A visagem assombra as pessoas, mas atrai o progresso

 

Assombração

   

 

 

  (um ataúde preto na noite escura)

 

 (Conto tirado da Mala de Histórias)

 

 

Domingo, 19 de janeiro de 1941

 

             Começa a festa de São Sebastião no Pará, distrito do município de Taquaritinga do Norte no agreste pernambucano. De dia, festejos em cima da pedra próxima ao arruado. À noite, passeio na rua do lugarejo. No hotel de Chica, o papo sobre a guerra, entre doses de zinebra com tira-gosto:

            -- A guerra dura demais. A carestia é braba. Tem mais a seca.

            -- Quando vai deixar de morrer gente?

            -- Quem sabe!.

            -- Por causa de quê é essa guerra? Vá ver que tem muito dinheiro e mulher no meio...

            -- Briga por mais terra.  Isso quer dizer muito dinheiro. Mulher mesmo não deve ter. É briga de país contra país.

                -- Agora, eu tive pensando: será que a guerra é por causa dessa seca danada? Quando chover, vai todo mundo plantar, se ocupar, se aquietar, e a guerra se acaba.

            -- Oxente!  Compadre, a guerra é nas Oropa, muito longe daqui, do outro lado do mar. Não tem nada a ver com a seca daqui.

             -- Ainda tem o desprezo dos governos. Parece até que no mato e nos arruados só mora bicho. Todo dia arriba gente pra o sul do Estado ou pra São Paulo. 

            -- Gente do mato nasceu mesmo pra sofrer! Tem a carestia, a seca, o governo que não faz nada e ainda tem esse mal-assombrado.

            -- É, mas o mal-assombrado não faz mal a ninguém. Pode fazer medo, se o freguês chegar perto. Morto não faz mal a ninguém. Vivo é que faz.

            -- Quando começou essa aparição?

            -- Em 1935. Toda novena de São Sebastião em noite escura como a de hoje. Quem passa na estrada que vai pra pedra vê um caixão preto de defunto com quatro velas acesas, a uns 300 metros do caminho, debaixo de um juazeiro. Aparece uma hora da madrugada e vai-se três e meia. De cima da pedra dá pra avistar.

            -- O compadre já viu quantas vez?

            --. Ainda não perdi uma. Da estrada dá pra ver bem a visagem. Agora, a gente se arrepia todo de medo.

 

...1944

 

            A assombração fica conhecida como o “mal-assombrado do Pará”. Vira atração turística.  Muita gente da vila vizinha de Santa Cruz vem ver o ataúde preto. De municípios próximos e distantes chegam pessoas, também. A maioria dos curiosos vai ver o fenômeno de cima da pedra, embora tenha de passar pela estrada, fechando os olhos ou virando a cara para não ver a visagem de mais perto. Muitos sobem a pedra logo cedo da noite, para verem a aparição apenas de cima.  É comum no Pará ou em Santa Cruz medir a coragem das pessoas pela distância com que viram a coisa:

            -- Tu já fosse ver o ataúde do caminho da pedra do Pará?

            -- Não! Nem quero ver!.

            -- Então, pra que essa brabeza toda?

            -- Ah! Isso é coisa do outro mundo!

            -- Pois é! Nessa história de alma do outro mundo, a gente vê muito brabo cagar fino.

             -- Onde ficasse?

            -- Em cima da pedra. Minha mulher foi ver da estrada quatro vez. Na última, ela teve uma piloura. 

            -- E tu ainda vai ver?

            -- Eu não, que eu passo mais de uma semana sem dormir direito, com sonho ruim toda noite! Passo umas três semanas aperreado, sem querer nada com a mulher.

               A coisa pode ser do outro mundo, mas produz bons resultados na vida cá da terra. O povoado do Pará já tem três pousadas razoáveis com dormida e refeições. O fenômeno torna conhecida a bonita e gigantesca pedra do povoado. Muitos a conhecem e gostam dela. Voltam lá mais por ela e menos pelo ataúde. O hotel de Chica fica sendo mais coisa do passado.

            Efeitos parecidos também ocorrem em Santa Cruz. O interesse pelas duas atrações faz nascer uma linha regular de marinete Santa Cruz-Caruaru e vice-versa, sem falar nos carros de aluguel envolvidos nesse negócio. O mesmo veículo cobre o percurso para o Pará.

 

Sexta-feira, 19 de janeiro de 1945.

 

              A segunda guerra mundial está por terminar. Os aliados avançam em suas conquistas, enquanto os alemães oferecem sua última resistência. Em pouco tempo, o mundo deve respirar aliviado com a paz afinal obtida. No hotel de Chica, o papo prolongado:

            -- O alemão está pedindo o penico. A coisa ficou preta pra eles que tem parte com o demo. O padre hoje no sermão pediu mais reza pra guerra findar logo.

            -- Essa guerra vai se acabar, se Deus quiser. A seca vai acabar também. Só falta se acabar o mal-assombrado pra gente ter mais sossego.

            -- Mas foi esse mal-assombrado que melhorou as coisas pra muita gente. Ele não faz mal a ninguém. Só faz medo a quem é afoito.  Deixe ele pra lá.

            -- Ele pode sumir, que o movimento vai continuar pela pedra.

            -- É. Ninguém tira mais essa pedra da cabeça dos ricos de muito lugar. Onde corre dinheiro é melhor pra todo mundo, que tem ganho pra todos.

            -- Vocês sabem de uma?

            -- O que é, Mané Moleza?

