O SEQUESTRO
Os sequestros estavam na ordem do dia. Pelo menos dois a três por semana, deixando a polícia carioca tonta e os ricaços apavorados.
Um dos poucos despreocupados era Hélio Tavares, Diretor-Presidente da Empresa de Construções Aço-Rio. Como dissera, dias antes, para sua secretária:
"Sequestrar a mim? Duvido. Essa gente é bem informada. Sou viúvo, sem filhos e não tenho nenhum parente próximo ainda vivo. Logo, quem iria se importar em pagar pelo meu resgate?"
E soltava boas gargalhadas.
Naquela manhã, saiu cedo, antes das seis, de sua mansão no Alto da Boa Vista, guiando seu BMW, um carro do ano, azul cobalto, lindo, com toda sorte de apetrechos, valendo uma fortuna. Ia só. Havia dispensado o motorista pelo prazer de guiar, ele próprio, seu recém adquirido automóvel. Enquanto descia em direção à Usina, ouvia um de seus clássicos prediletos, gravado em CD e transmitido pelo moderno sistema estereofônico do BMW.
Dirigia lento, com cuidado, receoso de causar qualquer dano a sua nova paixão. Não havia quase ninguém trafegando por ali naquela hora. De repente, um Opala antigo, pesadão, dirigido por uma loura, passou ao seu lado como um foguete e depois diminuiu a velocidade e começou a oscilar na frente do BMW. Tavares reduziu ainda mais a marcha. ‘Deve estar drogada’- disse consigo mesmo. O Opala parou bruscamente, O empresário fez o mesmo, para evitar bater. Abaixou o vidro e se pôs a vociferar contra a mulher, não se apercebendo que um outro veículo, uma Besta, havia parado bem atrás dele.
Nem que da "van" saíram três homens encapuzados, portando armas automáticas. Quando se deu conta da situação, tinha três canos apontados para sua cabeça. Um dos homens disse:
"Desligue o motor e desça. É um sequestro".
Tavares obedeceu. Desligou, desceu do carro e foi postar-se na calçada. Surpreso, observou que os homens, em vez de segurá-lo, entraram tranquilamente no BMW. Um deles ligou o motor.
Desesperado e confuso, o empresário gritou:
"Esperem! Vocês não vão me levar?"
O BMW acelerou e o que ia na direção respondeu, já de longe:
"Nada disso meu chapa. Se a gente te leva, quem é que vai pagar pelo resgate do carro?"
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