O CATEDRÁTICO

Oliver Marti

Eu tinha então 25 anos e estava formado em Direito há pouco mais de 12 meses. 0 emprego de "júnior", em uma importante firma de advocacia do Rio, obtido graças às ingerências de um deputado amigo da família, complementava razoavelmente a mesada que recebia de meu pai. 0 trabalho consistia em representar a firma em velórios, batizados, missas, casamentos etc... sempre que meus patrões não se mostrassem dispostos a comparecer a tais eventos. Sucede que, numa tarde amena de junho, despacharam-me para o velório da genitora do diretor de um grande banco, por sinal um de nossos mais importantes e lucrativos clientes. Bem arrumado, como impunham a ocasião e a estirpe da falecida, lá estava eu no Cemitério do Caju, após as condolências de praxe, aguardando que a última pá de cal, atirada sobre o túmulo, desse fim à arrastada cerimônia. Quase todos os acompanhantes do fúnebre cortejo já se haviam dispersado, quando deparei com um senhor alto e esguio, de uns 65 anos presumíveis, o olhar meditativo pairando por sobre os túmulos. Atraído não sei porque inexplicável fascínio, dele me aproximei, soltei um discreto pigarro e perguntei, a fim de puxar conversa:

- 0 senhor também veio ao enterro da D. Berenice? Ele voltou-se em minha direção, fitando-me com os olhos castanhos, irônicos e penetrantes, e disse com voz pausada:

- De fato, meu jovem.

- Sabe - falei, procurando um jeito de manter a conversação - tenho vindo a alguns velórios ultimamente, mas ainda não me acostumei ao fato.

0 cavalheiro que - agora podia perceber - trajava-se com elegancia, conquanto o terno desse a impressão de muito antigo e bastante usado, sorriu e perguntou:

- Essa sua, digamos... experiência no assunto, vem de quanto tempo e a que se deve, meu rapaz?

Falei-lhe das minhas atribuições na firma e, à guisa de apresentação, entreguei-lhe um cartão onde se lia: Dr. Manoel Leite Correia Soares Advocacia Ltda. Ele contemplou o cartão, apertou-me a mão e disse:

- Muito prazer, Aldo Spadolini. Também sou uma espécie de relações públicas da J. Goldstein e vim aqui, como você, apresentar condolências a parentes de mortos que nem sequer conhecemos. Como vê, somos ambos hipócritas remunerados.

A essa altura já nos aproximávamos da saída do cemitério e eu me sentia fascinado por aquela figura que, a meu ver, se ajustaria melhor à condição de proprietário de jóias do que relações públicas de uma joalheria, ainda que esta fosse das mais famosas do País. Paramos na calçada em frente ao portão onde meu fusca estava estacionado.

- Sr. Aldo, seu carro está por perto?

Ele soltou uma risadinha, embora seus olhos mostrassem um toque de tristeza.

- Não possuo automóveis, Dr. Manoel. E nem sequer pego táxi, pois isto está acima da minha verba de representação. Ando mesmo é de ônibus.

- Então permita oferecer-lhe uma carona. Onde quer que o deixe?

- Moro no Catete... - Ótimo. Vou para Copacabana. Terei prazer em deixá-lo em sua residência.

Partimos e, na altura da Avenida Brasil, comentei:

- Sr. Aldo, o senhor leva todo o jeito de um rico aristocrata. É difícil imaginá-lo um simples relações públicas... considerando-se ainda a sua idade, é claro.

Os olhos castanhos de Spadolini cintilaram.

- Na verdade houve tempo em que fui de fato, como você disse, um homem rico, embora não me considerasse aristocrata. Nasci em berço de ouro e até os 28 anos não havia trabalhado um único dia. Fiz meus estudos em Paris, coisa comum na época, e depois dediquei-me à nobre arte de não fazer absolutamente nada, a não ser desfrutar da vida boêmia do Rio, gastando a rodo, com companheiros tanto ou mais estróinas do que eu.

Aldo fez uma pausa e alisou o bem cuidado bigode a "La Clark Gable" antes de prosseguir:

- Mas, um dia... tudo mudou.

- Como assim?

- Aconteceu um fato que alterou todo o meu destino.

