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PARA QUE
MAIS CRIANÇA?
(Poesia premiada pela Academia Internacional de Letras no
Ano da Criança, no Globo)
Um laço de fita no chão,
uma pipa rasgada na areia,
um remo na praia, sem barco,
no mar, lá distante, a jangada,
o olhar da mulher que ficou,
o homem que, à tarde, voltou,
o abraço na cama, o mocambo,
o filho dormindo na sala,
a cama que range, que estala,
a vida envolvida em molambo.
A seca secando
o sertão,
enxada rasgando a poeira,
as nuvens fugindo pr'o Sul,
farinha faltando na feira,
caminhos levando saúva,
saudades malvadas da chuva,
os filhos vestidos de trapo,
na cama o prazer incontido
- a fuga de um povo sofrido,
- a vida envolvida em farrapo.
Lá vem a Bemfam
trazendo "esperança"
dizendo ao Nordeste:
"Pra que mais criança?"
Faltou-lhe dinheiro?
Amargo é o destino?
A chuva não veio?
"Pra que mais menino"
A pipa na
areia
Saúva no milho..
Faltou-lhe farinha?
"Pra que mais um filho?"
A mata
precisa,
de estradas, de trilho ,
Bemfam pontifica:
"Pra que mais um filho?"
Lá vem jangada
com peixe,
alvura de vela no mar,
no peito a vontade gigante
de o filho e a mulher abraçar,
no corpo traz gosto de sal,
no sal um desejo banal,
uma vida, um futuro com brilho,
a escola que abrisse o caminho,
os livros, o terno de linho,
o anel, sem jangada, o seu filho.
Caboclo de noite acordou
ouvindo o roncar do trovão,
os sapos no açude, o riacho,
o inverno chegou no sertão,
o cheiro molhado de terra,
o verde mais verde da serra,
enxada rasgando macia
o ventre fecundo do chão,
o milho plantado, o feijão,
a nuvem que chove poesia.
"Pra que mais
criança?".
Bemfam ensinou
usar "serpentina" ,
assunto encerrou,
Pra que
pescador
pensando no filho?
Pra que sertanejo
plantando mais milho?
A terra está
virgem
Precisa de andança,
de um pé que a engravide...
"Pra que mais criança?".
Quem ama seu
chão.
quem tem esperança,
vê um Brasil nascendo
em cada criança.
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