A Palestina no Primeiro Século

No primeiro século, a Palestina, dividida em quatro regiões: Galiléia, Samaria, Judéia e Iduméia, era uma província romana, subordinada administrativamente ao Legado da Siria, onde ficava o quartel general das tropas de Roma no Oriente Médio.
E em Jerusalém situavam-se as três sedes de domínio do Estado Teocrático Judaico:
1 - A Fortaleza Antônia, que abrigava uma guarnição de legionários sob o comando do Procurador romano.
2 - O Templo, onde ocorriam os grandes cultos, e se localizavam o Sinédrio (o conselho maior da teocracia) e o erário público (resultante dos impostos religiosos).
3 - O Palácio Real, centro da corte judaica, onde reinava a clã dos Herodes.
Essas concessões do Império, permitindo a existência de um rei judeu - naturalmente obediente à Roma nas questões de maior importância, bem como dar aos hebreus o direito de cultuarem sua própria religião e de administra-la através do Sinédrio, faziam parte da estratégia da "Pax Romana". Essa "autonomia controlada" dava aos judeus a sensação de usufruirem de um certo grau de autonomia, o que não só facilitava a coleta dos impostos e taxas cobrados por Roma, mas também amortecia os impetos por uma independência total em relação ao Império, embora algumas vezes ocorressem sublevações visando expulsar os romanos da Palestina, as quais eram prontamente esmagadas pelas legiões imperiais. Logo após a morte de Herodes o Grande, um levante, para tentar por termo ao jugo imperial, foi duramente dominado, resultando na morte de grande número de judeus. Dentre os que sobreviveram, cerca de 2000 foram crucificados, ao longo das muitas vias que os romanos fizeram construir, principalmente para servirem de rotas comerciais, como a que ia de Ptolemaida (porto do Mar Mediterrâneo próximo à Galiléia) até Damasco e a que ligava esta cidade síria à Jerusalém.
Antes de apresentarmos a estrutura social e econômica e a maneira de viver na Palestina de então, faremos uma breve análise dos três poderes que governavam a província.
O GRANDE SINÉDRIO
O Templo de Jerusalém era uma espécie de Basílica de São Pedro do judaísmo, a sinagoga-mór do Estado Judeu. Nele funcionava, como já assinalamos, o Grande Sinédrio, formado por 71 membros, sacerdotes e leigos, dirigidos por um Sumo Sacerdote. A esse conselho cabia zelar pelo cumprimento das leis oriundas do Torá, bem como solicitar punição para quem (fosse a pessoa judeu ou pagão), por atos ou palavras, divergisse do que pregavam as Escrituras Sagradas, ou ameaçassem, de alguma forma, a autoridade do próprio Sinédrio. Em outras palavras, cabia ao grande conselho denunciar ao Procurador Romano os crimes de natureza religiosa.
A grande maioria dos judeus e todos os membros do sinédrio reconheciam (pelo menos da boca para fora) a submissão à Roma. Os que compunham o grande conselho teocrático eram obrigados a prestar, perante o Procurador, juramento de fidelidade a César e buscavam sempre evitar situações que pudessem causar repressão da parte dos romanos. Eram colaboracionistas e adeptos da manutenção do "status quo".
