido um ardil, preparado por Crowley, para impressionar Reuss.

22) A jornada pelo oriente, e o contato com os altos iniciados, � a vers�o oficial da cria��o da O.T.O. Por�m n�o h� registros de que Kellner, ali�s, assim como Reuss, agente do servi�o secreto germ�nico, tenha realmente estado engajado numa viagem de tal tipo; sendo poss�vel que estes "segredos" tenham sido obtidos quando de sua passagem, em Paris, atrav�s da Brotherhood of Light, a qual pertencera Pascal B. Randolph.

23) Para melhor explana��o sobre H. Spencer Lewis e a cria��o da AMORC, sugiro a leitura do �timo Os Mist�rios da Rosa Cruz, de Christopher Mcintosh (Edi��es Ibrasa).

24) Que, diferindo da viagem de Kellner, de fato ocorrera.

25) Mais conhecido como Magick, ou ainda Liber ABA.

26) Segundo o curioso The Magical Revival, de Kenneth Grant.

27) O primeiro, como j� dito, sucedeu Crowley como O.H.O. da O.T.O., e o segundo tornou-se seu secret�rio particular.

28) Crowley exp�e isto em John St. John, em The Equinox, vol I n�mero I.

29) Estes "mais conhecidos" s�o mundialmente reconhecidos como grandes autoridades em ocultismo atual. Infelizmente isto n�o se passa em nosso pa�s, pois quase tudo que escapa ao �bvio n�o escapa do veto editorial, levando os "mais conhecidos" a continuarem desconhecidos por aqui. Consilium Sceleris!

30) N�o confundir com a vers�o brasileira que se utiliza do mesmo nome. Esta em absolutamente nada se relaciona com o movimento Tifoniano, assim como desenvolvido por de Kenneth Grant.

31) Existe movimentos Wicca, por exemplo a assim chamada Wicca Francesa, cuja origem n�o est� nem em Gardner nem em Crowley.

32) E novamente aqui fazemos valer a nota de n�mero 29.

33) Apenas em 1973 a O.T.O.A., tendo Micheal Bertiaux como um de seus l�deres, aceitou a Lei de Thelema. Atualmente esta Ordem tamb�m � dirigida por Courtney Willis, Frater Tau Ogdoade-Orfeo, sendo que no Brasil ela foi representada, at� 1995, por J. R. R. Abrah�o, Frater Potens.

34) Carrol lidera esta, mais curiosa do que ca�tica, ordem sob o t�tulo Frater Stokastikos 127, 0o Magus Supremo IOT, Nossa Pestil�ncia (sic) Papa Pedro I do Caos!

35) No sentido de se evitar atropelos causados pela irresponsabilidade de determinados grupos que, mesmo sem um devido preparo, se apresentam como sendo de natureza thel�mica, alertamos que os estudantes interessados em fazer parte de tais grupos dever�o, no m�nimo, se certificar da representividade dos mesmos. A Ordo Templi Orientis por exemplo, Ordem resspons�vel pela divulga��o da Lei de Thelema, em n�vel mundial, se encontra funcionando regularmente no Brasil. Os contatos poder�o ser feitos atraves da Homepage da O.T.O. no Brasil.

36) Mais conhecida como Dion Fortune.

37) Em especial suas obras Portas da Percep��o e C�u e Inferno.

38) Marcelo Ramos Motta (1931-1987) - tamb�m conhecido como Frater Parzival - que nunca obteve Inicia��o regular na O.T.O. (ou em qualquer ramifica��o desta) - teve como Instrutor na A.'.A.'. Karl J. Germer. Na mesma �poca Germer j� era l�der da O.T.O.. Marcelo Motta � erroneamente considerado como sendo o respons�vel pela vinda de Thelema para nosso pa�s, fato que ocorreu nos anos 30, com a chegada da F.R.A. no Brasil. Motta foi, no in�cio dos anos 70, um dos instrutores de Raul Seixas e Paulo Coelho.


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