UMA “IGREJA” CHAMADA ALPENDRE DE BETESDA
(Sylas de Souza Neves) em 26/03/2008
Ora, em Jerusalém há, próximo à Porta das Ovelhas, um
tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia
grande multidão de enfermos: cegos, coxos e paralíticos, esperando o movimento
das águas. João 5:2,3
Numa bela tarde de sábado, ao abrir
minha caixa de e-mails (correspondência eletrônica), deparei-me como um texto
intitulado: ”NOMES ESQUISITOS DE IGREJAS”. Após ler cuidadosamente cada nome
denominacional, fiquei boquiaberto com a “criatividade” do povo GOSPEL e, principalmente
com a superficialidade bíblica de seus “lideres” que, com a presunção de encherem
os “templos” e ganharem muito dinheiro, empregam às suas denominações, nomes
puramente interesseiros e que servem de escárnio.
Dentre as sumidades dos nomes
listados, transcrevo: IGREJA BATISTA INCÊNDIO DE BÊNÇÃOS, IGREJA C.R.B.
(Cortina Repleta de Bênçãos), IGREJA PENTECOSTAL VALE DE BÊNÇÃOS, IGREJA DA
BÊNÇÃO MUNDIAL, IGREJA E.T.Q.B. (Eu Também Quero a Bênção), IGREJA EVANGÉLICA
FONTE DE BÊNÇÃOS e IGREJA EVANGÉLICA PENTECOSTAL DA BÊNÇÃO ININTERRUPTA.
Ao fazer esta distinta seleção,
constatei que a palavra BENÇÃO (s) aparecia em todas elas e, subitamente,
recordei-me de um antigo corinho que, muito ouvi cantar na infância:
Eu vim buscar uma benção Jesus tem benção pra dar
Você veio buscar sua benção espera Jesus vai lhe dar
Levante tuas mãos para o céu, e sinta um raio de luz
Cante comigo aleluia, o dono da Benção é Jesus.
De acordo com o Dicionário Teológico
de Claudionor Corrêa de Andrade, a palavra: culto[1] [Do
lat. cultus, veneração]
denota sentido de: Tributação voluntária de louvores e honra ao Criador; sendo
que, seu objetivo primário é a adoração a Deus, pois, Ele é Espírito, e importa que os
que o adoram o adorem em espírito e em verdade. (JO 4:24) e o alvo
secundário é o enlevo espiritual do adorador. Definitivamente, culto nunca
esteve e nunca estará associado à busca de bênçãos e, convenhamos, o templo é
simplesmente um edifício público destinado à reunião da comunidade cristã.
Comunidade que, deve se encontrar voluntariamente para louvar, exaltar e falar
com Deus, pois, está escrito: A minha casa será chamada casa de oração.
(MT 21:13)
Infelizmente,
a descaracterização do “culto”, quando não está coligada com o nome da placa ou
nos “corinhos consumistas”, coliga-se aos rótulos dos eventos pseudo –
eclesiásticos, que variam de: tarde das bênçãos, noite dos milagres, culto da
vitória a campanhas dos “varejões das bênçãos”. A verdade é que, o estilo
"tudo que peço Deus me dá", ou "eu vim buscar uma benção" é
consumista, e revela um relacionamento distorcido com Deus, nosso Pai.
Creio que, COMUNIDADE
GOSPEL ALPENDRE DE BETESDA, seria o nome mais apropriado para “muitas” das
inúmeras denominações da atualidade, digo isto por conhecimento de causa e, nas
próximas linhas, estarei expondo os motivos que me levaram a chegar nesta
triste, mas, fundamentada conclusão.
A palavra comunidade [Do lat. communitate.] apesar de ser
empregada como sinônimo de Igreja, difere um pouco desta (dentro do sistema
lingüístico brasileiro), pois exprime o sentido de: grupo de pessoas que
comungam uma mesma crença ou ideal, ou seja, comunidade pode ser empregada
tanto para os cristãos, quanto para os ateus (comunidade atéia), budistas,
espíritas, etc. Já o termo Igreja (grego
εκκλησια ekklesia
e latim
ecclesia: "Eclésia") é utilizado de maneira
mais restrita e aplicada somente a comunidade dos cristãos.
