Fila de banda toca melhor em tempo de eleição...

 

    Estratégia eleitoral   

 

 

 

 

Aconteceu no Reino da Cajolândia

(golpe de mestre)

(conto político)

 

 

 

 

        Duas Foices, embora pouco conhecida, tem alguma projeção na agricultura. Situa-se na Cajolândia. Com imóveis rurais pequenos, em sua maioria, produz feijão, milho e algodão. Porém, gado para leite e corte é mesmo seu forte.  A completar o quadro uma classe de caminhoneiros a escoar a produção. No frigir dos ovos, o lugarejo tem peso na economia regional.

              Vez por outra há uma estiagem, castigando mais os pequenos, a ficarem entre o espectro da fome e a aventura de arribarem para outros lugares. No início de uma fase difícil dessa, o lugar pega fogo com as eleições municipais. Sua gente está toda metida na disputa.  O pleito é uma briga de foices mesmo. Mas só de boca. Bate-bocas, intrigas e apostas entre os dois grupos em disputa:  “galos pretos” e “galos pelados”.

            Galo pelado não conversa com galo preto e vice-versa. São rivais mesmo, sobretudo em época eleitoral. Não interessam as siglas partidárias reais, e sim a luta local. Se os galos pretos ficam no partido A, os galos pelados vão para a facção B e vice-versa.

            Se acaso o partido tem de ser o mesmo porque ambos os grupos buscam o apoio do governo estadual, jamais sobem no mesmo palanque. Advogados da redondeza, usam brechas da legislação e desenterram o mecanismo da sublegenda de ditadura passada. Nesses casos, alcunhas antigas podem ressurgir. Como amostra disso, veja-se um diálogo numa barbearia da vizinha Maniçoba:

            -- Esse ano em Duas Foices, galo preto é Arenga 1. Galo pelado é Arenga 2.

            -- Da outra vez, foi diferente: galo pelado era Arenga 1. Galo preto era Arenga 2.

            -- Isso de Arenga 1 ou 2 não vale nada mesmo. O que vale mesmo é a briga dos dois galos.

            -- Amaro do Feijão é o candidato dos galos pretos.

            -- E pode? Ele já é prefeito. Já tirou quatro anos na prefeitura.

            -- Agora pode porque já aprovaram esse negócio de reeleição. Nessa lei teve deputado que vendeu o voto adoidado...

            -- E como é que deputado vende voto?

            -- Pra aprovar a lei.

            -- E não sobrou nada pra os políticos de Duas Foices?

            -- Eles ganharam, que não são bestas! A rebarba que sobrou pra Amaro do Feijão deu pra ele enricar mesmo. Já Quinca do Leite, candidato dos galos pelados, ganhou um caminhão novo. Está rico também.

            -- Agora, Amaro tem muito mais dinheiro. Ele diz que, se dinheiro valer, ele vai ficar na prefeitura e Quinca vai pra o brejo.

            -- Não é porque eu torço pelos galos pelados, não, mas eu acho difícil, dessa vez, galo pelado não ganhar. O dinheiro de Amaro não vale nada. O povo quer Quinca mesmo. A pesquisa deu dois mil votos de frente pra Quinca.

            -- Já eu acho que Amaro está jogando uma sueca com dois trunfos pesados na mão pra ganhar o jogo: prefeitura e mais dinheiro.

            Amaro faz seu plano em reunião reservada com os galos pretos:

            -- Pessoal, falta um mês pra eleição! A gente tem que cair em campo logo pra ganhar!

            -- Como a gente pode ganhar, chefe se parece que o povo está mesmo enrabichado por Quinca? A pesquisa deu frente pra ele de dois mil votos. A gente vê isso nos comícios toda noite. O que a gente pode fazer é trazer mais gente de fora pra os comícios dos galos pretos. Mas isso resolve?

            -- Isso não dá certo! Gente de fora não vota. O que vale é voto mesmo. Transferência não tem mais. Transferi mais de mil eleitores de Maniçoba. Mesmo assim, tem dois mil de diferença. A pesquisa serve pra gente ficar por dentro da situação.

            -- O que é que o senhor vai fazer, Chefe?

            -- Comprar votos. Uns dois mil votos. Pela pesquisa, os galos pelados têm sete mil e a gente, cinco mil.  Botando dois mil, o negócio vira.  Galo pelado fica com cinco mil. A gente é que vai pra sete mil.

            -- Como é que o senhor vai fazer, Chefe?

            -- Já reservei 200 mil patacas pra ganhar a eleição.

            -- Precisa isso tudo, Chefe?

            -- Precisa pra não ter dúvida! Do meu bolso só tem a metade. O resto é viração: compra de nota, de recibo, nota aumentada, venda de cimento, essas coisas. Por favor, isso não é roubo. É viração, que cada um se vira como pode. O meu eu tiro mais na frente.

            -- A gente sabe disso, Chefe: viração é viração Só não se vira quem já morreu.

            -- Pois é!

            -- Chefe, esses fiscais do governo não vão ver os papéis da prefeitura? Vai dar tudo certo?

