TRAJETÓRIA DA IMPRENSA NEGRA BRASILEIRA: UM POUCO DE HISTÓRIA

“Não há necessidade de passadas longas, é necessário, sim, que não fiquemos parados”. (Geni Guimarães)

Amigo Leitor, aqueles que ainda pensam e acreditam que não temos história, enganam-se. O que estamos fazendo não é novo. Apenas utiliza ferramentas atuais, dando continuidade a um processo que se iniciou por volta do século XVIII pelos pioneiros José do Patrocínio, Luis Gama, Cruz e Souza, entre outros anônimos relevantes. Tanto que dividimos nosso trabalho em três blocos: acervo, pesquisa e atualidades. Afinal, um povo sem memória é um povo sem raízes. É preciso que os novos conheçam um pouco do que os antigos fizeram, com eles aprender e traçarmos caminhos no contexto da realidade em que vivemos.

        Nas décadas de 20 a 60, ousados e memoráveis empreendimentos jornalísticos ocorreram: Elite, O Kosmos, O Clarim, O Alfinete, A Liberdade, O Bandeirante, Getulino, O Menelick, O Clarim D’alvorada, dentre outros. Sobre a década 60/70 não temos notícias. Caso você possua informações e material, estamos abertos à contribuições adicionais para preenchermos esta lacuna.

        Os anos 70/80 contemplaram-nos com Árvore das Palavras, Jornegro, Revista Ébano, Maioria Falante e, impelidos pela vontade de fazermos alguma coisa, para ajudar a desatar os nós do silêncio, que há séculos tenta nos amordaçar, prestamos entre 1981/82, em parceria com Márcio Barbosa, a nossa modesta contribuição com NOSSO CANTO – boletim cultural. O qual infelizmente  não passou do segundo número. E, entre 1981 a 1988 fomos colaboradores da Aldeia – revista de cultura, poesia e ecologia; idealizada e editada por Célio Pires.

        Em 1995, a Raça Brasil, que equivocada, se auto-proclamou perante a mídia como "a primeira revista dos negros brasileiros”, esperanças reavivaram-se. As edições iniciais mostravam a existência de um potencial negro, inexplorado pelo descaso do  racismo cordial, cujo patrocínio a coletividade afro-brasileira ainda vivencia. Neste mesmo período a revista carioca Black People veio arrasadora e fazendo contraponto. A RB destinava-se a um público classe média maquiado, enquanto a concorrente era mais pé no chão e incisiva. Infelizmente sua trajetória foi efêmera. A Raça Brasil continua. Porém  se desviou do seu propósito. Amoldou-se às exigências que nos querem apenas bonitos e bem-vestidos. Desde que não sejamos pensantes, investigativos, exigentes... As opiniões reivindicatórias dos leitores da RB prevalece a nossa. Ilustremos:

CRÍTICA CONSTRUTIVA I – “Entendo que RAÇA BRASIL abriu importante espaço para mostrar o negro e sua cultura, dentro de outro contexto. Contudo, penso que esta revista está particularmente preocupada com o aspecto comercial, objetivando alcançar um mercado consumidor em expansão: a classe média negra! É preciso destacar, além de belos atores e manequins, os negros proeminentes, os intelectuais e profissionais liberais. É preciso eliminar alguns rótulos que pesam sobre nós negros e que maculam nossa imagem. Divulguem também nossa inteligência, pois não é só por meio do samba e do esporte que o negro pode oferecer sua  contribuição para o desenvolvimento sócio-econômico deste país”. Jair Jorge dos Anjos, por e-mail.

CRÍTICA CONSTRUTIVA II – “A revista continua linda, mas que pena ela não tem mais espaço para outros temas que nos interessam ainda mais do que moda e beleza. Sou uma mulher negra e sei que vivemos em uma ditadura da estética e que corremos atrás de um corpo bonito. Mas, por favor, voltem a publicar matérias de pessoas que conseguiram vencer sem serem artistas ou esportistas. Parabéns pelo trabalho de vocês”. Giovana Toledo, por e-mail.   Ambos publicados na seção Conexão, Raça Brasil, nº 61, página 8.  

        Em 1998, o número 0 de HORA X - CONSCIÊNCIA NEGRA, “o jornal dos movimentos”, publicado pela Sociedade Comunitária "Fala Negão", repetiu a lacuna criada na edição da Revista Fala Negão, nº 1, outubro/97, ao deixar de lado o gênero Literatura. Falha inadmissível! A diretoria da entidade mantém contatos diretos com escritores negros. A questão tornou-se pessoal. Ignoramos a fogueira das vaidades, em nome da classe a qual pertencemos, cujos vínculos de união ainda engatinham... Reivindicamos o espaço que ao nosso ver estava sendo-nos negado, inclusive por um veículo comunitário. Desafiados fomos. Aceitamos. Nasceu a coluna CABEÇAS FALANTES.