O REI DA JUDÉIA
Quando, em 63 aC, os exércitos de Pompeu ocuparam a Palestina e esta se tornou uma província de Roma, o general romano manteve Hircano, o então rei da Judéia, no poder, despojando-o, contudo, da condição de rei, mas permitindo que continuasse a usar o título de Sumo Sacerdote. Com a morte de Hircano, o Imperdor Augusto, devoveu aos judeus o direito de terem seu próprio rei, indicando Herodes, O Grande para ocupar o cargo . A partir daí, a sucessão se processou segundo a tradição da herança monárquica, ou seja, quando um rei morria, seu filho mais velho o sucedia no trono. Do início do primeiro século até mais ou menos o ano 42 dC, o reinado judaico foi exercido pela clã dos Herodes, com maior destaque para Herodes, o Grande. Após sua morte, o reinado foi dividido entre seus fihos: Antipas, Felipe e Arqueilau. Antipas ficou com a Galiléia. Arquelau assumiu a Judéia, a Samaria e a Iduméia e a Felipe foi dado administrar alguns pequenos e inexpressivos potentados, à leste do rio Jordão. Todos eles, vigiados e subordinados aos Procuradores Romanos. Quando o novo imperador, Tibério, substituiu Augusto e exilou Arquelau para à Gália, o reinado da Judéia passou para Agripa I, neto de Herodes, depois substituido por seu irmão Agripas II.
Cabia ao rei administrar e controlar as atividades cotidianas dos habitantes da Palestina, particularmente dos que viviam na Judéia, construir obras , erigir monumentos e cuidar das reparações do Templo, bem como determinar o direito de posse dos grandes latifúndios, promover festas e recepções para os dignatários romanos, resolver as disputas entre as pessoas e cuidar que os impostos e taxas fossem compulsoriamente pagos pelos contribuintes. Embora seguissem a maioria das leis do Torá, obedeciam, como bons colaboracionistas que eram, todas as ordens oriundas de Roma.
O PROCURADOR ROMANO
Eram atribuições do Procurador:
Manter a paz na província, esmagando qualquer tentativa de sublevação por parte dos judeus.
Garantir o pagamento das taxas e impostos devidos á Roma.
Punir severamente qualquer manifestação política ou religiosa contrária a autoridade suprema do Imperador romano ou que questionasse a divindade de César.
Historica e biblicamente o mais famoso dos Procuradores na Palestina foi Pôncio Pilatos (que exerceu o cargo de 26 a 36 dC), pela sua participação na condenação e morte de Jesús de Nazaré. Pilatos era tido como uma pessoa de dificil trato e antisemita, já que seu protetor em Roma, o poderoso Sejano, era reconhecidamente antijudeu.
OS GRUPOS (POLÏTICOS) RELIGIOSOS NO ESTADO TEOCRÁTICO
Desde longa data tem sido uma característica dos filhos de Israel associarem as questões políticas às religiosas, daí a denominação de Estado Teocrático.
Conquanto todos tivessem como livro sagrado o Torá, havia, entre as diversas facções religiosas, diferentes opiniões sobre como a Lei deveria ser interpretada, de que forma os hebreus deveriam se comportar em relação ao que determinavam as Escrituras Sagradas, como deveriam viver em seu dia-a-dia e qual deveria ser o posicionamento do povo judeu diante da submissão do Estado Teocrático ao Império Romano. Eram os seguintes os principais grupos religiosos da época:
Saduceus - Embora obedientes as Leis de Moisés, não acreditavam nem na imortalidade da alma nem em ressurreição. Discretos em seus costumes e nos cultos, achavam que a recompensa divina acontecia aqui mesmo na Terra. Por essa filosofia, os Fariseus os tinham como sensualistas e materialistas,
Fariseus - Eméritos debatedores das Escrituras, promoviam cultos pomposos e pregavam princípios morais rígidos, conquanto, muitos deles, frequentemente, tiravam a capa da hipocrisia e se entregavam aos prazeres da vida mundana. De um modo geral eram homens cultos e alguns detinham grandes riquezas. Juntamente com os Saduceus compunham a maioria dos membros do Grande Sinédrio. Dois Fariseus se tornaram particularmente famosos, pelas suas ligações, aparentemente secretas, com Jesús: o escriba Nicodemus e o milionário José de Arimatéia.
