<%@ Language=VBScript %> Trecho Três (um caso de amor) de Terra da Sulanca (ficção)

O amor vence todas as barreiras?

Terra da Sulanca

 

(extraído da ficção acima)

Trecho Três

 

      (caso de amor)  

 

 

A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes assim como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras (Machado de Assis)

...  

1971 ...

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              São João no Ypiranga. Mário, filho de Malaquias, dança muito com sua prima Letícia, filha de Conceição. É um par que tem sido visto com freqüência nas festas da cidade. Com o mesmo tamanho e a mesma idade, formam a panela e o testo na opinião de muita gente. Falam em namoro, mas eles dizem que não passam de amigos. De tanto ficarem juntos, acaba nascendo uma atração física entre os dois. Como já existe muita amizade, daí para o amor foi um passo.

            O casal é visto de braços dados em toda parte e o tempo todo, seja de dia ou de noite. É o que se pode chamar de namoro em tempo integral. Repouso só para dormir. Dizem até que Mário deixou o vício de fumar maconha, graças a Letícia. Quem não gosta de jeito nenhum desse namoro são os pais de ambos. Alegam que casamento entre primos não dá certo. Depois, eles precisam estudar ainda. São novos demais para casar. Essas coisas. O mais estranho é que os pais são amigos com nível de renda semelhante e do mesmo grupo político. Nos bares e nas praças as fofocas sobre esse namoro:

  • Eita grude danado esse namoro de Mário com Letícia!

  • Eles só vivem que nem unha com carne!

  • Onde estão, eles estão se beijando! Dois passarinhos!

  • Deve ser amor mesmo!

  • Isso vai dar em casamento, se não der em bucho logo!

  • Tá bom! Tudo rico e é do mesmo partido! Um gato com uma gata! Vem aí um bocado de gatinho!

  • Clóvis vive laçando a cabrita dele pra ela não ficar com o bode de Malaquias.

  • Oxente! Por que ele não quer?  Não é tudo rico, do mesmo partido? Se tivesse um pobre no meio, a gente ainda podia entender.

  • Ele diz que primo com prima não dá certo, e mesmo eles precisam estudar ainda. Não têm idade pra casar. 

  • O quê? Besteira! Quinca é primo de Amélia. Biu também é primo de Ana. E deu mais do que certo. Depois, pra casar, depois dos 18, não tem idade. Estudar, isso pode fazer depois de casado.

  • Dezoito? Bota isso pra baixo! Tem menina com 13 que já é uma mulher. Tem cabra com 14 que já faz outro. 

  • O mais engraçado é que Malaquias também é contra!

  • Oxente! Por que ele é contra?

  • A mesma conversa.  Sabe o que deve está por trás disso?

  • O quê?

  • Malaquias não quer esse namoro porque sabe que a filha de Clóvis não é mais de nada. Um cabra na festa de Santo Amaro em Taquaritinga tirou a honra dela atrás da rua, na beira do açude.

  • E por que Clóvis é contra?

  • Deve ser porque Mário é maconheiro, mas dizem que ele está regenerado.

  • Não tem essa história, não! Botou cigarro de maconha no bico, adeus! Não tira mais.

  • Sei não! Mário jura que deixou de puxar maconha.

  • Mas ele sabe que Letícia não é mais moça?

  • Sabe, mas vive dizendo que isso não quer dizer nada. O que vale é que eles se gostam. Só se é porque o caminho já está feito! Fica mais fácil...!

  • Ou se faz logo o casamento dos dois ou eles vão fugir, logo, logo.

  • Quem quer apostar? Eu digo que eles vão fugir em dois meses.

  • Quem é doido fazer essa aposta! Eu também aposto como eles vão fugir em dois meses.

  ...

 

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             Mário e Letícia continuam pressionados pelos pais, de todas as formas, para acabarem o namoro. Clóvis chega ao cúmulo de mandar a filha fazer um curso no Rio de Janeiro, sob pretexto de qualificá-la para sua empresa. Ele quer, no fundo, é que a filha, seduzida pela vida carioca, dê seqüência ao passo em falso dado em Taquaritinga. Torce para que ela volte do Rio com um diploma na mão e um filho na barriga. Habilitada desse jeito, seria largada logo por Mário.  Malaquias tem conduta parecida em relação ao filho. Manda-o para uma cidade do Piauí para gerenciar uma filial criada lá. Espera que Mário namore bastante e faça filhos por lá e volte casado ou amigado para Santa Cruz. Com isso, o namoro com Letícia findaria, deduz.

