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Falar em teatro significa falar de uma mesma coisa e de coisas totalmente distintas entre si. Denotação e conotação ganham pesos e medidas únicas e exclusivas no universo de quem as produz. Apesar da palavra teatro ter denotações e conotações quase que unânimes na sua gênese significativa, o fazer prático teatral já não participa dessa unanimidade. Para cada interveniente criativo que desenvolve seu fazer artístico, o valor dessa palavra atinge os mais variados significados práticos. É ai que reside o valor verdadeiro do teatro: na prática diária do fazer, espaço onde se pode encontrar a função específica de cada um desses inúmeros conceitos que sustentam o acreditar artístico (ou não) de cada criador.

Nesse espaço (o cotidiano labutar) todo o fazer teatral é criativo, não se trata de genialidade. O ato criativo não tem de ser  reduzido simplesmente a procura da genialidade, quer dizer: a genialidade não tem de ser o objetivo do fazer teatral, talvez uma consequência, nunca um objetivo, o que se objetiva é fazer o caminho da criação, o construir, o ato de criar. Tudo o que é genial é necessariamente criativo. O valorar os vários graus da criatividade (da mediocridade a genialidade) pertence antes ao receptor da criação, da sua capacidade de percepcionar o objeto criativo em causa. A atribuição de valor só adquire significado quando o acontecimento é percepcionado pelos valores intrínsicos em cada espectador.

Se buscarmos a criatividade genial do nosso trabalho, contando com os valores adquiridos de cada um dos nossos espectadores incautos, provavelmente passaremos o resto das nossas vidas nos equivocando no espaço e no tempo, e certamente sem nunca encontrarmos essa tal genialidade. Na verdade, na prática diária do teatro não se procura ser genial, não se pretende fazer o novo, ser de vanguarda, não se pensa na obra de arte e nem tão pouco no que a exposição dessa obra pode suscitar no público presente, são consequências do labutar diário. O que se busca no teatro é o encontro, o confronto com nossos iguais, não para nos entretermos, num primeiro momento para tocar nossas feridas abertas (que são tantas), para mais tarde, se a vida assim nos permitir, encontrarmo-nos, agora num espaço já não-ficcional, não teatral, agora na vida diária, realidade concreta, e ai talvez possamos entretermo-nos com algo que nos aproxime das nossas dores e dos nossos desejos secretos.

Quando penso no teatro, penso em 03 palavras: verdade, necessidade e mergulho. Esses 03 objetivos me permitem construir a complexidade que a minha arte necessita. São palavras que impulsionam todas as vertentes das minhas vontades. A utilização cotidiana dos conceitos dessas palavras, nos remete inevitavelmente com justiça ao encontro da verdadeira função do nosso fazer teatral. Justiça nesse caso significa honestidade. A honestidade necessária para mirarmos o nosso próximo na profundeza do seu olhar. Se a criação é construída tendo como alicerce essa trindade filosófica - existencial, já não se pode fugir da inevitabilidade do confronto necessário,  independentemente do fato desse confronto ser tempestuoso ou pacífico. Não importa o gênero do confronto, basta-me o confronto (elemento que desencadeia outros processos e que levará esse despropositado encontro a caminhos inicialmente não planificados).

A possibilidade do encontro para logo a seguir o confronto. Não qualquer encontro, mas um que cause confronto ( a generalidade dos encontros não levam necessariamente a confrontos). Confrontar seres significa aprendizagem, conhecimento e finalmente reconhecimento. Confrontar para seguir adiante, provocar novos encontros e finalmente (re) conhecer o confronto. (Re) conhecer o confronto significa afirmar-se, transmutar-se, moldar  ou  ser moldado pelo mundo que nos circunda.

Os acontecimentos que norteiam os momentos diários da nossa parca existência, convergem para encontros sem significado real, sem vontade de confronto. Não estamos para nos chatear dirão alguns, e assim preenchemos o vazio dos nossos dias com o tédio  que invade nosso cotidiano romano. O tempo alonga-se e pouco a pouco anestesiados já não sentimos nem acreditamos em mais nada.

Quando o acontecimento do teatro nos possibilita o encontro com nossos iguais, esse deve ser justo (no sentido que os verdadeiros encontros são oportunidades únicas de confrontarmos verdadeiramente o nosso próximo e a nossa proximidade), não devemos deixar passar em branco os poucos minutos que nossos olhos se cruzam e a nossa respiração mistura-se no pequeno espaço onírico cênico atemporal.  O tempo perdido em devaneios e subterfúgios deixemos lá fora, aqui o que nos importa é aclarar as idéias, sacudir nossas miseráveis certezas e remexer em nossas feridas eternamente em processo de cicratização, que sangram abundantemente ferindo nossa alma perdida, que teme pela sua putrefação  final.

O valor de nossas vidas mede-se por vários parâmetros que dão significados aos nossos atos. A profundidade da vulgaridade geralmente preenche o ideal de muitas dessas referências, filtrá-las e canalizá-las para o caminho da “justiça” não significa o caminhar e o laborar mais fácil, cabe-nos a difícil decisão em eleger nossos caminhos não pela suposta facilidade, mas embasando-nos  na tristeza de nossas almas que choram o lacrimejar Kármico dos nossos “destinos” suados.

No teatro a possibilidade dessa profundidade profunda pode estar presente, cabe-nos estar atentos para enfrentar o bom caminho e avançarmos na direção do nada absoluto, que nos tirará desse limbo em que estamos mergulhados até o pescoço.

Para que o criador encontre o seu espaço de realização (independentemente dele ser ator, encenador ou qualquer outra individualidade que transite nessa espaço cênico) é necessário o criar de um cotidiano teatral, espaço onde  se pode  distanciar-se dos moldes que o cotidiano real nos impinge e que devem ser inevitavelmente abandonados quando chega o momento do fazer criativo.

O criar um cotidiano teatral implica o assumir os objetivos verdade, necessidade e mergulho como algo primordial para a concretização desse estado. Assumir objetivos significa pura e simplesmente: trabalho. Trabalho aqui significa: disciplina, responsabilidade e principalmente respeito aos preceitos que alicerçam determinado processo  eleito para o construir da criação artística. Quer dizer: é necessário criar-se uma estrutura que garanta que o processo de trabalho possa alojar com determinação o peso que pode estar contido na significação dos objetivos assumidos.

O importante num processo de trabalho, é ter-se a certeza do que realmente e verdadeiramente buscamos com o construir da nossa arte. Essa certeza não se refere única e exclusivamente aos elementos da linguagem teatral (conteúdo, estética e forma) utilizados pelos criadores para construir determinada obra, mas principalmente diz respeito a linguagem humana, que nos possibilita vislumbrar os caminhos com a certeza do nosso acreditar íntimo, acreditar que nos impulsiona na vida e que nos direciona pelos caminhos de pedra calcário que infestam nossos dias presentes. A certeza do nosso acreditar pode atravessar uma vida toda para ser construída, e mesmo assim podemos chegar a reta final e comprovar que tudo não passou de um ledo engano. Mas essa certeza só podemos tê-la no ponto final da nossa breve existência, até lá nos resta esperar que finalmente ela chegue; ou podemos trilhar o caminho que nossos próprios pés incumbiram-se de construir, determinando qual será exatamente o nosso ponto último.

E já que o tempo urge, tratemos de caminhar. Comecemos o construir dos nossos caminhos pelo começo...passo a passo

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