Essênios - Eram os monges do Estado Teocrático. Mantinham-se alheios às disputas ideológicas entre Saduceus e Fariseus e não acatavam as decisões do Sinédrio. Viviam em total reclusão no assentamento de Qumran, localizado nas proximidades de Jericó. Sexualmente abstênios, levavam uma vida totalmente asceta e seguiam rigorosamente as leis ditadas por Moisés. A comunidade essênia era constituida de voluntários religiosos que abandonaram a vida das cidades para viver em total isolamento. Os Manuscritos do Mar Morto fazem crer que alguns essênios eram dotados de grande sabedoria teológica e há quem admita que Jesús foi, durante lgum tempo, discipulo desses misteriosos monges, a quem se atribuia, também, poderes de magia.
Zelotes - Além de fanáticos seguidores das Escrituras, diferenciavam-se dos demais por não aceitarem, abertamente, o jugo Romano. Revolucionários por excelência, encabeçavam todos os movimentos de sublevação armada contra os opressores estrangeiros. Deles partiram a decisão de deflagar a grande revolta judaica em 66 dC. Conseguiram sublevar quase todos os judeus e lutaram bravamente durante quatro anos, até que tiveram o Templo destruido, após uma derradeira e fragorosa derrota diante das legiões comandadas pelo grande estrategista Tito.
Herodianos - Membros da corte ou apenas partdários do Rei da Judéia, cumpriam o Torá, mas não se mostravam religiosos fanáticos, preocupando-se mais com os prazeres terrenos do que com possíveis recompensas no além. Seguidores dos Herodes, formavam parte do que se poderia chamar "a pequena burquesia" e cuidavam da admnistração dos problemas do dia-a dia do habitantes da Palestina, particularmente dos que residiam na Judéia e nas cidades da Iduméia.
AS REGIÕES DA PALESTINA E A TEO-IDEOLOGIA DE SEUS HABITANTES
1- Galiléia - Era a área mais setentrional da Palestina. Talves por ser uma região montanhosa, onde mais facilmente se poderia ocultar das legiões romanas, a Galiléia tornou-se o foco principal de concentração e militância dos zelotes. Os galileus seguiam o Torá mas não faziam parte do Sinédrio, situado na relativamente distante Jerusalém. Sofreram forte influência do helenismo. Haja visto que muitos gregos migraram para lá, chegando mesmo a construirem uma autêntica cidade helênica na região. Seus habitantes eram considerados israelitas de segunda categoria pelos orgulhosos cidadãos da Judéia os quais, por concentrarem em Jerusalém os poderes teocráticos do Estado, sempre se consideraram superiores aos demais hebreus. Os galileus viviam da agricultura é da criação de gado; os que residiam próximos ao Lago Tibiríades (ou Mar de Genezaré), eram, na maioria, pescadores. Sua principal cidade era Nazaré, onde Jesus cresceu e, provavelmente, também nasceu, filho do carpinteiro José e de sua prima Maria.
2 - Samaria - Situava-se entre a Galiléia e a Judéía, e os samaritanos mantinham-se em constante atrito com seus vizinhos. Só seguiam as leis do Pentateuco de Moisés, ignorando os outros livros do Torá. Dai serem considerados impuros pelos outros grupos religiosos. A hostilidade entre os samaritanos e os demais judeus palestinos vinha de longe, desde a separação das Tribos de Israel, quando eles adotaram uma postura de dissidência teo-ideológica.
3 - Judéia - Era a região mais importante, por ser Jerusalém o centro do poder do Estado Teocrático. Os judeus da Judéia consideravam como teologicamente "impuros" os habitantes das demais regiões.
4 - Iduméia - Região mais setentrional da Palestina, possuia cidades importantes como Hebron e Massada, habitadas pelos judeus que para lá se haviam deslocado a partir da Judéia. Mais ao sul, havia um vasto deserto, onde viviam, em pequenos grupos dispersos, semitas que nunca se deram conta do judaismo. Eram nômades pagãos que só viriam a entender o sentido de religiosidade quando, mais de seiscentos anos depois do primeiro século, foram congregados pelo grande lider e profeta Maomé, passando a formar uma nação de árabes mulçumanos, seguidores de uma religião regida pelas leis severas do Corão.
