O prefeito de Porto Alegre José Fogaça falou no lançamento da Quinta Essência de
QuintanaMario
Quintana, 100
anos do nascimento
Texto de Antonio Barañano /
TeleNews Shopping - Porto Alegre
Em 30 de Julho deste ano estará
se completando o centenário de nascimento do poeta Mario Quintana
acontecido em 1906. Dando início às comemorações pelos 100 anos de seu
nascimento, a Cia. Zaffari promoveu o lançamento da Quinta
Essência de Quintana, Dicionário Mario Quintana numa solenidade que
reuniu no Bourbon Shopping Country quase toda a
intelectualidade local e administradores públicos como o Governador em
exercício e o Prefeito.
Quintana:
"Eu nunca quis pertencer à Academia"
"As minhas relações com a
Academia foram sempre boas, eu sempre me dei com gente de lá. Não estou
dizendo que ‘as uvas estão verdes’, mas, na verdade eu nunca quis
pertencer à Academia. O pessoal de mentalidade futebolística não se
satisfazia com apenas um nome gaúcho no time e achavam que devia ter outro lá.
Resolveram me candidatar. Quando me candidataram da primeira vez, eu recebi o
recado de um senador, que estava tudo preparado para entrar o Portela, os votos
já estavam prontos e que eu deveria desistir... e eu disse para ele, por
telefone, que não haveria de desistir porque o pessoal iria pensar que era
covardia minha. E seria muita desconsideração de minha parte. Aliás, eu não
gosto de Academia e jamais quis pertencer a ela porque a gente perde um tempo
enorme recebendo visitantes estrangeiros de valor muito suspeito. Se pensa que
ser estrangeiro é grande coisa, que ser francês ou inglês é uma raridade e
não é bem assim. Depois, na Academia, se começa a discutir quem vai ser o
sucessor de quem, se recebe pressões de toda a parte para se votar e eu acho
que isso atrapalha a vida do camarada, não é? Eu acho que ultimamente a
Academia virou um depósito de ministros e com o perdão de alguns amigos que eu
tenho lá, um asilo de velhos. Mas eu não tenho nada contra a Academia. De fato
não há contradição minha em lamentar que não tenha sido eleito porque eu intensionava fazer tudo pela academia, se fosse eleito. Acho que, antes de tudo,
ela deveria ter muita gente jovem. Eu acho que já seria uma renovação e
acabava com aquela coisa. Na Academia, já não gostaram muito de mim porque
dois anos antes da minha candidatura eu tinha dito que a Academia era uma
espécie de sociedade recreativa e funerária (risos).
Mario Quintana fez esse desabafo
em 16 de Janeiro de 1987 numa entrevistas aos jornalistas paraibanos Joana
Belarmino e Lau Siqueira, que de passagem por Porto Alegre resolveram
visitá-lo. Para que as novas gerações conheçam um pouco sobre a ireverência
de Mario Quintana pinçamos os principais tópicos do que foi publicado.
APRENDIZ –
"Eu sou um eterno aprendiz de poeta e
nunca soube fazer outra coisa na vida... No quarto ano do colégio, eu fui
reprovado porque só estudava Português, Francês e História. O resto eu nem
abria. Então meu pai me fez trabalhar na sua farmácia como prático. Depois de
cinco anos fui fazer o que mais queria, trabalhar como jornalista no jornal O
Estado do Rio Grande".
BRUNA LOMBARDI –
(...) já íamos sair quando o poeta nos mostrou um segredo: um painel de
fotografias de Bruna Lombardi na porta do seu quarto (lado de dentro,
lógico!). Confessou que não fica muito à vontade quando lhe pedem,
freqüentemente, para falar de sua relação com a atriz: "Que coisa chata,
como é que eu vou explicar uma amizade? Acho também que a amizade é um tipo
de amor que não acaba nunca".
PEDIDOS CHATOS –
Nunca se incomodou com perguntas de repórteres. "O que existe é uma
pedida chata. Há pessoas que dizem, por exemplo: ‘Seu Mário, faz uma
dedicatória bem poética pra mim...’ Olha, o que eles entendem por
poética me deixa horrorizado".
NASCEM FEITOS –
"Eu comecei a fazer versos desde que me entendi por gente. Eu acho que ser
poeta não é uma maneira de escrever, é uma maneira de ser. Assim, como nascem
pessoas de olhos azuis ou pretos, nascem também os poetas. Mas eu só publiquei
mesmo o meu primeiro livro muito mais tarde. Os poetas novos tem ânsia de
publicar logo, eles deveriam esperar ficar mais amadurecidos pela vida, não é?
E assim, iriam amadurecendo também o seu instrumento, que são as palavras. O
poeta quando mais velho tem tendência de ficar melhor, com o estilo mais
depurado. Viveu mais, não é?"
