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SOLANO TRINDADE & CARLOS DE ASSUMPÇÃO |
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CANTO DOS PALMARES
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PROTESTO |
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Eu canto aos Palmares sem
inveja de Virgílio, de Homero e de Camões porque
o meu canto é o grito de uma raça em
plena luta pela liberdade! Há
batidos fortes de
bombos e atabaques em pleno sol Há
gemidos nas palmeiras soprados
pelos ventos Há
gritos nas selvas invadidas
pelos fugitivos... Eu
canto aos Palmares odiando
opressores de
todos os povos de
todas as raças de
mão fechada contra todas as tiranias! Fecham
minha boca mas
deixam abertos os meus olhos Maltratam
meu corpo minha
consciência se purifica Eu
fujo das mãos do maldito senhor! Meu
poema libertador é
cantado por todos, até pelo rio. Meus
irmãos que morreram muitos
filhos deixaram e
todos sabem plantar e manejar arcos Muitas
amadas morreram mas
muitas ficaram vivas, dispostas
a amar seus
ventres crescem e nascem novos seres. O
opressor convoca novas forças vem
de novo ao meu acampamento... Nova
luta. As
palmeiras ficam cheias de flechas, os
rios cheios de sangue, matam
meus irmãos, matam minhas amadas, devastam os meus campos, roubam as nossas reservas; tudo
isto para salvar a civilização e a fé... Nosso
sono é tranqüilo mas
o opressor não dorme, seu
sadismo se multiplica, o
escravagismo é o seu sonho os
inconscientes entram para seu exército... Nossas
plantações estão floridas, Nossas
crianças brincam à luz da lua, nossos
homens batem tambores, canções
pacíficas, e
as mulheres dançam essa música... O
opressor se dirige aos nossos campos, seus
soldados cantam marchas de sangue. O
opressor prepara outra investida, confabula
com ricos e senhores, e
marcha mais forte, para
o meu acampamento! Mas
eu os faço correr... Ainda
sou poeta meu
poema levanta os meus irmãos. Minhas
amadas se preparam para a luta, os
tambores não são mais pacíficos, até
as palmeiras têm amor à liberdade... Os
civilizados têm armas mas
eu os faço correr... Meu
poema é para os meus irmãos mortos. Minhas
amadas cantam comigo, enquanto
os homens vigiam a terra. O
tempo passa sem
número e calendário, o
opressor volta com outros inconscientes, com
armas e dinheiro, mas
eu os faço correr... Meu
poema é simples, como
a própria vida. Nascem
flores nas covas de meus mortos e
as mulheres se enfeitam com elas e
fazem perfume com sua essência... Meus
canaviais ficam bonitos, meus
irmãos fazem mel, minhas
amadas fazem doce, e
as crianças lambuzam os seus rostos e
seus vestidos feitos de tecidos de algodão tirados
dos algodoais que nós plantamos. Não
queremos o ouro porque temos a vida! E
o tempo passa, sem número e calendário... O
opressor quer o corpo liberto, mente
ao mundo e
parte para prender-me novamente... -
É preciso salvar a civilização, Diz
o sádico opressor... Eu
ainda sou poeta e canto nas selvas a grandeza da civilização a Liberdade! Minhas
amadas cantam comigo, meus
irmãos batem com as mãos, acompanhando
o ritmo da minha voz.... -
É preciso salvar a fé, Diz
o tratante opressor... Eu
ainda sou poeta e canto nas matas a
grandeza da fé a Liberdade... Minhas
amadas cantam comigo, meus
irmãos batem com as mãos, acompanhando
o ritmo da minha voz.... Saravá!
Saravá! repete-se
o canto do livramento, já
ninguém segura os meus braços... Agora
sou poeta, meus
irmãos vêm comigo, eu
trabalho, eu planto, eu construo meus
irmãos vêm ter comigo... Minhas
amadas me cercam, sinto
o cheiro do seu corpo, e
cantos místicos sublimizam meu espírito! Minhas
amadas dançam, despertando
o desejo em meus irmãos, somos
todos libertos, podemos amar! Entre
as palmeiras nascem os
frutos do amor dos meus irmãos, nos
alimentamos do fruto da terra, nenhum
homem explora outro homem... E
agora ouvimos um grito de guerra, ao
longe divisamos as tochas acesas, é
a civilização sanguinária que se aproxima. Mas
não mataram meu poema. Mais
forte que todas as forças é a Liberdade... O
opressor não pôde fechar minha boca, nem
maltratar meu corpo, meu
poema é cantado através dos séculos, minha
musa esclarece as consciências, Zumbi
foi redimido...
