Contribuiu largamente para a expansão do
Espiritismo no Brasil, prestando assinalados
serviços à Doutrina Espírita. Levantou e
apoiou inúmeras obras de caridade e
beneficência, nas quais até hoje lhe abençoam
o nome, devendo-se-lhe o prédio onde se acha
instalada a Federação Espírita Paraibana.
Desenvolveu importante obra de assistência
social, sem paralelo no meio espírita
nacional. Pacificador por excelência, padrão
do verdadeiro homem de bem, tolerante em todos
os sentidos, sempre à frente de todas as
iniciativas que exigissem responsabilidade e
denodo, foi alçado à posição de líder pelos
próprios espíritas brasileiros.
Trabalhou ativamente no propósito de unir a
família espírita de nossa Pátria, tornando-se
um dos que mais concorreram para a
concretização do célebre "Pacto Áureo", em 05
de outubro de 1949, o qual efetivou a
unificação tão ardentemente desejada pela
Federação Espírita Brasileira.
Sua existência foi um impressionante libelo
contra a ociosidade e o desânimo. Lutou muito,
lutou sempre; lutou e venceu, venceu porque
lutou.
Sua vida terrena teve início no dia 27 de
março de 1891, na cidade de Teixeira, alto
sertão da Paraíba do Norte. Era, portanto,
sertanejo, como sertanejos foram seus pais.
Conheceu nos primeiros anos da meninice as
dificuldades dos que vivem afastados das
grandes cidades, sem os recursos de que
dispõem os que residem nos centros populosos.
Começou, assim, a lutar desde a infância,
fortalecendo nos albores da vida o seu
espírito empreendedor.
Enquanto outras crianças brincavam,
despreocupadas, ele limpava, à enxada, a
plantação, ou roçava para a semeadura. Quando
lhe sobrava tempo, aprendia a ler e a
escrever. Já rapazinho, veio a ser tropeiro, a
demandar as serranias do sul do Estado, de
fazenda em fazenda, de vila em vila, vendendo
ou trocando mercadorias. Às vezes, chegava até
às terras de Pernambuco.
Moço feito, com aspirações mais altas, rumou
para o Recife, onde exerceu atividade de
caixeiro de casa comercial, para ter
assegurada sua subsistência. Ali, porém, não
ficou. Sentia-se atraído para as terras do sul
do País, e é assim que se transfere para
Curitiba, capital do Estado do Paraná, onde
viveu longa parte de sua existência, e onde se
entregou com todo o ardor ao estudo.
Compreendia que para vencer na vida não lhe
bastava a força de vontade, o entusiasmo, era
preciso saber e, para saber, era preciso
estudar. E foi o que fez. Alistando-se no
exército, foi servir no 3.º Regimento de
Infantaria (3.º R.I.), sediado nesta Capital,
formando no 18.º Batalhão. Em pouco tempo,
pela sua dedicação e pelo seu esforço,
alcançava o posto de sargento. Iniciou então
seus estudos superiores matriculando-se em
1918, na Escola Superior de Agronomia de
Curitiba, onde fez brilhantemente o seu curso
de engenheiro agrônomo. Foi uma fase difícil
para o então jovem lutador. Ninguém desconhece
as dificuldades que se antepõem aos que
desejam aprender sem os recursos necessários
para o custeio de um curso superior. Se os que
não precisam pensar nas despesas vultosas com
que os estudos nem sempre fazem com facilidade
a escalada do monte da sabedoria, imaginemos
os que precisam pensar nos estudos e nos meios
para custeá-los. Quantas vezes foi necessário
gratificar outros camaradas de caserna, que
não se preocupavam com os livros, para não
perder as aulas da faculdade e habilitar-se,
com mais segurança, ao pergaminho que novos
horizontes rasgariam em sua atribulada e
difícil existência.
Mantendo desde moço uma independência
religiosas, embora aceitando desde a infância
a idéia da existência de Deus, Lins de
Vasconcelos não se prendeu, nessa etapa da
vida, a um conceito religioso definido. Seu
espírito aguçado indagava constantemente a
razão das diferenças sociais e interrogava a
si mesmo o porquê das anomalias da vida, na
desproporção das posições e das conquistas.
Daí sua inclinação para o problema social, em
cuja solução sentia a transformação de toda a
organização do mundo e da vida, num ambiente
de justiça e de equilíbrio. Se houvesse vivido
na fase da campanha da abolição da
escravatura, teria, sem dúvida, formado ao
lado dos grandes vultos na luta pela liberdade
de nossos irmãos escravizados. Sua índole o
teria levado ao combate.