Antes de prosseguir, quero deixar claro
que, não sou contra a utilização do termo COMUNIDADE, pois, sou sabedor de que este
substantivo deriva-se da palavra COMUM (pertencente a todos ou a muitos) e que,
uma das qualidades da igreja primitiva era terem tudo em COMUM (Atos 2:44),
entretanto, posso até ser taxado de arcaico, mas, continuo preferindo o termo Igreja
que, em linhas gerais expressa o sentido de assembléia os santos.
Infelizmente, até o dia de hoje, não
encontrei satisfatoriamente, a origem e a definição da palavra GOSPEL, se bem
que, são inúmeras as pessoas que sabem que o termo está associado ao povo
“evangélico”. Hoje em dia, quem nunca ouviu falar de – música GOSPEL, artista GOSPEL,
cantor e cantora GOSPEL, literatura GOSPEL e por ai vai? Como se percebe, a
onda GOSPEL invadiu o vocabulário da já volumosa e complicada língua portuguesa.
Gostem ou não, queiram ou não, esta palavra não deveria ser utilizada pelo povo
de Deus, pois, estes sempre foram conhecidos por – CRISTÃOS (aquele que professa o cristianismo), CRENTES (que leva demasiado a sério as suas obrigações, as coisas
em que se mete, e por elas tem entusiasmo, nelas acredita), EVANGÉLICOS (proclamadores do
Evangelho) e PROTESTANTES (que
protesta e não se conforma com este mundo – RM 12:2). Odiaria ser taxado de
GOSPEL, mas tenho orgulho de ser chamado de PROTESTANTE, por mais que o termo
soe forte.
ALPENDRE DE BETESDA era um alpendre pórtico, colunata
coberta onde o povo (enfermos: cegos, coxos e paralíticos - João 5:3) podia permanecer
ou caminhar protegido do tempo e calor do sol.
Os alpendres de Betesda possuíam
pelo menos três características que nunca deveriam ser encontradas nas
“denominações evangélicas”, mas, infelizmente, tais características estão cada
vez mais presentes nas comunidades gospeis.
Primeiro – Os alpendres de Betesda eram lugares de disputas: “... e o primeiro que ali descia,
depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse (João
5:4)”. Observe que o termo é bastante claro e sugestivo, o PRIMEIRO, portanto,
certamente havia disputas internas e externas (com os demais alpendres) para
ver quem seria o primeiro a pular.
O termo: PRIMEIRO (protos), possui pelo menos quatro classificações na
gramática portuguesa, são elas: numeral, adjetivo, substantivo masculino e advérbio,
sendo que, o dicionário Aurélio do Século XXI, emprega varias definições para
este termo, dentre as quais, cito: que antecede outros
quanto ao tempo, lugar, série ou classe; primário (ADJ); aquele que ganhou em
corrida ou competição. (S. M), portanto, ao se associar às definições do dicionário
com as descrições bíblicas: “... e o primeiro que ali descia”, torna-se
reforçada a tese de que, naqueles alpendres havia disputas.
Após refletir sobre tal coisa,
presenciar alguns fatos nas “comunidades” que já freqüentei e assistir a um DVD,
onde os organizadores do evento estamparam em um grande banner as fotos dos
pregadores e colocaram com letras bem grandes os disseres: “OS MELHORES
PREGADORES NACIONAIS E INTERNACIONAIS[2]”,
pus-me a pensar o quanto às denominações estão se assemelhando aos ALPENDRES DE
BETESDA. Hoje, já existem congressos onde somente pregam “os melhores” e exclusivamente
cantam os “maiores” – os mais famosos. Em tais congressos, a disputa é acirrada:
a melhor didática, a melhor exposição, o melhor terno (já tem até vermelho), o
melhor tema, o melhor “hino”, a maior oferta, o melhor lugar e até mesmo a
maior prebenda. Existem variadas competições internas e externas.
Há até “comunidades” que ficam de
olho nas agendas das outras, simplesmente para marcarem um evento na mesma
data, com isto, pretendem disputar a “audiência” e coibirem seus membros de
fazerem intercâmbios. E por falar em rivalidades, já presenciei dentro das
próprias comunidades disputas internas entre: conjuntos, grupos musicais,
coreógrafos e ministros. Existem pastores que se julgam tão grandes, que medem a
dimensão de seus ministérios com os números relativos a membresia
e a rentabilidade proporcionada por ela; tais homens estufam o peito para dizer:
quando eu assumi esta igreja a renda era X agora a renda é Y!
