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 NOITE DAS CRIANÇAS
ENCARREGADOS:
Alfredo Nunes da Costa  e Antonio de Oliveira Lira      

Hino das Crianças
Letra de Alfredo Nunes da Costa


Oh! Maria Madalena
Aceitai de coração
Esta prece oferecida
Com amor e devoção

(Coro)
Oh ! querida Padroeira
Aceitai esta homenagem
Que as crianças do Teixeira
Alegremente vos fazem !
Oh ! Maria Madalena
Protegei-nos neste dia
Enchei-nos de graça plena
Com amor e alegria !

Chegou a noite tão ansiosamente esperada.
O hino a ser entoada pelas crianças foi, rigorosamente, ensinado e ensaiado por Neném Lira, devotada colaboradora desta Noite.
Os encarregados da noite das crianças arrecadavam donativos, cotizavam-se entre amigos, organizavam a passeata da frente da sapatinha da igreja, descendo pela a rua principal, indo até a rua de Baixo, retornando pelo mesmo percurso, dispersando-se no lugar de partida com vivas e palmas à Santa Maria Madalena.
O cortejo era formado por duas filas, indiana e paralelas, de crianças de ambos os sexos, vestidas de geralmente de branco, as meninas osteavam faixas na cintura arrematadas por enormes laços que se repetiam nos cabelos parecendo assim um alvo bando de pombas da paz, que inocente e inconscientemente rogasse a Deus, não como palavras , mas com sorrisos fartos, puros e sinceros, pela a prosperidade, pela a harmonia e pela a paz dos Teixeirenses velhos, moços e sobretudo - crianças-, esperança de um glorioso porvir.
No centro, entre as duas filas, postavam-se três crianças, uma conduzindo o estandarte- símbolo da pureza infantil-, geralmente a criança escolhida para tal mister era Carminha de Zé Carneiro, pois, dentre todas as crianças, era a mais alta e a mais esbelta, por isso, merecia ser destaque. As outras duas, sempre Maria de Eliza e Maria de Mercês ou Dora Batista, seguravam uma fita pendente de cada lado do estandarte.
Ao fundo da fila ia a Filarmônica Santa Maria Madalena, tocando musicas alusivas ao evento a acompanhando as crianças que entoavam o seu glorioso hino.
Encerrado o cortejo, seguia o povo, principalmente os pais e mães orgulhosos da participação dos seus rebentos, que davam tanto brilho a belíssima a passeata das crianças, muitas das quais iam vestidas de anjo.
A noite, na igreja, por ocasião da novena, os primeiros bancos eram reservados as crianças, numa ultima homenagem a noite a elas dedicadas que, agradecidas, prestavam também sua homenagem a Santa Maria Madalena, padroeira e protetora.
Terminada a função religiosa, o bando de crianças -alvas pombas arrulhantes e ruidosas- invadia a quermesse para brindar ao encerramento daquela noite, sorvendo, avidamente, copos e copos de gasosa, sabor a limão, maçã e pêra.
Mais tarde, em suas casas, seus corpinhos, extenuados de um dia estafante, mas, importante e feliz, entregavam-se a um sono tranqüilo - povoado de belos sonhos. Não menos extenuados, os seus organizadores também buscavam no sono a recompensa merecida pelo dever cumprido e já sonhavam com a próxima noite das crianças, que haveria de vir, tão ou mais brilhante do que fora esta.
Vale ressaltar que cada noitario se esmerava na decoração do altar(nesse tempo o termo decoração era desconhecido ; diziam se enfeitar o altar).
Na noite das crianças, este trabalho ficava a cargo de Dona Adélia Lacet, que, com a habilidade e criatividade, transformava o altar-mor(no meio do qual estava o nicho de Santa Maria Madalena), num pedacinho do céu, usando as cores azul e branco, nos cetins, nos arrendados, com que cobria o altar totalmente; vinha a grande cortina que descia do teto ao chão, feita de pequenos cordões quase invisíveis(não existia ainda o fio de nylon).
Arrematando o trabalho, para maior realce, eram aplicadas, sobre a cortina, estrelas e meias-luas douradas, recortadas em um delicadíssimo papel, chamado de papel de lata(só encontrado na Venda de Bassão - Sebastião Guedes).
A iluminação do Altar-mor e dos demais altares era feita a base de velas em profusão e estrategicamente colocadas distantes dos enfeitas, para evitar incêndios.
Tudo era cuidadosamente pensado e esquematizado. O Corpo da igreja era iluminado por lâmpadas- tipo farol- a querosene, estas eram presas ao teto por compridos e grossos arames. Ao sacristão cabia a tarefa de acendê-las e apagá-las, antes e depois de cada novena e para isto ele usava uma enorme escada de madeira, tipo tesoura, para melhor segurança do seu trabalho.
Nossos recursos eram parcos, rudimentares, mas a imaginação e criatividade de alguns, a cooperação de muitos e a solidariedade de todos, contribuíam para o êxito de qualquer evento, principalmente para o brilhantismo da Festa de Santa Maria Madalena, padroeira querida amada.
Numa noite das Crianças, os seus organizadores - Alfredo Nunes da Costa(meu pai) e Antonio de Oliveira Lira reuniram um grupo de meninas, entre elas Maria de Eliza e eu, e nos incumbiram de sairmos pelas casas comerciais da cidade, angariando donativos para nossa noite; eu nunca gostei de pedir nada a ninguém, nem mesmo a Deus eu gosto de incomodar com pedidos; quero a sua proteção, imploro o seu amor, mas pedir não.
Ele me de aquilo que eu mereça. Gosto, sim, de agradecer as graças que recebo, como a vida, a saúde, a família, são tantos os motivos para agradecer-lhe.
Apesar de não gostar de pedir, na época deste fato que ora narro, eu era criança e devia obediência ao meu pai, portanto teria que fazer o que ele mandasse; assim sendo, lá fui eu, com uma bolsinha branca de pelica- presente de mamãe- e, chegando nas casas comerciais que nos foram indicadas, eu abria a bolsinha e apresentava-a ao possível doador e esperava que o donativo caísse dentro dela.
Neste tempo o respeito à criança era exercido, por isso ninguém nos negava um pedido, mesmo que fosse feito apenas um gesto.
A tarde, antes da passeata, a bolsinha estava cheia de moedas e nos, da comissão, cheias de fome.
Estávamos em frente a Venda de Cícero Lacet, esperando os organizadores para prestarmos conta da nossa incumbência.
Nisto, passa Tonho de Cula, com seu tabuleiro de alfinins, feito por sua mãe.
Que doçura!
A nossa fome aumentava; então, chamando Tonho de Cula, distribui alfinins com todas as integrantes da comissão, tão famintas quanto eu.
Aplacamos nossa fome e aqueles que contribuíram com seus donativos...pagaram a conta.
Papai soube do ocorrido e entendeu tão bem a minha ingenuidade que não me castigou; pelo contrario, rindo muito, me deu a maior lição de honestidade que ja recebi.
Restituiu o dinheiro a bolsinha dos donativos e arcou com as despesas feitas pelas suas famintas colaboradores.
A maior bem moral que meu pai possuiu, na terra, foi a honestidade; dela hoje podemos dizer, infelizmente:
-Procuro e não te encontro !...

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