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A nossa amiga Julita Nunes, sempre vem contribuindo com o site da cidade de Teixeira, e agora temos o prazer de mostrar para você visitante o relato de uma comunidade.
Sempre, nunca mais é a voz de Julita, plena de autenticidade e jubilosa de quem ama a sua terra natal. A vida social em seus múltiplos aspectos. Figuras com Sabuga ou sacristão Zé Rodas, ascendem ao nível de figuras literárias. Festividades como Natal ou congadas tornam-se inesquecíveis para o leitor.
Isto é um pouco do que é sempre, nunca mais,  a mais poderosa das obras de Maria Julita Nunes, a dama da cultura da cidade de Teixeira, uma das cidades interioranas mais antigas da Paraíba e de tradições.
Toda a obra e outros arquivos escritos por Maria Julita Nunes, foram cedidos gentilmente todos os direitos autorais ao site da nossa cidade.



MÊS DE DEZEMBRO

"FESTA DA PADROEIRA SANTA MARIA MADALENA"

Viva a conversão
Da mor pecadora
que já foi Cativa
Hoje é senhora (bis)

tarará tam,  tarará tam, tarará...

Santa Madalena
De Jesus amada
De nos pecadores
Sede advogada  (bis)

tarará tam, tarará tam, tarará...

(Não ha estatística que comprove ou demostre o numero de quantos Teixeirenses contaram este hino, ao longo de muitas décadas.)

Hino tradicional cantado todo ano, em dezembro, por ocasião do novenario festivo, seguido de festas profanas, para homenagear a querida padroeira, amada e venerada por todo Teixeirense.
Frei Hugo Fragoso, um pesquisador e um estudioso da história do Teixeira, poderá dizer por que foi escolhida Santa Maria Madalena, para sua padroeira.
Eu nada posso dizer, pois desconheço a origem da escolha. Escrevo as reminiscências da minha terra, guiada pela a memória, revestida do amor pela terra amada e na esperança de resgatar uma época esquecida e torná-la conhecida desta e das gerações futuras para que fique perpetuada a história do Teixeira.
Ao termino de cada novena, todo povo- uníssono, contrito, fervoroso e agradecido - entoava o hino á sua padroeira.
Ainda ecoam aos meus ouvidos os acordes da melodia, com introduções, estribilhos e final, executada pela Filarmônica Santa Maria Madalena - alcunhada de Siá Zefinha  - magistralmente regida por Tio Zé Grande, um gênio da musica, cujo valor foi relegado ao "nada".
Quantas composições musicais, ele legou ao Teixeira; dobrados, hinos e ladainhas, que encantaram aqueles que as ouviram e hoje jazem como ele, no esquecimento, sem glorias e sem reconhecimento.
Tio Zé Grande, além, de musico, maestro e compositor, foi um grande matemático. Ensinou-me todo o livro de aritmética, com a sapiência de um grande mestre.

NOVENARIO DA PADROEIRA
DEZEMBRO / 16
HASTEAMENTO DA BANDEIRA DA FESTA

Num mastro alto, fincado no chão ao  lado da Caixa das Almas, que ficava a esquerda da sapatinha da igreja, lá se erguia a Bandeira.
Este ato solene(sempre realizado à tarde) indicava o inicio da Festa da Padroeira, compreendida de dezesseis a vinte e vinco de dezembro, de cada ano;  período vivido num clima de total alegria pela comunidade, cheia de expectativa pelo êxito final da festa e da noite de cada classe em particular.
A competição entre os noitarios era acirrada, causando muita polemica, pois cada um se esforçava para dar mais brilhantismo à sua noite.
No dia da abertura do novenario era distribuído o Programa a ser seguido:

DEZ/ 16 - ABERTURA
17 - NOITE DAS CRIANÇAS
18 - NOITE DAS MOÇAS
19 - NOITE DOS RAPAZES
20 - NOITE DOS CASADOS
21 - NOITE DOS MOTORISTAS
22 - NOITE DOS VICENTINOS
23 - NOITE DOS AGRICULTORES
24 - NOITE DE FESTA (NATAL)
25 -DIA DE FESTA (Leilão, procissão, enceramento).