POETA SEMPRE –
"Olha, eu sou um eterno aprendiz. Porque o poeta que descobre uma fórmula,
ganha renome, não quer outra vida, e fica conversando com os amigos sentado em
cima do muro sem se espetar, esse está perdido, porque eu acho que a poesia
não é mais que a procura da poesia, como acho que também Deus se resume na
procura de Deus. Eu publiquei meu primeiro livro aos 34 anos. Foi "A Rua
dos Cataventos".
MULHERES E BÊBADOS –
Olha, eu não sei fazer outra coisa na vida. Este ano vou publicar dois livros:
Um diário poético, com pensamentos sobre cada dia. No dia universal da mulher,
por exemplo, eu escrevi o seguinte: "De cada dois gambás – eu não sei
se na Paraíba se usa a palavra gambá para se definir um bêbado – um é
porque não tem mulher e o outro é porque tem". (risos).
O TRADUTOR – "Eu
traduzi para a Livraria do Globo, cento e trinta e oito livros. No tempo em que
eu era criança, o francês era moda e a minha mãe era professora de francês.
Então, quando a gente, por exemplo, não queria que os empregados soubessem o
que a gente estava dizendo, aí se falava em francês. Grande parte da
revolução de 23, por exemplo, foi preparada em francês, porque se reuniam as
senhoras dos oficiais para tomarem chá e comunicavam as coisas todas em
francês. Imagine que na minha terra, em Alegrete, se fez revolução em
francês. Que barbaridade! Naquele tempo as comunicações com a Europa eram bem
mais fáceis que hoje. A França era a capital literária do mundo. Eu, quando
estava na farmácia do velho, tinha conta numa livraria francesa. Eles mandavam
os boletins e eu encomendava. Tudo vinha direto de Paris para Alegrete".
PORTO ALEGRE –
"Olha, naturalmente o que mudou foi a arquitetura, não é? Eu vejo sempre
uma cidade dentro da outra e lembro aquela cidade antiga. Mas pra me lembrar
dela eu tenho que fechar os olhos (risos). Porto Alegre, antigamente, era muito
mais calma. Não havia tantos assaltos, tanta violência... eu nasci no tempo
das vacas gordas. Antes, o leiteiro deixava o leite na porta de casa e ninguém
roubava. Hoje roubam até as galinhas dos despachos. Os tempos mudaram, os
costumes, mas a vida continua a mesma. Eu não sou como aqueles velhos que
dizem: "Ah, os bons velhos tempos..." eu tenho vontade de dizer para
eles: "Olha seu moço... seu moço, não, seu velho. Os tempos são sempre
bons, o senhor é que não presta mais... (risos)".
VELHICE – "E u acho
que é uma pena. Só que eu queria ter nascido 40 anos antes, e não oitenta
anos antes (risos). Tudo isso eu já vivi, sabe? Quando o diabo me chamar eu já
estou pronto".
Mario Quintana faleceu sete anos depois em 1994.
Evolução
"O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que
ele tenha sido nosso passado: é este sentimento de que ele venha a ser o nosso
futuro". (Na volta da Esquina / Coleção RBS)
Quinta
Essência, o lançamento
da Cia. Zaffari
No final de sua existência,
Mario Quintana viveu uma intensa amizade com a atriz e também poeta Bruna
Lombardi. Foi ela que redescobriu Quintana para o Brasil.
Quinta Essência de Quintana,
Dicionário Mario Quintana segue o
projeto da Cia. Zaffari iniciado em 2005, que dicionarizou
a obra de Erico Verissimo, também em homenagem ao centenário de seu
nascimento.
O livro apresenta um total de
1.257 verbetes de A a Z, sendo acompanhado do CD Mario Quintana 100 anos,
recital com cerca de uma hora de duração, com interpretações de Paulo
José e suas filhas Isabel Kutner e Ana Kutner.
Os exemplares serão comercializados nas redes Zaffari
e Bourbon. Seus compradores estarão beneficiando o projeto
"Abrindo Horizontes", iniciativa da Casa de Cultura Mario
Quintana que desenvolve trabalhos com menores carentes. Estão previstas
ainda doações de exemplares às universidades, museus e bibliotecas.
O governador em exercício Antonio Hohlfeldt lembrou que ao tempo em que trabalhou no jornal Correio do Povo foi vizinho da mesa de Mario Quintana
Administradores públicos, intelectuais e familiares participaram do lançamento das homenagens pelos 100 anos de nascimento de Mario Quintana
O diretor da Cia Zaffari Airton Zaffari, o escritor Walter
Galvani e o presidente da Associação RIo-Grandense de Imprensa jornalista Erci Thorma
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