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Diálogos sobre temas contábeis

 

  Nota:  parte dos diálogos de Lógica Contábil. O grafado em negrito refere-se à fala do instrutor Silva.

 
Diálogo 3

           

            Silva é do Conselho Fiscal do Condomínio do prédio onde reside. Defensor da lógica contábil, mantém sobre o livro Caixa este diálogo com o síndico:

            -- Algum erro, senhor fiscal? – indaga o síndico

            --  Nas contas, não.

            -- E contabilmente?

            -- Há um senão de ordem lógica que não invalida a exatidão dos dados.

            -- Senão lógico? Diga logo qual é, meu amigo?

            -- Você lançou no débito o quê?

            -- Os pagamentos.

            -- E no crédito ?

            -- As receitas . No final, botei o saldo do banco no débito para igualar.

            -- Há um engano.

            --Não está certo?

            -- Você inverteu as bolas. O que era débito colocou no crédito, e vice-versa. Feriu a lógica contábil.

            -- Vou acertar no mês que vem. Já que a gente está com a mão na massa, eu acho que a escrita incompleta. Tem o problema do dinheiro em banco. Como é que se pode fazer, seu fiscal?

            -- Há dois caminhos. Primeiro, abrir registros para o banco. Seria o Caixa do Condomínio no banco.

            -- Mas pode lançar tudo no caixa? Não seria mais simples?

            -- Seria o segundo caminho. É de fato o mais simples.

            -- Como seria esse segundo caminho?

            -- Todos os cheques e valores em espécie recebidos seriam débitos do Caixa. O saldo, também. Os depósitos, como saída, seriam créditos.

            -- Tudo bem! E os cheques para pagamentos?

            -- Na emissão, seriam debitados como entradas no Caixa para, depois, serem creditados neste como saídas para pagar a credores. Entram e saem quase ao mesmo tempo.

            -- E os pagamentos em dinheiro?

            -- Seriam créditos, saídas do Caixa.

            -- E os pagamentos feitos com cheques de condôminos, antes de depositá-los?

            -- Seriam saídas normais, créditos de Caixa, já que antes teriam entrado no Caixa como débitos.

            -- E os cheques devolvidos, os erros, essas coisas, como corrigir?

            -- Estornando.

           -- Você falou que a conta no banco é o Caixa da pessoa ou da empresa no banco. Então essa CPMF pega o dinheiro que sai do caixa da pessoa ou da empresa. É o mesmo que pegar o dinheiro que sai do bolso da gente ou da gaveta do comerciante. Isso é um absurdo!

            -- Você tem razão. Há ainda outras razões contra esse imposto, mas isso é outro assunto. Nosso tema é Contabilidade.

                Agora é Silva que toma a iniciativa:

            -- Quando entrei no banco, não havia computador. Era tudo feito à mão com ajuda de máquinas.

            -- Elétricas?

            -- Não, manuais. Muitas vezes, ficava com o braço cansado de tanto somar.

            -- E somava muito?

            --Todo mês tinha que somar todas as fichas de razão para conferir os saldos com os do balancete do último dia do mês.

            -- Eram muitas fichas?

            -- Só as do setor rural eram mais de cinco mil.     

            -- De que contas eram?

            -- De todas.

            -- E os balancetes eram diários?

            -- Sim.

            -- Feitos a partir de que?

            -- Do Diário e do Caixa, conjuntos de partidas (papéis), ordenados por dia.

            -- Mas havia Diário e Caixa? Por quê?

            -- O Caixa tinha os fatos em que havia entrada ou saída de dinheiro. Os extra-caixa eram o Diário .

            -- Dê um exemplo de Diário .

            -- Pois não! O débito dos juros devidos pelos empréstimos, a crédito  de receita. O crédito dos juros nos depósitos, a débito de uma conta de despesa.

            -- E havia juros sobre depósitos?

            --Sim!

            -- Quando o cliente pagava os juros, que registro era feito?

            -- Quando os juros eram lançados, débito na conta dele e crédito de receita. Quando pagava, débito no Caixa e crédito na conta dele.

            -- Como você aprendeu tudo isso?

            -- Entendendo o porquê do débito e do crédito. Nas horas de folga, ficava a folhear o Caixa e o Diário, buscando o  motivo de cada registro.

            -- No comércio e na indústria coisa é diferente?

            -- Apenas no enfoque, mas os princípios lógicos são os mesmos. 