CANTARES
AO MEU POVO, Solano Trindade, Editora Brasiliense, 1981.
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Mesmo que voltem as
costas As minhas palavras
de fogo Não pararei de
gritar Não pararei Não pararei de
gritar Senhores Eu fui enviado ao
mundo Para protestar Mentiras ouropéis
nada Nada me fará calar Senhores Atrás do muro da
noite Sem que ninguém o
perceba Muitos dos meus
ancestrais Reúnem-se em minha
casa E nos pomos a
conversar Sobre coisas amargas Sobre grilhões e
correntes Que nos passado eram
visíveis Sobre grilhões e
correntes Que no presente são
invisíveis Invisíveis, mas
existentes Nos braços, no
pensamento Nos passos, nos
sonhos, na vida De cada um dos que
vivem Juntos comigo
enjeitados da Pátria Senhores O sangue dos meus avós Que corre em minhas
veias São gritos de
rebeldia Um dia, talvez, alguém
perguntará Comovido ante meu
sofrimento Quem e que está
gritando Que e que lamenta
assim Quem é E eu responderei Sou eu irmão Irmão tu me
desconheces Sou eu aquele que se
tornara Vitima dos homens Sou eu aquele que
sendo homem Foi vendido pelos
homens Em leilões, em praças
públicas Que foi vendido ou
trocado Como instrumento
qualquer Sou aquele que
plantara Os canaviais e
cafezais E os regou com suor
e sangue Aquele que sustentou Sobre os ombros
negros e fortes O progresso do país O que sofrera mil
torturas O que chora
inutilmente O que dera tudo o
que tinha E hoje em dia não
tem nada Mas hoje grito não
é Pelo que já se
passou Que se passou é
passado Meu coração já
perdoou Hoje grito meu irmão É porque depois de
tudo A justiça não
chegou Sou em quem grita
sou eu O enganado no
passado Preterido no
presente Sou eu quem grita Sou eu quem grita
sou eu Sou meu irmão
aquele Que viveu na prisão Que trabalhou na
prisão Para que fosse
construído O alicerce da nação O alicerce da nação Tem as pedras dos
meus braços Tem a cal das minhas
lágrimas Por isso a nação
é triste É muito grande mas
triste E entre tanta gente
triste Irmão sou eu o mais
triste A minha história é
contada Com tintas de
amargura Um dia sob ovações
e rosas de alegria Jogaram-me de
repente Da prisão em que me
achava Para uma prisão
mais ampla Foi um cavalo de Tróia A liberdade que me
deram Havia serpentes
futuras Sob o manto do
entusiasmo Um dia jogaram-me de
repente Como bagaços de
cana Como palhas de café Como coisa imprestável Que não servia mais
pra nada Um dia jogaram-me de
repente Nas sarjetas da rua
do desamparo Sob ovações e
rosas de alegria Sempre sonhara com a
liberdade Mas a liberdade que
me deram Foi mais ilusão que
liberdade Irmão sou eu quem
grita Eu tenho fortes razões Irmão sou eu quem
grita Tenho mais
necessidade De gritar que de
respirar Mas irmão fica
sabendo Piedade não é o
que eu quero Piedade não me
interessa Os fracos pedem
piedade Eu quero coisa
melhor Eu não quero mais
viver No porão da
sociedade Não quero ser
marginal Quero entrar em toda
parte Quero ser bem
recebido Basta de humilhações Minha alma já esta
cansada Eu quero o sol que
é de todos Eu quero a vida que
é de todos Ou alcanço tudo o
que eu quero Ou gritarei a noite
inteira Como gritam os vulcões
Como gritam os
vendavais Como grita o mar E nem a morte terá
força Para me fazer calar PROTESTO E
OUTROS POEMAS, Carlos de Assumpção, Franca/SP, 1982, Edição do Autor.
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