Só um caminho poderia conduzi-lo à compreensão
do porquê da vida, das desigualdades sociais,
do desequilíbrio na organização humana, que
provoca a desventura e a infelicidade dos
seres; todas as indagações do seu espírito
empreendedor seriam respondidas mais tarde,
quando, pelas mãos carinhosas de Antônio
Duarte Veloso – dedicado servidos da Causa
Espírita -, conheceu as belezas incomparáveis
da Doutrina Espírita, isto em 1912. Era a base
segura que lhe faltava para suportar o
gigantesco edifício de sua formação
humanitária e altruística, ansiosa de ver a
felicidade de todos os seus irmãos em
Humanidade.
Em 1915, como secretário geral da Federação
Espírita do Paraná, ele participava, com a
alma em regozijo, da inauguração do Albergue
Noturno daquela entidade, inauguração que
contou com a presença do então Governador do
Estado, Sr. Carlos Cavalcanti de Albuquerque.
Em 1916, trabalhou ativamente no II Congresso
Espírita Paranaense.
Criada a "Revista do Espiritualismo", órgão da
Sociedade Publicadora Kardecista, do Paraná,
Lins se tornou um dos seus diretores.
Em seu último estágio em Curitiba, Lins de
Vasconcelos fora elevado à posição de
escrevente juramentado em certo tabelionato
desta cidade. Exercia com probidade e
competência suas funções, quando,
inesperadamente, em 1925, se viu demitido. E
que ele, na qualidade de Presidente da
Federação Espírita do Paraná, protestara
contra o ato inconstitucional do Governo do
Estado, que doara terras para a instalação de
dois bispados. O protesto de Lins de
Vasconcelos foi secundado pelos do Professor
Dario Veloso, ilustre homem de letras e
presidente do Instituto neopitagórico de
Curitiba, bem como por outros
livres-pensadores.
Lins de Vasconcelos sofre perseguição e muitos
aborrecimentos, inclusive condenação judicial,
mais tarde, revogada pelo Tribunal. Embora
desequilibrado em suas finanças, não caiu em
desânimo. Possuído de alto tino comercial,
lança-se ao comércio madeireiro. Começa a
prosperar e a enriquecer.
Em 1930, resolve mudar-se para o Rio de
Janeiro, e é nessa ocasião eleito presidente
honorário da Federação Espírita do Paraná,
pelos assinalados serviços a ela prestados.
Os bens materiais multiplicam-se rapidamente
em suas mãos. Passa a ser um homem rico,
milionário. E foi, precisamente nesse período
de sua vida, que ele mostrou a firmeza de suas
atitudes espíritas e o desprezo à fortuna
amoedada.
Consolidada a sua posição social e financeira
com a fundação da Companhia Pinheiro Indústria
e Comércio, da qual era diretor presidente,
não tendo dali por diante maiores preocupações
de ordem econômica, mercê de uma independência
que conquistara com sua visão de industrial
operoso, dedicou-se inteiramente ao
Espiritismo, a este dando tudo que lhe foi
possível dar.
Sua cooperação humanitária, junto aos
companheiros espíritas de vários Estados, foi
multiforme: nos movimentos educativos da
criança, no socorro às instituições de amparo
à velhice e à infância abandonada, no empenho
para a criação de Lares Infantis, Sanatórios,
Hospitais, Ginásios, Creches, Institutos de
Ensino, etc., tudo em benefício do indivíduo e
da coletividade, num trabalho contínuo que
durou até aos seus últimos dias de vida
terrena. "A maior glória de Lins" – escreveu
um seu biógrafo – "é não ter sido ele
corrompido pelo fascínio do ouro."
Cremos tenha sido a Federação Espírita do
Paraná a primeira entidade a receber sua
colaboração doutrinária e econômica. Quando na
sua residência, traçou um longo programa de
realizações em todos os setores de atividade
daquela Instituição estadual, nela incluindo
então, o programa de ensino do Espiritismo às
crianças, antevendo a necessidade de
prepará-las para que investidas, no futuro,
nas organizações espíritas, pudessem produzir
mais e melhor. Foi nessa ocasião que teve
início a sua ação nas lides doutrinárias e,
daí em diante, seu campo de trabalho se foi
alargando, até alcançar uma projeção que
ultrapassou as fronteiras de nossa terra.
Por volta de 1938, em passeio a Curitiba e
presente à reunião do Conselho da Federação
Espírita do Paraná, Lins de Vasconcelos
propôs-se entrar com apreciável soma de
recursos para o reinicio das obras do atual
Sanatório "Bom Retiro", tendo mantido sua
colaboração econômica até a inauguração do
mesmo.