Ao presenciar tais aberrações, penso
que, seria por demais agradável se dentro das “comunidades”, as disputas só
girassem em torno de: quem orasse mais, quem jejuasse mais, quem ajudasse mais
os necessitados; entretanto, afirmo que nunca vi isto antes e, creio que,
infelizmente, nunca irei ver.
O desejo por competir, contrasta em
muito com os ensinamentos e desejos de Cristo, que intercedeu por seus
discípulos e por nós, dizendo: E não rogo somente por estes, mas também por
aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como
tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o
mundo creia que tu me enviaste. (JO 17:20, 21).
Observe que, na oração de Cristo,
Ele suplica ao Pai para que sejamos um (unidade), mas, infelizmente, a primeira
má característica dos alpendres de Betesda, pode ser notada até mesmo entre
aqueles que Ele escolheu: E houve também entre eles contenda sobre
qual deles parecia ser o maior. (LC 22:24) E não parou por ai, o
sentimento de competição encontrou “pouso” até mesmo na a igreja primitiva e, o
apostolo Paulo, ao iniciar sua primeira carta aos coríntios, mencionou as
dissensões que havia no meio dela:
Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de
nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa e que não haja
entre vós dissensões; antes, sejais unidos, em um mesmo sentido e em um mesmo
parecer. Porque a respeito de vós, irmãos meus, me foi comunicado pelos da
família de Cloe que há contendas entre vós. Quero
dizer, com isso, que cada um de vós diz: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu,
de Cefas, e eu, de Cristo. (1CO 1:10-12)
É impressionante o fato de que, em
tão pouco tempo, surgiu no seio da igreja de Corinto, quatro “partidos
políticos” (PP (Partido de Paulo), PA (Partido de Apolo), PC (Partido de Cefas) e PJC (Partido de Jesus Cristo)). Mas, graças a Deus,
no coração de Paulo havia o mesmo sentimento que houve em Cristo (FL 2:5) e,
sendo assim, ele rogou aos irmãos de Corinto, para haver entre eles o mesmo
sentido e mesmo parecer e, finalizou a questão dizendo: Aquele que se gloria, glorie-se
no Senhor. (1CO 10:31)
É notória a discrepância entre
UNIDADE e COMPETITIVIDADE, pois, a unidade gera crescimento (AT 2:44), as
disputas causam divisões (1CO 1:10-12). A unidade gera companheirismo (1SM
14:7), as competições concebem inimizades (1SM 18:7-9). A unidade gera mutualismo
(LC 5:18), as disputas produzem egocentrismo (LC 10:31). A unidade gera amor
(JO 17:23), as rivalidades criam indiferenças (JO 4:9). A unidade gera cura (LC
5:20), as brigas rendem enfermidades (PV 27:3).
No seio da
cristandade não pode haver disputas, pois o nosso Mestre disse: “...
e, qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo”; (MT
20:27) e, no mais, PRIMEIRO é somente Ele: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o
fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (AP
1:8) e, é Ele, o único que também pode dizer que é MAIOR: “... e eis que está aqui quem é MAIOR
do que Salomão” (MT 12:42); “... e eis aqui está quem é MAIOR do que
Jonas”. (LC 11:32) e, “Pois eu vos digo que está aqui quem é MAIOR
do que o templo” (MT 12:6)
As disputas precisam ser
urgentemente erradicadas do meio “evangélico”. Devemos aprender com aquele que
mesmo sendo considerado MAIOR nascido de mulher, sabia que, aquele que é o
menor no reino dos céus é maior do que ele. (MT 11:11) e como prova disso
falou: É necessário que ele cresça e que eu diminua. (JO 3:30)
Segundo – Os alpendres de Betesda eram lugares de
egocentrismo: “... O enfermo respondeu-lhe: Senhor, não tenho homem algum que, quando
a água é agitada, me coloque no tanque” (JO 5: 7). Ao responder a
indagação feita por Cristo (Queres ficar são?), o paralítico, deixou
transparecer que naquele lugar não havia cordialidade: “... não
tenho homem algum que...”. Como diz o adágio popular, ali era: “cada um
por si e, Deus por todos”.
É bastante relevante o fato de
ninguém ter ajudado o paralitico em trinta e oito anos, ou seja, ninguém ficou comovido
com aquela situação. Este pormenor gera dentro de mim duas perguntas: Onde
estavam os familiares, amigos, colegas e religiosos? Como pode alguém sofrer
tantos anos e não ser ajudado?