Abertura solenemente a Festa da Padroeira, íamos viver toda sua plenitude num curto período de nove dias. Nestes dias pela manha(cinco horas) acontecia a Alvorada; para recordá-la, haja coração!...
Consistia esta numa marcha da Filarmônica Santa Maria Madalena - a Siá Zefinha - pelas principais ruas da cidade, num perfilhamento militar, sob o comando do maestro Tio Zé Grande, executando dobrados, quase sempre de sua autoria, que não envergonhariam Mozart , Betthoven - antes da surde - ou o nosso saudoso Carlos Gomes.
Escudando a Filarmônica (Siá Zefinha) seguiam os fogueteiros, espocando seus foguetões, dando ao espetáculo um raro brilho cuja beleza e harmonia eram apreciadas pelas pessoas que, se não acompanhavam o cortejo, apreciavam-no de suas calçadas ou de suas janelas; era o desfile da Banda em Alvorada.
Quem nunca acompanhou uma banda de musica, rua afora, não sabe o que perdeu. Nossos passos são marcados pela cadencia e pela batuta do Maestro, como as notas musicais tiradas dos instrumentos sob sua regência.
Um habito que se contrai na infância e fica-nos tão arraigado que, ainda hoje, quando vejo uma "Banda" passar, não resisto, acompanho-a e me reporto aos tempos de criança.
Nos primórdios da década de trinta, ainda não havia luz elétrica em Teixeira, a inauguração deste beneficio deu-se em dez de novembro de mil novecentos e trinta e oito(10/11/38), na gestão do Prefeito José Ramalho Xavier.
Também não tínhamos calçamentos. Só anos mais tarde (1937 provavelmente), a rua principal ganhou seu revestimento feito com paralelepípedos(como gostávamos de pronunciar sem vacilação e sem gaguejo: pa-ra-le-le-pi-pe-dos). A qualidade do revestimento era de primeira qualidade, tão boa que resistiu à ação do tempo e, ainda hoje, continua lá, dando a rua principal  destaque de pioneira em calçamento.
Portanto, antes destes marcos do progresso, nossas ruas engalanavam-se de maneira simples e rudimentar, quando se transformavam em palco - no mês de dezembro - , para festejar sua querida padroeira, Santa Maria Madalena.
Terminada a Alvorada, a população começava a azafama dos preparativos para cumprir o programa daquele dia. Biluca, Cula, tia Raimunda, Maria de Neguinho( minha querida madrinha) doceiras e donas de cafés, se empenhavam no preparo esmerado dos doces e outros quitutes que iriam ser vendidos à noite nos cafés e nos botequins.  A velha Maria da Luz, se comprometia com a comunidade de prove-la de doces secos, inigualáveis e inesquecíveis, sobretudo na noite de Natal (nessa época Noite de Festa, mais simples e mais singelo).
Mamãe- Enerstina Nunes- modista, costurava, incessamentemente, para atender as suas freguesas. Todas queriam ter vestidos novos para exibir durante a festa da padroeira. Os modelos eram de fácil execução mas requeriam habilidade e arte, atributos necessários a uma boa modista e que não lhe faltavam.

As encomendas tinham nomes engraçados:
- Saia de babadao
- Vestido com saiote
- Saia godê ou de nesgas
- Saia do "relaxo" (hoje conhecida como saia evasê)

