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Nossos direitos

O doutor Affonso (assim mesmo: com dois "efes") � um burocrata muito esperto. � desses de quem se diz "um sujeito muito bem articulado". Conhece ministros, diretores, altos burocratas e vai sobrevivendo muito bem fazendo o menos poss�vel e quase nada. J� foi promovido v�rias vezes por merecimento. Fez um sem n�mero de visitas t�cnicas aos mais diversos pa�ses estrangeiros (!) com passagens e di�rias pagas pelo contribuinte. Cada viagem foi, no dizer dele, "uma esb�rnia total!". Em suma: � um funcion�rio exemplar.

N�o faz muito tempo, ele passou v�rios dias (alguns colegas falam em v�rias semanas, outros falam em muitos meses) elaborando um documento t�cnico depois encaminhado � diretoria. O documento ficou com muitas p�ginas. Nele, havia apresenta��o, sum�rio, ap�ndice e essas coisas todas que servem para ocupar tecnocrata ocioso. As id�ias gerais do documento foram resumidas e resultaram nisso que vai a� embaixo.

"Veja s� uma coisa: o ano tem 365 dias de 24 horas cada um, n�o � mesmo? Vamos ent�o fazer umas continhas.

Das 24 horas di�rias, 12 correspondem � noite. Dessa forma, ficamos com a metade: 182,5 dias por ano. Mas vamos arredondar para 182 dias para tornar os c�lculos mais f�ceis. (Assim: 365 / 2 = 182,5)


O ano tem 52 s�bados e 52 domingos, ou seja 104 dias de s�bados e domingos. Subtraindo esses 104 dias dos 180 dias que encontramos no item 1. restam 78 dias. (Assim: 182 - 104 = 78)


Considere que n�s utilizamos, pelo menos, tr�s horas e meia por dia para o caf� da manh�, almo�o, jantar, lanche da manh� e da tarde. Isso d� um total de 53 dias por ano utilizados nessas atividades indispens�veis � nossa sobreviv�ncia. Subtraindo esses 53 dias dos 78 dias que encontramos antes ficamos com 25 dias. (Assim: 78 - 53 = 25)


Consideremos, tamb�m, que n�s despendemos, pelo menos, 90 minutos por dia para ir e voltar do trabalho — isso quando n�o pegamos um congestionamento. Total de dias nesse percurso: 22 dias por ano. Subtraindo esses 22 dias dos 25 obtidos no item anterior ficamos com 3 dias. (Assim: 25 - 22 = 3)


A essa altura, � f�cil notar que sobraram, apenas, 3 dias. Tr�s dias!


Ocorre que a legisla��o nos assegura o direito a 30 dias de f�rias por ano. E aqui come�am os NOSSOS problemas: � que quase nada restou para as nossas merecidas f�rias. E, como todos sabem, nossas f�rias s�o sagradas. Elas s�o imprescind�veis ao nosso restabelecimento depois de um longo per�odo de trabalho para recompor nossas for�as e preparar-nos para uma nova etapa de labuta.


E o que dizer dos feriados nacionais? E os dias santos de guarda? E, principalmente, o carnaval? E os dias reservados para ir ao m�dico, dentista, cabeleireiro, manicure, supermercado e boutique? E em caso de doen�a? Como fica a licen�a para tratamento de sa�de? E os dias de comemora��o dos anivers�rios dos filhos, dos amigos, da mulher (ou marido conforme o caso) e tamb�m do chefe (n�o se deve esquecer do chefe)? Como � que fica tudo isso? E os nossos direitos, hein?"
O documento elaborado pelo zeloso doutor Affonso ainda encontra-se em tramita��o no minist�rio. Segundo o servi�o encarregado de fazer o acompanhamento de seu percurso burocr�tico, o documento j� recebeu 382 despachos, 213 pareceres t�cnicos e 415 pareceres jur�dicos. Dois mil novecentos e vinte e dois carimbos j� lhe foram aplicados.

Espera-se, para breve, uma solu��o para os problemas levantados pelo nosso querido e diligente doutor Affonso.
  
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