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O PROFESSOR SEVERINO LOPES

Estanislau Fragoso Batista

 Como gostaria de ouvir alguém cantar a música de Ataulfo Alves, no Teixeira, adaptando-a assim: “Oh! Que saudades do professor Lopes”.

Até o nome dele era grande: SEVERINO LOPES LEITE DE ARAÚJO BENTO. Era grande na didática. Era grande na pedagogia. Numa única sala, ele ministrava aulas a cinco turmas do Primário e dava conta com brilhantismo.

Meus colegas de turma já foram levados pelo tempo. Eram “Zé meu Bucho”(nome carinhoso que os amigos e  colegas lhe davam) e Vicente Carneiro.

Todos aqueles que fizeram o Primário em Teixeira, e foram estudar fora, eram aprovados com louvor no Admissão. Como exemplo, cito minha família. Dom Fragoso, Domingos e Frei Hugo tiraram os melhores lugares nas suas turmas. Eu consegui o primeiro lugar nos primeiros anos do Ginásio do Seminário Salesiano no Recife.

            Lembro-me de uma solenidade que houve na escola no ano de 1934. O Professor escalou meu irmão (hoje Dom Fragoso), para recitar uma poesia de Castro Alves, intitulada O LIVRO E A AMÉRICA. Meu pai mandou fazer para Tonho (é assim que nós, os irmãos,  chamamos carinhosamente com Dom Fragoso) uma roupa nova de brim por Dona Antônia de Severino Porfírio.

Quando o Professor deu a palavra a Tonho, ele foi à tribuna, que era uma mesa. O Professor Lopes pegou Tonho pelos braços, colocou-o sobre a mesa. O silêncio se fez na sala para escutar o “matutinho” do Riacho Verde que ia falar. Tonho abriu os braços num gesto amplo, e  começou, empolgado e empolgando a assistência desde o começo:

 Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
 “Vai, Colombo, abre a cortina
 “Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".


Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

 

Várias vezes ele foi interrompido pelas palmas da assistência. E Tonho terminou assim:

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

 

Quando terminou, foi uma verdadeira ovação. O Professor e o meu pai olhavam orgulhosos para os outros. Eu ficara ao fundo da sala. Adinha estava perto de mim. Quando Tonho foi colocado sobre a mesa, Adinha disse; “Está com o paletó de Santo Isidro”. (Era – Santo Isidro – o padroeiro dos agricultores. Quem esculpiu a estátua foi o Cônego Bernardo. O padre Serrão a deu de presente a Tataíra. Talvez ela ainda “ande” por lá. Para o Teixeira ela significa muito).

Os meninos do “mato”, em vez de dizerem “por causa de”, diziam “pro mode” ou “mode”. Um dia o professor Lopes nos perguntou: “Vocês sabem o que é “mode?”. Ninguém sabia. Ele pontificou: “Se vocês pegarem um bocado de “cocô” e colocarem dentro da mão e espremerem, sairá um liquido entre os dedos. Sabem qual o nome daquele líquido? É “mode”. Nunca mais um aluno dele disse a palavra “mode”.

Havia à parede, de frente para os alunos, um Mapa Mundi. Nós sabíamos de cor os acidentes geográficos das Américas, porque, no mapa, as
Américas estavam no centro. Nós sabíamos de cor os afluentes da esquerda e da direita do Rio Amazonas. Sabíamos onde era sua nascente, quando ele, juntando-se com o Rio Negro, adquiria o seu verdadeiro  nome. Sabíamos que a Ilha Marajó era a maior ilha fluvial do mundo.

A última vez que o vi, em companhia do meu irmão Domingos, foi em Patos, na casa de Amadeu. Ele estava doente, não mais podia levantar-se de uma cadeira de rodas e não falava mais. Mas seus olhos falavam. E diziam a gratidão pelos seus antigos alunos virem vê-lo no ocaso dos seus dias, e dizer da gratidão por ele ter ensinado a ler a várias gerações de Teixeirenses. 

 

 

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