- O quê? - indaguei curioso. Spadolini ergueu a mão.

- Tudo a seu tempo, meu caro. Como dizia, um certo dia, por uma certa razão, decidi mudar a minha vida. A primeira coisa que fiz foi casar com uma corista com quem vinha mantendo um caso há algum tempo. Depois comecei a doar meus bens: ações, carros, propriedades, tudo enfim, aos meus pândegos companheiros de noitadas.

- Mas que loucura!

- Realmente, uma loucura, mas que, na ocasião, pareceu-me não só apropriada como também justificada. Bem, o fato é que, ao cabo de mais ou menos cinco meses, já não tinha praticamente nada, a não ser alguns trocados no banco e uma velha casa na qual moro até hoje.

- E sua mulher, a corista ... ?

- Elza? Bem, ela logo percebeu que minha fortuna se esvaía e, menos de dois meses após o casamento, escafedeu-se, levando todos as jóias em que pôde pôr as mãos. Nunca mais lhe pus os olhos em cima, mas, soube bem mais tarde, que ela fugira para o Uruguai com um "gigolô" da Lapa.

Balancei a cabeça.

- Sinto muito, senhor... e os seus amigos, aqueles a quem doou seus bens?

- Esses... bem, à medida que eu empobrecia e eles enriqueciam - às minhas custas - iam-se afastando, de certo temerosos que lhes pedisse dinheiro emprestado ou a restituição dos bens que havia doado.

- Triste a ingratidão humana - foi tudo que achei para comentar.

Já nos aproximávamos do Catete. Spadolini deu-me o endereço e lá chegamos em poucos minutos. A casa era velha, quase caindo aos pedaços, em uma rua estreita e esburacada. Parei o carro.

- Então, o que fez o senhor? - indaguei, dando prosseguimento à conversa - Arrumou emprego?

Aldo acenou concordando.

- Procurei, mas não foi fácil. De fato, eu não sabia fazer nada. Só havia aprendido francês, filosofia e etiqueta, assuntos pouco condizentes com o mercado de trabalho, não acha? Mas, ironicamente, veio em meu auxílio o único dos meus amigos a quem, por ser ele muito mais rico do que eu fora, não havia dado coisa alguma. Era filho do proprietário da J. Goldstein e hoje o dono do negócio. Isso ocorreu no fim do ano de 1940. Recebi a função de relações públicas da joalheria e, desde então - lá se vão 44 anos - levo essa vida que você vê.

Spadolini estendeu-me a mão.

- Bem, meu caro, obrigado pela carona e até qualquer dia.

- Mas não vai me dizer o que ocorreu com o senhor, a ponto de levá-lo a mudar toda a sua vida? - indaguei, temeroso que ele partisse sem esclarecer o fato.

Aldo fez um gesto negativo com a mão, abriu a porta do carro e saiu. Do lado de fora virou-se e disse:

- Não gosto de falar sobre isso mas prometo-lhe que, se o destino nos puser de novo frente a frente, então, contarei tudo. E se foi, empertigado, sem se voltar, na direção da velha casa.

Durante semanas não consegui afastar Spadolini do pensamento. Tentei, em vão, descobrir o que poderia ter acontecido àquele homem para levá-lo a despojar-se de todos os seus bens. Afinal, acabei esquecendo dele e do assunto. Porém, um dia, cerca de quatro meses mais tarde, morreu o tio de um importante cliente nosso e lá estava eu, compulsoriamente, lá pelas 10 horas, atendendo a mais um enterro, desta vez no Cemitério de São João Batista. E eis que - por obra do destino ou do acaso - encerradas as exéquias, dei de cara com AIdo Spadolini. Ele reconheceu-me de pronto e saudou-me alegremente. Trocamos cumprimentos e, em seguida, cobrei-lhe a promessa que me havia feito.

- Ah - disse ele - mas claro que não esqueci. Já que os deuses quiseram que nos reencontrássemos, cumprirei o prometido. E até que aqui, no São João Batista, a tarefa se torna mais fácil.

Ergui as sobrancelhas, evidenciando não estar entendendo o porquê dessa afirmativa. Aldo sorriu e tomou-me pelo braço. - Venha, vou mostrar-lhe algo.