A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL DO ESTADO TEOCRÁTICO.
Quando Jesus nasceu, a Palestina tinha uma população de cerca de 500.000 habitantes que assim se distribuiam:
Aristocratas - 25 000
Pequenos burgueses - 75 000
Pobres - 400 000
A ARISTOCRACIA
Era dividida em aristocracia sacerdotal e aristocracia leiga.
A aristocracia sacerdotal era composta pelo sumo sacerdote em função, pelos ex-sumo sacerdotes, pelo guardião e pelos tesoureiros do Templo. Embora não fizessem parte do Grande Sinédrio, eram também considerados aristocratas sacerdotais os sacerdotes responsáveis pelo cultos semanais e diários. Tudo isso somado, temos que a aristocracia sacerdotal da Judéia da época totalizava cerca de 190 membros.
A aristocracia leiga era constituida pelos membros não sacerdotes do Sinédrio, pelos componentes da corte do Rei da Judéia, pelo Procurador Romano e seus oficiais, pelos grandes latifundiários e comerciantes e pelos arrecadadores de impostos (ou Publicanos) ricos .
A PEQUENA BURGUESIA
Era formada pelos sacerdotes de segundo escalão - os que não atuabam no Temolo-, pelos publicanos menos financeiramente favorecidos, pelos escribas, por doutores da lei não sacerdotes, pelos artesões bem sucedidos e também por uma minoria de camponeses mais abastados, não submetidos aos grandes latifundiários.
A POBREZA
Constituida pelo conjunto de classes menos remuneradas, que mal conseguiam o suficiente para sobreviver. Eram eles :
Os camponeses familiares - trabalhavam nos campos, de sol a sol, para os grandes latifundiários, recebendo, como pagamento, um mínimo de dinheiro, alimentos e roupas, que apenas lhes garantisse subsistir.
Os assalariados das cidades - pedreiros, carpinteiros, operários ou obreiros em geral, cujos salários mal permitiam a subsistência pessoal e de seus eventuais dependentes (esposas, filhos ou pais idosos).
Os pescadores - trabalhavam organizados em cooperativas, ganhando pouco mais do que o necessário para sobreviver com suas famílias.
Os pastores - trabalhavam individualmente, cuidando das ovelhas ou do gado e recebendo, via de regra, de seus patrões, apenas abrigo, roupas e alimentação.
Os artesões das aldeias - executavam pequenos trabalhos artesanais e instrumentos de uso doméstico e, como fosse pequena a circulação de dinheiro nos campos, eram pagos, pelos seus patrões, com gêneros alimentícios e parcas vestimentas.
Os escravos - A prática da escravidão era uma distorção social constante e frequente em todo o Império Romano. Os escravos não tinham direito a qualquer tipo de remuneração, recebendo de seus senhores apenas roupas e alimentos e moravam, já naquela época, isolados em autênticas "senzalas". Embora não se saiba o número exato, havia na Palestina, em particular na Judéia, um grande número de escravos, divididos em escravos judeus e escravos pagãos. Os primeiros não eram obrigados a exercerem atividades consideradas demasiadamente humilhantes, como lavar os pés dos seus donos ou despi-los para os banhos. Os segundos eram submetidos a todos os tipos de obrigações, por mais indígnas que fossem. Eram os empregados domésticos dos membros da corte real e do Sinédrio, dos altos dignatários romanos e dos latifundiários e comerciantes mais abastados. Os escravos que não cumpriam devidamente com suas obrigações eram submetidos a diversas formas de punição, incluindo-se o açoitamento. Os que fugiam e eram capturados estavam sujeitos à pena capital.