Participou ativamente da Coligação Nacional
pró Estado Leigo, da qual foi presidente,
dedicando-lhe todos os esforços para que a
luta pela laicidade do Estado fosse uma
batalha constante até a conquista da
independência da nação na questão do campo
religioso. Não encontrou, porém, no seio da
Coligação um pensamento firmado somente no
ideal que norteava as suas finalidades. E
tempos depois se afastava cristãmente do seio
daquela Sociedade que, mais tarde, sem o seu
valioso concurso, vinha a desaparecer.
Em 1948, quando a "Gráfica Mundo Espírita"
enfrentava uma crise seríssima, sua cooperação
espontânea e sincera veio evitar o
desaparecimento dela, e, assumindo a direção,
enfrentou todas as dificuldades decorrentes de
sua atitude salvadora. Imprimiu nova
orientação doutrinária a "Mundo Espírita",
periódico fundado em 1932, evitando que suas
colunas servissem de veículo de idéias
destruidoras e separativistas. Respeitando a
opinião do próximo, sabia da inutilidade de
combates pessoais, quando eram esquecidas a
ética e as normas de serenidade e respeito.
Apesar dos grandes prejuízos causados pela
publicação do jornal e de livros doutrinários,
ele sustentou a luta e teve à frente de "Mundo
Espírita" até os últimos momentos. Esse jornal
passou, depois, a ser o órgão noticioso e
doutrinário da Federação Espírita do Paraná.
Ainda em 1948 empenhou-se na realização do I
Congresso das Mocidades Espíritas do Brasil,
apoiando a idéia do Deputado Campos Vergal,
transformada em realidade pela atuação de
Leopoldo Machado. Foi uma das suas principais
figuras, senão a maior, contribuindo, ainda,
decisivamente, na parte financeira para a
realização daquele certame. Foi, por
unanimidade, proclamado por seu presidente de
honra e, na sessão de instalação do Teatro
João Caetano na manhã do dia 18 de julho de
1948, proferiu vibrante discurso, fazendo a
entrega simbólica do Congresso aos moços
espíritas.
Em fevereiro de 1949, fundou Lins de
Vasconcelos a Ação Social Espírita – sonho
maior de sua vida -, instituição que se
destinava ao trabalho social do Espiritismo m
todos os seus aspectos e sob todas as formas.
As finalidades da Ação Social Espírita estão
condensadas nos 25 itens inseridos na edição
de 12 de março de 1949, de "Mundo Espírita",
abrangendo, desde o auxílio às sociedades
espíritas até o estímulo às artes e à ciência.
Graças ao seu espírito de colaboração e a boa
vontade, realizou-se a Primeira Festa Nacional
do Livro Espírita, de 14 à 18 de abril de
1949. Foi um empreendimento que exigiu sua
decisiva ajuda financeira e sem a qual não
seria possível efetuá-lo. Custeou todas as
despesas para que se comemorasse no Brasil
inteiro o aparecimento d´"O Livro dos
Espíritos".
Quando dos preparativos para a realização do
II Congresso Espírita Pan-americano, que se
reuniu no Rio de Janeiro, no período de 03 a
12 de outubro de 1949, foi Lins de Vasconcelos
chamado para participar da Comissão
organizadora, sendo-lhe entregue o cargo de
Tesoureiro da Comissão, devendo-se ressaltar
que sua ação coordenadora e sensata deve-se o
êxito alcançado por aquele certame. Empenhado
na tarefa de conseguir a aproximação dos
espíritas americanos, deu todo o apoio para
que se reunissem no Rio de Janeiro os
representantes das Nações americanas.
Sabemos que os grandes planos visando à
expansão e à difusão do Espiritismo são
traçados na Espiritualidade, representando os
homens instrumentos do Auto da Concretização
das idéias e dos projetos elaborados na Vida
Mais Alta. Mas nem sempre os homens se
predispõem ao serviço do Alto e nem sempre
aceitam as tarefas que lhes são cometidas. A
unificação da família espírita brasileira
viria, mais cedo ou mais tarde, se essa era a
vontade superior. Mas talvez não viesse tão
depressa, não fosse a ação e a atividade
conciliatória e aproximativa de Lins de
Vasconcelos. Ninguém, como ele, almejava
reunir os seus irmãos em ideal para um
trabalho em comum. Esse foi sempre o seu
grande sonho. Vivia para concretizar esse
desejo e os mentores espirituais fizeram-no o
instrumento sensato e prudente para que essa
aproximação se desse. Quando da realização do
II Congresso Espírita Pan-americano, estimando
o esforço de muitos para o entrelaçamento de
irmãos de outras pátrias, sentiu que era
chegado o instante de unir os irmãos do
"Coração do Mundo e Pátria do Evangelho".