Infelizmente, só existe uma resposta:
- aquele recinto estava repleto de pessooas egocêntricas (diz-se daquele que
refere tudo ao próprio eu, tomado como centro de todo o interesse; personalista)
e, ao chegar nesta conclusão, lembro-me novamente do: “eu vim buscar uma
benção!” E, mais uma vez tenho que exclamar: - Como as “comunidades gospeis”
estão cada dia mais parecidas com os alpendres de Betesda!
É totalmente deplorável e
antibíblico o individualismo e a insensibilidade humana; aliás, no dicionário
de Cristo, não existe espaço para o egoísmo humano, pois todo o seu vocabulário
consiste em: ajudar, interceder, doar, auxiliar, conceder, repartir, dividir e
socorrer. Na autentica comunidade cristã não há espaços para pessoas que não estendem
as mãos para os necessitados; veja o relato de Lucas: Não havia, pois, entre eles
necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as,
traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. (AT
4:34)
É chegado o momento de deixarmos de
lado o EU e, para isto, devemos seguir o conselho dado por Cristo ao jovem
rico: “... vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no
céu; e vem, e segue-me” (MT 19:21). É hora de: - repartirmos as nossas
túnicas e os nossos alimentos (LC 3:11); de pegarmos os enfermos e levá-los até
Cristo e, se a “casa” estiver cheia, carregá-los até o telhado e depois
descê-los até a Sua presença (LC 5:17-26). É tempo de dar água ao sedento,
comida ao faminto, vestes aos nus e realizarmos visitas aos encarcerados.
Precisamos imitar Abraão, que deixou de lado os seus desejos e suas vontades
para interceder pelo seu próximo (GN 18:23-33) e seguir o exemplo do bom
samaritano que, se compadeceu do necessitado e o ajudou. É hora de olharmos
para os nossos irmãos e meditarmos na inquirição de João: “... Quem, pois, tiver bens no
mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como
estará nele o amor de Deus?” (1JO 3:17)
Terceiro - Os alpendres de Betesda eram lugares de
interesseiros: “... Nestes jazia grande multidão de enfermos: cegos, coxos e paralíticos,
esperando o movimento das águas”. (João 5:3) Gostaria que você
atentasse para o fato de que, cada um estava ali apenas esperando o movimento das águas,
e excepcionalmente, muitos que se rotulam “cristãos” estão se reunindo nos
alpendres, ou melhor, nas “comunidades” exclusivamente para buscarem suas bênçãos
e satisfazerem os seus deleites.
Novamente
quero levantar uma discussão: - Como Deus vai operar num lugar onde o povo só
está ali para receber a “vitória, a benção?”; o pastor só está ali para
administrar e retirar dali o sustento? O pregador só está ali para exibir seus
conhecimentos e receber a prebenda no final da mensagem? O cantor só está ali
para ganhar o cachê e vender os seus cd’s e o artista só está ali para não sair
de cena e não perder a fama?
Quando nos
reunirmos, o nosso culto tem que ser racional (RM 12:1) e, o nosso único
interesse deve ser – adorá-lo e reverenciá-lo, por isso, devemos substituir o
“cântico”: eu vim buscar uma benção, por: te louvarei não importa as
circunstancias, adorarei somente a ti Jesus; é necessário arrancar de nosso
vocabulário a frase: determine sua vitória e, dizer como o apostolo Paulo: “Porque
dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele
eternamente. Amém”. (RM 11:36) E mesmo que as coisas “parecem” caminhar
para o pior, temos que plagiar o profeta Habacuque: “... ainda que a figueira não
floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não
produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não
haja vacas, todavia, eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da minha
salvação”. (HC 3:17,18) É preciso ter a convicção de Jó e dizer: “...
Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra”.
(JÓ 19:25)
Que a
graça de Deus sempre superabunde em nós!!!
Pr. Sylas
de Souza Neves
[1] Strongs à 2999 latreia
- 1) serviço retribuído por salárrio 1a) qualquer serviço ou ministério:
o serviço a Deus 2) serviço e adoração a Deus de acordo com os requerimentos da
lei levítica 3)
realizar serviços sagrados
[2] Foto extraída do DVD intitulado: Sua
vida pode ser formidável do Dr. Silmar
Coelho.