A FAMÍLIA NO ESTADO TEOCRÁTRICO
A fanília judaica de então seguia os costumes do patriarcado rígido, em que o pai era o senhor absoluto, tomando todas as decisões, cabendo à mulher e aos filhos obedecerem-no sem constestações. Somente aos homens era dado o direito de exercerem atividades profissionais fora do lar e de participarem dos cultos religiosos. A mulher era honrada pelos filhos mas totalmente submissa aos desejos do seu marido e senhor. Quanto aos filhos, os direitos diferiam se fossem do sexo masculino ou feminino, o irmão tendo prioridade sobre a irmã. Quando o filho varão atingia uma determinada idade, passava a ajudar o pai na atividade profissional deste, a fim de substitui-lo quando ele envelhecesse. Já a filha permanecia no lar, auxiliando a mãe nos deveres domésticos, até que se casasse ( via de regra por contrato estabelecido entre os pais dos noivos), passando então a viver submissa à autoridade do marido. O único aspecto positivo da tradição familiar judaica consistia no tratamento dado dos anciões, fossem homens ou mulheres. Eles eram tratados com respeito e cuidados pelos demais membros da família. Muitos dos anciões do sexo masculino eram tidos como sábios, pela experiência adquirida através do tempo, e ocupavam posições privilegiadas nos conselhos religiosos.
A QUESTÃO DOS IMPOSTOS.
Os romanos sempre impunham pesados impostos aos povos das nações que haviam conquistado.
No que concernia a provincia judaica, seus cidadãos não só eram submetidos ao pagamento de impostos e taxas a Cesar, mas também tinham de sustentar ás tropas de ocupação e ainda contribuir para a manutenção do Templo, bem como para as mordomias da corte real da Judéia e dos altos dignatários do Sinédrio. Essa questão seria sempre o cerne principal das revoltas do povo contra a aristocracia judaica e, principalmente, contra o jugo romano.
Os principais impostos e taxas que os judeus tinham de pagar eram:
1 - O tributo a Cesar - tratava-se de uma contribuição pessoal por herdade, ou seja, cada cidadão judeu contribuia segundo o valor de suas propriedades e os lucros obtidos em seus negócios. Este imposto era estabelecido através de complicados cálculos feitos pelas autoridades romanas e recolhidos por coletores (publicanos) designados pelo Procurador.
2 - A "Annona" - um tributo anual para a sustentação das tropas de ocupação.
3 - O "Publicum"- um conjunto de taxas e impostos, ditos indiretos, coletados por publicanos, sob fiscalização romana, e assim distribuídos:
3.1- Imposto aduaneiro - cobrado nas fronteiras da Palestina, sobre mercadorias que entravam no Estado Teocrático.
3.2 - Imposto de barreira - cobrado na entrada das cidades, sobre produtos que eram trazidos dos canpos ou de quaisquer outros lugares.
3.3 - Taxa de pedágio - coletado nas pontes, nos atravessadouros dos rios e nas encruzilhadas das grandes vias ou estradas.
Os impostos religiosos judeus - eram diversos:
1 - O imposto para o Templo - tratava-se de uma taxação fixa, paga anualmente por todas as pesssoas que residissem permanente ou temporariamente na Judéia, fossem elas judeus ou pagãos. Teoricamente, destinava-se à manutenção do Templo, mas boa parte do que era recolhido acabava sendo desviada para sustentar a mordomia do Sumo Sacedote e de outros dignatários do Sinédrio, bem como dos acólitos do Palácio do Rei.
Nota do autor: como se pode deduzir deste fato, a corrupção e o assalto ao erário público vêm de longa data !
2 - A taxa de Herodes - destinada às construções de obras na Judéia. Também aqui havia desvio irregular do que era recebido.
3 - Os dízimos - cujo recolhimento era repartido entre o Templo e o Rei da Judéia. Dividiam-se em:
3.1 - Primícias - baseava-se na idéia de que Deus é o legítimo proprietário do solo; logo, cada dono de terra deverá fazer a doação de um dízimo pelo nascimento do primeiro filho e pela primeira colheita obtida. Teoricamente, as prímícias eram destinadas a cobrir certos gastos do Templo e do Palácio, bem como pagar despesas ligadas aos cerimoniais, religiosos ou não, promovidos pelo Sinédrio ou pelo Rei..