            -- Vão ver, mas vai está tudo certo, bonitinho, que eu não sou otário pra deixar rastro pra esses vagabundos verem! Pra isso eu pago bem, pra deixar tudo em ordem. Esses fiscais babacas só querem saber de papel, olhando se está tudo certo, bonitinho, os carimbos no lugar, como diz a lei. Como papel não fala...

            -- Como é que vai ser, Chefe?

            -- 100 patacas pra cada voto comprado. Pra dois mil votos dá 200 mil patacas. No mato tem muita gente sofrendo com essa seca. Mas o que é que a gente vai fazer? Comprar esses votos a quem ia votar nos galos pelados. Preciso de 20 homens pra fazer isso. Vinte homens de ouro. Cada um vai comprar 100 votos. Garantida minha vitória, cada homem desse vai ganhar 200 patacas. Dou do meu bolso.

            -- Chefe, eu não quero botar caroço no seu angu, mas eu acho que uma coisa pode atrapalhar tudo.

            -- O que é? Pode dizer. Aqui é democracia! Fale!

            -- O cabra pode receber os 100 e votar nos galos pelados, que o voto é secreto e esse pessoal é apaixonado, Chefe.

            -- Você tem razão! Isso de comprar voto pode não dar certo. A gente sabe disso: quem é galo preto ou galo pelado não vota no outro lado, de jeito nenhum. A gente tem de arranjar outro jeito.

            -- Tive uma idéia, chefe! A gente dá os 100 e fica com título do cabra pra ele não votar. O título a gente só entrega no fim da eleição.

            -- Isso podia dá certo se o cabra só votasse com o título, mas todo mundo sabe que sem título também pode votar. Basta ser eleitor da seção.

            -- A gente podia deixar um fiscal da gente em cada seção000 pra não deixar o cabra votar sem título. Aí dava tudo certo...

            -- Não pode fazer isso. Ninguém pode proibir o cabra de votar. Se a gente for fazer isso, vai ser muita briga, e a gente pode sair perdendo. O Juiz pode prender muito fiscal da gente. E muito cabra sem título vai terminar votando.

            -- Quer dizer que não tem jeito, chefe? A gente está perdido mesmo?

            -- Perdido nada! A eleição é daqui a um mês. Já marquei os vinte homens de ouro. Os vinte botem a cabeça pra funcionar. Se lembrem que só podem receber se eu ganhar a eleição. Caiam em campo. Só quero falar nesse assunto depois da vitória.

            Pleito realizado. Era evidente a vitória dos galos pelados, a festejarem o resultado antes. Abertas as urnas, veio a surpresa: onde se esperava uma diferença folgada para os favoritos, a vantagem foi pequena, insuficiente para tirar a margem a favor dos galos pretos em seus redutos, a qual se manteve sem alteração.

            Resultado final: vitória de Amaro do Feijão com frente de 1085 votos e abstenção alta, bem maior que a de pleitos passados. Passeatas dos galos pretos até à noite seguinte com os habituais insultos aos poucos adversários, ainda a ficarem no lugar. Os galos pelados, abatidos pela derrota inesperada, correm em sua maioria para o mato, a fim de lá curtirem suas amarguras. Na manhã imediata, baixada a poeira dos festejos, uma extensa fila se forma em frente ao comitê dos vitoriosos, com este papo entre dois galos pretos:

            -- Que fila é essa, compadre?

            -- É a fila da banda, compadre.

            -- Da banda? Toda essa gente é músico? Aí só tem matuto.

            -- Não é de músico, não! Agora, pode até ter algum músico no meio. Um cantador de folheto ou violeiro. Vou lhe explicar tudo direitinho como um dos vinte homens de ouro que fui.

            -- Vou ouvir. Conte.

            -- A gente andou pelo mato dando dinheiro pra o cabra não votar. Uma nota de 100 patacas a cada um dentro dum envelope.

            -- Sim, mas vocês ficaram como fiscais nas seções proibindo que esse pessoal fosse votar?

            -- Não podia fazer isso, não. A gente ficou na seção só anotando o nome de quem recebeu os 100 e tivesse ido votar, sem proibir de votar. Mas ninguém que recebeu os 100 foi votar.

            -- Como não foi, se todo mundo que recebeu esse dinheiro era galo pelado e todo galo pelado é um apaixonado?

            -- Aí é que está o segredo, compadre. A gente fez um trato com quem recebeu a grana.

             -- E o trato de boca valeu?

            -- Valeu! .

            -- E deu certo isso?

            -- Deu que só vendo.

            -- Como pode ser isso?

            -- A gente botou a cabeça pra funcionar. Fez o trato do papel rasgado. E a coisa foi uma beleza...

            -- Que papel rasgado foi esse?

            -- Dentro do envelope, o cabra só recebeu uma banda da nota de 100. Essa fila é pra receber a outra banda que só pode ser dada se o cabra não votou, e se a gente ganhasse como ganhou.

            -- Sim, senhor, compadre. Jogada sabida!. Fila da banda!

  FIM

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Cajolândia - país fictício

Patacas - moeda da Cajolândia.

 

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Atualizada em 05/04/2004

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