Tia Neném de Mano exigia sempre um fofinho para esconder-lhe a magreza.
Usando uma velha revista "Vida Domestica", presente de suas irmãs da cidade grande e aplicando os aviamentos, parcos e sem sortimento, da venda de Bassão, mamães conseguia, com sua arte inata, satisfazer  as suas freguesas, tão pródigas em exigências e tão parcas nos pagamentos. Mamãe procurava cumprir seus compromissos com pontualidade, qualidade rara numa costureira. As donas de casa que não tinham compromissos com a igreja, esmeravam-se na arrumação de suas casas.
Os baús, as malas, eram remexidos e de lá retirados lençóis, fronhas e toalhas de mesa - bordados em matiz ou richelieu, por Jacinta Bananeira ou Dasdore Ventura; engomados por Dó, Rita ou Pequena de João Vizinho -; nesses baús ou malas, eles descansavam o ano inteiro, saindo dai para serem exibidos por ocasião - fruta da época - sequilhos e bolinhos de goma, raminhos, todos acondicionados em latas vistosas ou em vidros apropriados para tal.
Faziam-se licores de leite, de café, de maracujá e usavam-se, também, essências de baunilha e de maça, no seu preparo.
Todos esses preparativos tinha dupla finalidade: agradar, no bem-receber, as visitas que por ventura surgissem e mudar o cotidiano dando-lhes ares festivos. Afinal, todas essas mudanças de hábitos só aconteciam quando dezembro viesse.
Durante o novenario, seguido das festas profanas, às tardes, as ruas eram aguadas, para apagar a poeira; ainda existia água  em abundancia em Teixeira; a Cacimba da Baixa(Cacimbão)garantia o consumo, sem racionamento e sem carros-pipas.
As ruas eram engalanadas com cordões donde pendiam bandeirolas coloridas, feitas em papel de seda coladas com "grude" - mistura de água com goma de mandioca, cozidos. Os recursos da Terra eram parcos mas a criatividade e o talento do seu povo, abundantes.
O Coreto, armado em frente a casa paroquial, acomodava os músicos regidos por Tio Zé Grande, responsáveis pelas retretas realizadas todas as noites, durante a festa e apos a novena. No centro da rua principal, local da festa profana, erguia-se a "quermesse", estruturada com linhas e caibros de madeira, na sua sustentação por grades também de madeira. Acompanhava toda sua extensão um tablado que lhe servia de piso. Suspensas, pequenas bandeirolas coloridas formavam-lhe o teto.
Em cima do tablado da quermesse, mesinhas esparsas a espera daqueles que pra la se dirigiam, para beber alguma coisa e, ao tempo em que se divertiam, contribuíam para o brilhantismo da Festa, pois quanto mais concorrida era a quermesse, maior a alegria do Pároco que acompanhava o desenrolar dos acontecimentos, debruçado a janela , estrategicamente incrustada na casa mais central da cidade, denominada Casa  Paroquial, com funções de Quartel General dos Festejos, no mês de dezembro.
A quermesse bem como o Coreto, eram iluminados por lampiões a carbureto, expelindo uma chama azulada e clara, dando ao ambiente uma luminosidade celestial. Os homens bebiam cerveja clara ou Malzebier ao natural - não existia ainda o processo de refrigeração; as mulheres e as crianças que os acompanhavam ate a quermesse, deliciavam-se com gasosa nos sabores limão, maça e pêra. Havia todas as noites, na quermesse, leiloes, cujas prendas a leiloar, variavam entre galinhas assadas e bem ornamentadas, bolos também enfeitados, frutas bem apresentáveis, cestas com ovos e ate artigos de toalete.
Lembro-me que, numa noite de Festa- o termo Noite de Natal surgiu mais tarde-  Tenente Osório, o delegado da Policia local, um guapo rapaz, arrematou no leilão, um enorme talco, cujo nome era Talco Flores de Laranjeiras, e presenteou-me. Na época, eu contava uns oito anos. Guardo até hoje, na lembrança o gesto e o perfume.
Ao lado direito da quermesse, perfilhavam-se os botequins- pequenos quiosques- cobertos de palha verde de coqueiro, também iluminados a carbureto, fartamente enfeitados, exibindo uma variedade enorme de doces, confeitos ,mariolas ,quebra-queixo, frutas - não faltando o doce de ananás- um deslumbrantamento aos nossos olhos de crianças alvorotadas. Aonde se encontravam, nestes botequins, os roletes de cana caiana, enfiados em grossos palitos entalhados num pedaço de taboca(semelhante a um pequeno cano). Mas o que caracterizava mesmo a noite de Festa, eram as cestinhas confeccionadas em papelão recobertas com franjas coloridas de papel de seda, recheadas com cocadas de Cula, sequilhos e broas de Biluca, castanhas de caju, assadas por Maria de Nequinho, sem faltar o famoso doce-seco de Maria da Luz. Muitos anos mais tarde-  talvez uns quarenta anos - presenteei, numa noite de Natal, a amiga Fabiola Lira, com uma certa quantidade dessas cestinhas vazias, para que lhe as enchesse ao seu bel-prazer. Simbolicamente, as cestinhas continham todas as guloseimas que fizeram nossa alegria no passado.
Recebi um cartao de agradecimento, onde Fabiola dizia: "expostas as cestinhas a mesa do Natal e explicando o seu significado aos convivas, os mais novos aplaudiram e os mais velhos choraram... de emoção e saudade".
Arrematando o conjunto estrutural e obrigatório da Festa da Padroeira, lá  estava, embaixo do pe de ficul Benjamin - entre a sapatinha da igreja  e a venda de Bassão - , a barraca de Augusto sem Pescoço, onde nos deliciávamos com a gelada refrescante e saborosa, que somente ele sabia preparar.
A tarde da Noite de Festa, as bandeirolas, agitadas por suave brisa, pareciam anunciar o nascimento do Menino Jesus, cujo aniversario seria comemorado logo mais  a noite. Nessa época, ainda sabíamos o que significava uma noite de Natal(ou de Festas, como chamávamos), o aniversario de nascimento de Jesus.
Mas um mangote de crianças, antecipadamente abençoadas, naquela tarde de Festa, cujo sentido real, para elas, consistia nas roupas novas, nos sapatos  novos, nas moedas, ganhas de padrinhos e parentes próximos, cujos valores eram gastos nos botequins, sobretudo na aquisição das tradicionais cestinhas.
Exibi-las, era a apoteose dos acontecimentos festivos de dezembro, esperados o ano inteiro. A hora do Angelus, o repicar dos sinos tinha uma musicalidade diferente, soava aos nossos ouvidos como a nos dizer: Alegrai-vos, crianças do Teixeira! Derramai toda vossa pureza por onde passardes, hoje e sempre, que lá no Céu o Deus-Menino, também, derramara sobre todas vos suas bênçãos, hoje e sempre.
Fomos ontem, somos hoje e seremos sempre, abençoadas por Deus e bendita porque somos Teixeirenses.

PRÓXIMO CAPITULO: Noite das Crianças

 

 

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