REZAS DE CANDANGO
Seu moço, vô lhe pedi
por Jesus Nosso Sinhô,
não me fale nunca mais
nessa desgraça de amô.
Nesse mundo só existe
misera e fome e dô,
e sufrimento dá vontade
de nós virá pecadô.
Cansado de passá fome
no sertão do Ceará,
vivê apanhando da seca
sem vê o inverno chegá.
Eu vim m‘imbora pro Rio,
procurando o que comê,
mais porém só encontrei
sufrimento pra sofrê
Trabaio ninguém me dava,
ô fraco p’ra trabaiá,
ismola todos negava,
me mandava trabaiá.
Numa calçada parei
oiando p’r’um restaurante
mandaro que eu fosse imbora
pidi ismola distante.
A fome me maltratava,
mal podia caminhá...
foi quando entrei numa igreja
e fui direto ao altá:
“Jesus, os padres disseram
(Eu comecei a rezá)
qui o Sinhô é muito bom
istá em todo lugá.”
“Minha mãe me insinô
qui o Sinhô é meu irmão,
qui tem muita riqueza...
Não deixe eu morre não!”
“Não deixe eu morrê de fome
não deixe não, por favô!
se eu morrê na sua frente
é pruque não ixiste amô”
Eu tava sozinho na igreja...
eu, e mais Nosso Sinhô...
Entonce me alevantei,
arrastei da faca com dô,
O Sacraro eu arrombei,
com crença e todo fervô,
as hóstia toda comi,
corpo do meti Sinhô.
Dipois me ajoelhei
sintindo um calô na alma,
a fome foi se acabando
fui recuperando a calma.
Foi quando chegô o pade:
“Ladrão” - foi logo gritando,
“cometeu um sacrilejo,
o inferno tá lhe isperando.”
E tava mesmo.
Fui preso.
Na cadeia,
apanhei muito.
Mas, porém,
aprendi treis coisa:
a tê raiva,
a robá
e a matá.
Dipois
fugi da cadeia.
Não nasci p’ra morrê parado
Nasci pra morrê brigando.
Hoje,
a puliça
anda atrais
d’eu pra me prendê,
ou p’ra me matá.
Pois venha!...
Seje lá como Deus quisé
Só seio qui não vô morrê sozinho...
alguém vai morrê mais eu.
Eu nasci p’ra morrê brigando.
Esse o destino marvado
do Pau de Arara
que deixa o Norte
p’ra huscá ilusão no Sul:
não tem trabaio
não pode pidi
não tem o que comê..
e finda robando
p’ra não morrê de fome,
e morrendo de bala
pruque aprendeu
a não morre parado.
Por isso
não quero
que o sinhô, seu moço,
fale nessa desgraça de amô.
O que e am62!...
E se abraçá com as muié?
Mas muié não se abraça
com os home pobre...
só se abraça com os home rico.
Pode sé que eu encontre o amô
quando a puliça
mandá eu pro céu...
O sinhô se riu, moço...
Pro céu, sim sinhô
Pruque tenho
a certeza
que Deus
não deixa
sofrê
no inferno
quem passô
a vida toda
sofrendo na terra.
Estanislau Fragoso Batista