            -- Você acha mesmo, Silva, que o nome balanço está errado?

            -- Errado, não diria. Impróprio, sim.

            -- Por quê?

            -- Balanço dá idéia de igualdade entre ativo e passivo. Isso é mais do que claro. Resulta das partidas dobradas: não há devedor sem credor, e vice-versa

            -- É mesmo.

            -- Posição Patrimonial ou Situação Patrimonial seriam nomes mais lógicos.

            -- Silva, por que Mercadorias é uma fonte de sonegação?

            -- Porque nela está, em geral, a principal receita da empresa, o chamado lucro bruto.

            -- Como se faz essa sonegação?

            -- Avaliando por menos o estoque, porque, quanto maior este, maior o lucro bruto e o lucro líquido, sobre o qual incide o imposto de renda.

            -- Se o total das despesas for maior que o total das receitas?

            -- Haverá prejuízo líquido.

            -- Quer dizer que o resultado bruto da conta estoques fica como receita?

            -- Exato, se positivo. Se negativo, é prejuízo.

            -- Sonega-se só o imposto de renda?

            -- Não. Por via indireta, outros impostos porque se vende sem nota para poder reduzir o estoque.

            -- Entendi o que é compensação, mas tenho uma dúvida. É o mesmo de compensação de cheques?

            -- Não, isso é outra coisa.

            -- Por que compensação de cheques?

            -- Porque compensar significa também tentar igualar débitos e créditos.

            -- Explique o porquê disso.

            -- Os bancos recebem cheques de outros bancos. Representantes de todos esses bancos se encontram, diariamente, para compensar, ou seja, trocar cheques.

            -- Comecei a entender.

            -- São as câmaras de compensação.

            -- Como isso funciona?

            -- Cada banco tem uma conta no banco que gerencia a compensação, em geral, o Banco do Brasil. Essa conta é debitada pelos cheques recebidos contra ele, e creditada  pelos cheques apresentados contra outros bancos.

            -- E os cheques sem fundo?

            -- Antes, emissários dos bancos vêem se os cheques contra seus bancos podem ser honrados. Devolvem os que não podem.

            -- E se um banco tiver não tiver créditos para honrar os débitos, ou seja, o valor dos cheques a acatar for maior que o valor cheques a receber?

            -- Nesse caso, se o saldo da conta do banco puder honrar o débito, tudo bem, Se não puder vai "estourar na compensação" e ter um prazo legal para regularizar a situação. Só depois disso, a compensação pode ser concluída em um dia ou mais. Só os cheques regulares são compensados.

             -- Silva, Você acha que os lucros das empresas deviam ser fixados por lei como um percentual sobre os respectivos custos. O que excedesse disso iria para os trabalhadores como uma forma de distribuir renda. Você não acha que essa sua proposta é um sonho  de uma noite de verão?

            -- Pode ser. Mas, já que não é proibido sonhar, vamos sonhar. Pode ser que um dia ela vire realidade. É pena que não devo estar vivo até lá.

            -- Mas você não acha que a inflação pode bagunçar seu modelo? Agora, ela está até controlada, mas, de repente, pode endoidar.

            -- De fato. A inflação pode estragar tudo.

            -- E agora, Silva?

            -- Acho que as escritas das empresas, pelo menos para fins legais, deveriam ser feitas em moeda constante. Isso resolveria a questão.

            -- Que é isso?

            -- Uma moeda que não sofre os efeitos da inflação ou, melhor, que absorveria sempre esta. Chamemos esta moeda de brasão, por hipótese. No começo ela valeria R$10. Com inflação de 1%, o brasão passaria a valer R$10,10, ou com 10% de aumento, subiria para R$11. E assim por diante.

            -- Agora, uma critica final. Você entrou, muitas vezes, em assuntos correlatos. Por quê?

            -- Porque nada existe de forma isolada, acho. Tudo está ligado a algo.

            -- Ficamos muito gratos pelas aulas  Daqui a uns seis meses, quando você se aposenta, o que você pretende fazer? Vai ensinar, trabalhar em outra coisa, o que vai fazer, afinal?

            -- Minha maior pretensão é voltar às minhas origens: residir no meu pedacinho de sertão, fazendo o que fiz até os dezoito anos, ou seja, criar bodes.

            -- Por quê?

            -- Porque vejo que nessas atividades rurais a verdade que busquei em mais de trinta anos de banco.

Diálogos 1 e 2

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Página revisada em 06/02/2004

 

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