            -- Hoje é noite de festa de São Sebastião. A aparição pode ser hoje de madrugada. Não é mesmo?

            -- É, por quê?

            -- Porque hoje eu vou até lá ver o finado e acabar com esse mistério. Vou pegar no caixão preto. Ou eu carrego o defunto ou ele me carrega.        

            -- De que jeito, Mané Moleza? Tu tem medo de tudo! Onde, Mané, tu vai arrumar coragem?

            -- Vou ter coragem. Vou. Eu não bebo, mas vou tomar uma cachaça hoje só pra criar coragem. Não quero ficar bebo. Quero só ficar quente.

            -- Tem muito cabra macho que se mijou todo quando chegou perto da visagem. Como é que tu, mole que só o diabo, vai pegar no caixão?

            -- Quer apostar ?

            -- O quê?

            -- Esse relógio Lanco.

            -- Contra o quê?

            -- Qualquer relógio. O meu é bom, foi caro, mas topo com qualquer um.

            -- Tenho um quebrado. Não sei nem que marca é. Serve no pau?

            -- Serve. Apostado. Vamos casar agora mesmo.

            -- Certo.

            -- Quem quer apostar mais? Aposto minha espingarda de cartucho.

            -- Topo. Vou com a minha de carregar pela boca. Uma na outra. taco a taco.

            -- É agora mesmo. Me dá a tua, que eu dou a minha pra gente casar agora. Quem quer mais? Minha vaca dando leite com bezerro.

            -- Topo. Dois bodes meu contra tua vaca com bezerro.

            -- Aceito. Vamos casar. Vocês aqui são testemunha.

            Moleza está disposto mesmo. Aposta mais objetos, tudo que pode. Até sua tapera. Só a mulher não entra na jogada. E leva sempre desvantagem. Não faz questão disso. Parece ter certeza do resultado a seu favor. A falação continua:

            -- Mané, você tem que tem que pegar com a mão no caixão pra ganhar. Se não fizer isso, vai perder tudo. Todo mundo aqui é testemunha. Sabe disso?

            -- É isso mesmo. 

            -- Mané ou fica rico mesmo ou vai morrer de medo na tanga. Vai ficar correndo bem uma hora com medo do caixão preto. Vocês vão ver!

            -- Correr, nada! Eu vou é pegar no bicho e olhar pra cara do defunto!

            -- Gente, eu vou-me, que já é mais de dez horas e eu não quero ver a coisa, que eu tenho que passar na estrada.

            -- Eu, também.

            -- Eu, a mesma coisa.

            -- A gente vai meia noite pra cima da pedra espiar o negócio!

            -- A gente vai pra estrada pra ver a dor de barriga que vai dar em Mané. Se perder, tem que pagar. Como a gente é camarada teu, acho que você ainda pode se arrepender, Mané. Quer cair fora?      

            -- De jeito nenhum! 

            O pobre Mané deixa o hotel de Chica antes das onze, meio cambaleante, mais para lá do que para cá. Com pouco tempo, ele e mais alguns estão na estrada. A uma da madrugada, surge uma luz sob o juazeiro e, em seguida, as velas. No meio delas, o cenário de sempre: o ataúde preto. Expectativa geral. Dos dez que saem do hotel para ver a façanha de Moleza, quatro apresentam pretexto para ausentar-se. Os seis restantes torcem para o desafio acabar logo.

            Pressionado, o homem começa sua aventura louca. Dispensa qualquer arma, dizendo que para essas coisas de nada adianta armar-se.

            -- É coragem de pinga. Se a bicha se acaba dentro dele, a coragem some também -- ficam a dizer alguns que assistem ao espetáculo.

            Lá vai o homem em sua ingrata missão. Com passos inseguros, caminha uns duzentos metros. Mais uns cem. Enfim, chega bem próximo da assombração. O caixão, agora, se apresenta grande, horrível mesmo. O que Mané sente nessa hora não sabe dizer. É um misto de medo terrível e de coragem estranha que vem de fora dele. Afinal, seus pés estão perto do enorme ataúde. Dentro dele, um homem estirado com um chapéu cobrindo-lhe o rosto. Sente o cheiro de velas a arderem. Tem vontade de tirar o chapéu, mas falta coragem para tanto. Finalmente, toca no bicho com a mão. Nesse instante, percebe o falecido se mexendo como quem quer se levantar. Foi demais. Quem viu isso da estrada saiu correndo apavorado para mais longe. De imediato, Mané, todo urinado, cai ao solo em cima de uns pés de macambira, ficando entre dormindo e acordado, parado pelo medo, ouvindo o morto, ao se levantar, dizer:

            -- Mané Moleza. Não vou fazer mal a você. Venho é lhe agradecer por essa caridade. Faz 10 dez anos que estou nessa penitência. Sou seu compadre Inácio que bebia com você faz pouco tempo no hotel de Chica. Era tudo uma promessa pra São Sebastião, até que um filho de Deus, feito você, viesse até aqui e tocasse no caixão...

FIM


 

 

 

 

 

 

 

 

Pará - No presente pertence ao município de Santa Cruz do Capibaribe

Zinebra - Espécie de aguardente adocicada, corruptela de genebra

Santa Cruz - Denominada oficialmente de Capibaribe. Em 1953 virou cidade com o nome de Santa Cruz do Capibaribe. .

Lanco - marca de relógio muito conhecida na época

 

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Editada em 29/03/2004

 Revisada em 15/04/2004

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