            Mas a distância ao invés de diminuir faz é crescer o amor entre os dois. Eles descobrem seus endereços e telefones. E haja mensagens como estas:

 

"Querida Letícia:

 

            Nunca tiro você de minha cabeça! Nunca mais vou esquecer você. Parece que a vejo sorridente nos bailes. Onde estou vejo sempre você em meu pensamento. Há dez meses estamos distantes. Conto os minutos e as horas em que vamos nos encontrar. Separados, estamos juntos no espírito. Nada mais pode nos separar. Por que nossos pais têm essa implicância conosco? É o que pergunto a cada minuto. Em breve, estaremos um ao lado do outro. Aí, então teremos de dar logo o passo definitivo, a fuga que vai nos unir para sempre. Saudades de seu Mário"

Ela responde no mesmo tom:

 

"Adorado Mário:

 

            Beijo-o muito como já fiz muitas vezes. Você marcou demais minha vida. Não vejo sentido em coisa alguma, se não tenho você a meu lado. Também conto os momentos que nos separam do encontro. Concordo com você: nada pode nos separar. Longe um do outro, estamos unidos no amor e no espírito. Respondo sua pergunta: nossos pais não entendem nossa união porque não conhecem o amor verdadeiro em sua exata dimensão. Espero em breve está a seu lado para darmos o passo definitivo. Mil saudades de sua Letícia".

...

 

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            Afinal, Mário e Letícia, há muito afastados um do outro, acham-se de novo em Santa Cruz. Juntos num sábado à tarde:

  • Chegou a hora, Letícia! Vamos fugir! É agora ou nunca!

  • Isso mesmo, querido!  Quando vai ser?

  • Nesta madrugada! De hoje para amanhã.

  • Ótimo! Tenho logo de arrumar a bagagem.

  • Não precisa levar muita coisa! Voltamos depois de dois ou três dias, já marido e mulher. Aí vai se acabar toda essa confusão, Letícia!

  • Como vai ser? Qual é seu plano?

  • Vamos no meu fusca! Às quatro horas da manhã. Três e meia, eu já estou pronto.

  • Seu pai não vai ouvir você tirando o carro da garagem?

  • Vai não! Vou dizer hoje em casa que o carro vai dormir na oficina, que está sendo feito um conserto nele. Mentira. Ele vai dormir no posto de gasolina.

  • E aí?

  • Levanto-me devagar pra ninguém ouvir! Deixo a porta encostada. Vou ao posto apanhar o carro.

  • E eu?

  • Saia de mansinho! Antes das quatro da matina esteja no posto para a gente pegar o carro e fugir.

  • O carro está bom?

  • Pronto, regulado na medida, com o tanque cheio.

  • A gente vai aonde?

  • Para o Recife onde se procura um lugar bom para ficar.    Depois, a gente vê o que faz.

  • Excelente!  

            Na manhã seguinte, tudo funciona como fora planejado. Pouco depois das quatro da madrugada, o fusca vermelho de Mário passa pela ponte alcança a pista. Zé Loló, guarda-noturno da rua do Pátio, fofoqueiro de primeira, vê tudo. Habituado a ver os dois namorados nesse veículo, estranha só que, àquela hora, estejam indo no sentido de Caruaru. Loló corre à casa de Clóvis, pai de Letícia, para informar a novidade. Ao chegar lá, acorda logo o médico:

  • Doutor, doutor! – diz a bater com certa insistência.

  • O que é? Remédio? Pode ir à farmácia! Tem gente dormindo lá. Se for doença pode me esperar lá, que daqui a pouco chego lá! O que é?

  • Não é doença, não, doutor! É notícia de Letícia! Ela parece que fugiu com Mário, faz pouco tempo!

            Ouvida a notícia, Clóvis, ainda de pijama, espirra como um raio e abre a porta a Loló que lhe conta com detalhes o percebido. Logo ele corre à casa de Malaquias, pai de Mário, que, por sorte, está na cidade:

  • Temos de agir, agora, já, Malaquias! Mário e Letícia acabam de fugir! Pode vir uma desgraça! Não temos tempo a perder! Vamos segui-los!

            Saem os dois na camioneta de Malaquias, com suas mulheres. Vão na direção de Caruaru. A notícia vaza para o povo. Em pouco tempo a cidade inteira sabe do escândalo a explodir como uma bomba:

  • Mário e Letícia fugiram! Os pais dos dois estão muito aperreados, que eles queriam tudo certinho. Foram atrás.

  • Esses ricos são engraçados!  Eram contra o namoro. Está na cara que não queriam o casamento deles. O que era que os dois tinham de fazer? Fugir. Agora, eles querem fazer o casamento!

            Pais no encalço dos filhos fujões saem em disparada louca. A poucos quilômetros informam-se sobre o fusquinha vermelho que alguns viram passar. Velocidade máxima. Em Toritama, nova informação: devem ter mesmo seguido para Caruaru. Nessa cidade, outra confirmação: foram em direção ao Recife. Ponteiro do velocímetro na velocidade maior. A camioneta parece uma bala. Na serra das russas, outro informe animador: o carro vermelho desceu há pouco tempo.

            Enfim, na entrada do Recife, avistam de longe o automóvel perseguido. Avançam para pegar os dois amantes. Em Boa Viagem, vêem quando o carro vermelho dobra à direita. Um sinal de trânsito fecha e faz perder o veículo de vista

  • Que vai acontecer, meu padim Cícero? Vamos pegá-los em tempo? – indagam os seguidores do casal fujão, enquanto aguardam, impacientes, o sinal abrir.  

...

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Página revisada em 14/04/2004

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