        A proposta foi bem recepcionada tanto por leitores quanto por produtores literários. Cresceu e expandiu-se a outros temas, incluindo roteiros culturais. Com a periodicidade irregular provocada pela falta de patrocínio, o jornal Consciência Negra começou a enfrentar problemas financeiros, por propor-se a ser um veículo independente, produzido e mantido por militantes, colaboradores e assinantes para não virar vitrine comercial e desse modo ser conseqüentemente manipulado por interesses  e imposições publicitárias, em termos de forma e conteúdo; na maioria das vezes, distantes e descompromissados com a nossa causa. Afetados fomos. O material recebido acumulou-se de tal maneira que anunciou a necessidade de ampliarmos o espaço conquistado à unhas e dentes.

        Estendemos a proposta ao jornal Tribuna Tiradentes Leste, outro veiculo comunitário, publicado pela Associação dos Moradores de Cidade Tiradentes. Entretanto, ficamos atrelados a uma dependência imposta: se não houvesse anunciante para ocupar o espaço, os artigos seriam publicados. Colaboramos em algumas edições e ficamos de fora em outras. No biênio 2000/2001 produzimos matérias que não foram publicadas em ambos os jornais. Fomos severamente cobrados e com toda a razão. Estávamos em débito perante aqueles que nos deram crédito. 

        Dezembro de 2001 à janeiro de 2002: a experiência obtida junto a rappers e fanzineiros apontou caminhos e levou-nos a refletir sobre a sugestão provocativa que vimos fazendo desde 1994 em conversas, eventos e debates sobre a falta de negros na mídia: "Se não for pela rede aberta, que seja UHF, a cabo ou vídeo caseiro. Não estamos na TV porque não nos projetamos televisamente... Potencial nós temos. Cadernos Negros tem provado desde 1978 que é possível traçarmos caminhos cooperativos para disseminar nossas produções. Os rappers estão esbofeteando a nossa cara com gravações independentes". A criação de uma cooperativa de produtores e técnicos culturais é uma das propostas que temos feito, visando minimizar barreiras... Até a presente data não saiu do “boa idéia, vamos discutir a respeito”.

        O mês do Rei Momo chegou com a sua corte purpurina, colorida, sensual e festiva. Juntamos boletins virtuais de provedores, reunimos a diretoria, criamos a comissão de frente, elegemos o tema, compusemos o samba-enredo, pegamos nossas fantasias e alegorias... E, fomos desfilar no “Grêmio Criativo Escola de Letras Unidos da Máquina de Escrever”.  Na passarela do computador nasceu CABEÇAS FALANTES ONLINE -  informativo afro-cultural brasileiro, cuja primeira edição foi transmitida via e-mail no dia 16/02/2002, em pleno sábado de  carnaval.

        Nos últimos anos, o leque ampliou-se em São Paulo, com a circulação do jornal Social; jornal Umbanda e Candomblé; revista Raízes; revista Dandara (que após algumas edições impressas, tornou-se online: www.revistadandara.com.br); boletim U.C.P.A. (União dos Coletivos Pan-africanistas), e em termos religiosos, surgiu a revista Orixás. Na Internet, além de sites específicos, Blogs e vários grupos de notícia, os quais prestamos nossa colaboração solidária, divulgando na seção Quilombo Virtual,  encontramos um amplo leque de publicações, tais como Eparrei Online: http://www.cantinho.com/ccmnegra/index1.htm; Pobre: www.pobre2.hpg.ig.com.br; Afirma: www.afirma.inf.br, dentre outros. Esperamos e torcemos para que todos tenham longa vida, a exemplo de Cadernos Negros, que no ano de 2002 completou 25 anos de existência. Um jubileu de prata com peso de ouro! Porém estas são outras histórias, a ser contada por aqueles que nos sucederem.         

FONTES: Quem é quem na negritude brasileira, biografias, Prof. Eduardo de Oliveira, CNAB/SNDHMJ, 1998; ...E disse o velho militante José Correia Leite, depoimentos, Cuti e José CorreIa Leite, CONE/SMC, 1992, www.luizcuti.silva.nom.br; Frente Negra Brasileira, depoimentos, Márcio Barbosa, Quilombhoje/MINC, www.quilombhoje.com.br, 1998; “Conto Carnavalesco”, Oubí Inaê Kibuko www.oubitelapretaprodu.hpg.com.br, em Cadernos Negros, volume 14, edição Quilombhoje, 1991.  

Oubí Inaê Kibuko - editor responsável

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