3.2 - Primeiros dízimos - taxação sobre a quantidade de gado dos fazendeiros e, pelo menos teoricamente, destinadas à subsistência dos levitas (descendentes de Levi, terceiro filho de Jacó, que se entregavam ao estudo profundo do Torá e do Talmude. Uma espécie de seminaristas do judaismo).
3.3 -Segundos dízimos - imposto destinado (também teoricamente) à minorar a miséria dos cidadãos mais pobres do Estado.
Muitos publicanos - coletores dos impostos - enriqueceram, lícita ou ilicitamente, no exercicio de suas atividades. Eram odiados pelo povo judeu mas protegidos pelo Rei da Judéia e pelo Procurador Romano.
Encabeçados pelos zelotes, de quando em vez os judeus se revoltavam contra o pagamento dessa enorme quantidade de impostos. Mas, como anteriormente assinalado, eram sempre esmagados pela guarda real ou pelos legionários romanos.
A ESPERA PELO MESSIAS
Naquela época, dura e amarga para o povo judaico, em decorrência do constrangimento de constituirem uma nação sob ocupação estrangeira e sentindo o peso da espoliação financeira que os impostos lhe impunham, os judeus, principalmente os religiosos, oravam pela vinda do Messias que, assim lhes havia prometido Isaac, chegaria um dia, para expulsar o invasor e dar cabo aos escorchantes impostos. E foi nesse clima de tensão e expectativa política e religiosa que nasceram e cresceram João Batista e Jesús de Nazaré.
Inicialmente, o povo, principalmente os que pertenciam à pobreza, julgaram que o Batista, pela sua retórica inflamante e seu aspecto místico, seria o esperado Salvador. Mas quando João foi degolado e Jesús começou a expor suas promessas de um novo tempo com a iminente implantação do Reino de Deus e a promover milagres (assim nos ensina o Novo Testamento), as esperanças messiânicas passaram a se comcentrar no peregrino Nazareno.
Mas Jesús, concentrado em mostrar caminhos que passavam bem mais pela espiritualidade do que por uma ação política-militar, logo desfez as esperanças da população judaica. E, conquanto sua mensagem de amor e fraternidade tocasse os corações de muitos, ela não atendia às necessidades pragmáticas dos judeus.
Estes, então, em sua grande maioria, passaram a vê-lo apenas como o profeta de uma nova linha religiosa, mas não como o Messias prometido, disposto a liderar um movimento de libertação. E dentre os desapontados estava um de seus seguidores - Judas Escariote, que mantinha estreitas ligações com os zelotes e era, no fundo, um obstinado adépto da sublevação armada contra o Império.
Paralelamente, a mobilização religiosa de Jesús começou a incomodar o Sinédrio, em particular a Caifás, o Sumo Sacerdote, o qual temia que a pregação do Nazareno, falando de um Reino por chegar, pudesse contrariar os romanos e desencadear um processo de "endurecimento" da parte de Roma. E, ainda mais, a mensagem de Jesús lhe parecia um desafio à autoridade do próprio Sinédrio, por quem o Nazareno mostrava não ter a menor consideração. Suas disputas com os Fariseus e com outros doutores da Lei, que representavam a teo-ideologia do grande conselho, cresciam a cada dia.
Assim, sob a alegação de que as idéias pregadas por Jesús eram uma traição à condição divina do Imperador, Caifás prende o Nazareno, com ou sem a participação de Judas no processo - isto é algo ainda mal definido para muitos acadêmicos e teólogos modernos - e pede à Pilatos que o condene à morte por crucificação.
E o que se seguiu após os acontecimentos ocorridos no Gólgota, se perdeu nas controvérsias dos Evangelhos.