Sentiu, por certo, que o Alto trabalhava nesse
sentido e que se tornava preciso entrar em
harmonia com seus irmãos do Plano Invisível
para que o sonho se convertesse em gloriosa
realidade. E no dia 05 de outubro de 1949,
foi, talvez, o dia mais feliz de sua vida. Foi
o dia do "Pacto Áureo", o dia áureo da
confraternização. Se nada mais houvesse feito
em prol da Causa – e foram tantos os
benefícios que prestou ao Espiritismo -, sua
ação para união da família espírita brasileira
em torno da Casa de Ismael, lhe teria valido
como uma certeza de que não fora vazia e
inexpressiva sua vida no mundo.
Como decorrência desse "Pacto Áureo", foi, em
seguida, organizada no Rio a chamada "Caravana
da Fraternidade", composta de vários espíritas
ilustres, entre eles o Dr. Lins de
Vasconcelos, caravana que percorreu todo o
norte e nordeste do País, numa entusiástica
campanha em prol da unificação, segundo as
normas ditadas na grande Conferência Espírita
realizada no Rio de Janeiro.
Era ainda o Dr. Lins, no campo das atividades
doutrinárias, representante da Federação
Espírita do Paraná, no Conselho Federativo
Nacional, membro efetivo da Assembléia
Deliberativa da Federação Espírita Brasileira,
vice-presidente da Liga Espírita do Estado da
Guanabara, 1.º secretário da Sociedade de
Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro e seu
presidente de honra, além de muitos outros
encargos que lhe consumiam todos os instantes
de sua longa e proveitosa existência.
Sua atividade no campo da assistência social
da Doutrina granjeou-lhe simpatias e amizades
em todos os recantos do País. Não há Estado
que não lhe tenha sentido a influência
benemérita e dele não tenha recebido recursos
de bolsa sempre aberta para todas as boas
iniciativas. Todos aproveitaram o seu auxílio
e não houve quem a ele recorresse e não
encontrasse de sua parte a colaboração
fraternal e sincera.
Seria muito difícil, senão impossível,
enumerar os múltiplos benefícios que prestou
às sociedades, às casas de caridade e mesmo a
confrades que constantemente a ele recorriam
na certeza de encontrar apoio e solicitude.
Quando se imaginava um Congresso, uma festa,
uma confraternização, enfim, um movimento que
não pudesse dispensar a parte financeira, não
faltava contribuição pecuniária e intelectual
de Lins de Vasconcelos. E até mesmo sem que a
pedissem, ele a ia levar expontânea e
cristãmente. Não se pode dispensar a
colaboração da mulher nas grandes Causas.
Todos os grandes homens tiveram em suas vidas
a influência da mulher. Lins de Vasconcelos
não foi uma exceção à regra. Nada realizava
sem que ouvisse a sua bondosa e querida
esposa. Fazia questão que em tudo aparecesse
aquela que partilhava de sua vida e conhecia
todas as suas aspirações e desejos. E a esposa
dedicada que foi Dona Hercília César de
Vasconcelos Lopes retribuía-lhe essa justa
consideração com o seu carinho e a sua
afeição. Compreendia ele o papel da mulher na
reforma do mundo e, sempre que se lhe oferecia
oportunidade, concitava os homens ao amparo e
proteção à mulher e à criança. E a companheira
de longos anos de luta e realizações soube
enfrentar o momento da partida do ente amado,
demonstrando, na serenidade e resignação, que
estava bem à altura do querido ausente.
Embora sabendo da precariedade do seu estado
de saúde, Lins diminuiu, mas não parou o
trabalho, porque dizia que, se sua partida
estava próxima, era preciso aproveitar bem o
tempo que ainda lhe restava na Terra.
Toda a família espírita sentiu o seu
desaparecimento da vida física, em 21 de março
de 1952, ficando a Seara do Senhor, no campo
terreno, desfalcada de um de seus mais
denodados e dedicados servidores.
Respeitáveis nomes do Espiritismo no Brasil
teceram longos e justos elogios à obra do
benfeitor e do homem de ação, ouvindo-se,
ainda, a palavra do grande médium brasileiro,
Francisco Cândido Xavier, nessa afirmativa:
"Era ele uma coluna firme da Doutrina em nosso
País e um companheiro abnegado de nosso
movimento de unificação."
Mais tarde, a Federação Espírita do Paraná,
que tantos benefícios recebeu de Lins de
Vasconcelos, inclusive através de testamento,
prestou-lhe significativa homenagem dando-lhe
o inesquecível nome ao educandário por ela
criado – "Instituto Lins de Vasconcelos".