E saímos andando entre túmulos e mausoléus, ele sempre me guiando, até que paramos diante de uma sepultura em cuja lápide se lia a inscrição:

Lancei a Spadolini um olhar inquisitivo. Ele apontou para a inscrição e disse:

- O sacana que alí jaz era considerado o maior clínico da sua época. Catedrático, já não me lembro de que Faculdade. Pois bem, no início de maio de 1940 comecei a apresentar sangue nas feses e dores na parte terminal do intestino; no reto, para ser mais preciso. Fui então consultar esse Dr. Frota. Após vários e desagradáveis exames proctológicos, dezenas de radiografias, testes de sangue, biópsias etc., ele deu, friamente, seu veredicto.

"Sr. Spadolini" - falou, com ar doutoral - 1amento dizê-lo, mas tudo indica que o senhor está com câncer na sigmóide" É, foi esse o nome que ele usou: sigmóide. - "E não lhe dou mais que seis meses de vida".

- Imagine o choque e a depressão que se seguiram. Pensei em procurar outros médicos, ouvir outras opiniões, buscar outros diagnósticos, mas nada fiz. E como meu pai havia falecido aos 37 anos com câncer de cólon, considerei-me um homem marcado pela inevitabilidade genética, acabando por capitular emocionalmente, diante do que se afigurava uma trágica fatalidade: morrer na flor da idade. E então a depressão agravou-se, ainda mais que a ninguém revelei a minha infelicidade. Perdi o apetite, emagreci, cheguei a pensar em dar um tiro no ouvido e acabar com tudo de uma vez. Mas, uma certa manhã, após séria reflexão, disse para mim mesmo: "Essa não, vou aproveitar o tempo que me resta". E, preparando-me para encarar o Criador com algum crédito a meu favor, resolvi mudar minha conduta. Parei de freqüentar a boemia, casei-me com a tal corista e desfiz-me, progressivamente, dos meus bens, já que, como dizem, é mais fácil aos pobres entrar no reino dos céus.

Aldo fez uma longa pausa e olhou de soslaio para o túmulo onde jaziam os restos mortais catedrático.

Ansioso perguntei:

- E então?

- Bem, ao cabo de seis meses, ai veja você a ironia, precisamente seis meses, ele - Spadolini apontou para o nome na lápide - ele morreu... de câncer! E, daí em diante, milagrosamente, minha depressão desapareceu. Voltei a comer e a engordar, e, como vê, aquí estou, após todos esses anos, pobre mas cheio de saúde.

Balancei a cabeça e emiti um suspiro.

- O senhor deve ter odiado bastante esse médico, não? - perguntei.

- E ainda odeio, meu amigo. E vingo-me dele sempre que tenho oportunidade.

- Como assim? Ele está morto.

- Precisamente, mas e daí? De vez em quando venho até aqui e me vingo dele - insistiu Spadolini.

Ia perguntando como ele o fazia, mas ocorreu-me outra questão:

- Sr. Aldo, afinal de contas, o que houve com o seu câncer? Uma cura espontânea? Um milagre?

Ele sorriu.

- Que câncer coisa nenhuma, Dr. Manoel. Alguns meses após a morte desse genial catedrático, um jovem médico, apenas recém-formado, fez o diagnóstico correto: meus sintomas deviam-se somente a uma humilhante mas bendita hemorróida, da qual me livrei com uma simples cirurgia.

- Quer dizer então - balbuciei - que o catedrático errou...

- E como! -

E, afinal... de que forma o senhor se vinga dele?

O rosto de Aldo assumiu uma expressão sardônica, quase diabólica.

- Eu venho aqui - disse - posto-me diante deste túmulo -Aldo colocou-se de frente para a sepultura - mentalmente pronuncio o nome dele três vezes e então...

E então Spadolini abriu bem a boca e, lentamente, em "pianíssimo", gostosamente, soltou, bem alto, uma frase, difícil de se conceber fosse enunciada por alguém com uma aparência tão fina e aristocrática:

- SEU GRANDISSíSSIMO FILHO DE UMA PUUUU...TA !

E as palavras de raiva e desabafo ecoaram entre túmulos, tumbas e mausoléus...  

 

 

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