Histórias do crime organizado e desorganizado

 

Barra pesada

 

 

        (histórias do crime organizado e desorganizado)

Aconteceu no Reino da Cajolândia

(conto político)

 

 

 

            A Cajolândia, depois de uma fase de muita inflação, estabiliza os preços. Mas vem um arrocho de salários a gerar desemprego sem fim. Parte da população sem emprego busca no crime a forma de sobreviver. O povo pacífico está desordenado e indefeso, mas os agressores estão organizados em maior ou menor dose. 

           A segurança pública segue a falência dos demais serviços básicos do país.  A classe média, sem poder ter sua segurança particular, é o alvo mais comum de assaltos. Os ricos sujeitam-se mais a seqüestros.  

           O Império, mais voltado para encher de bilhões os bolsos de agiotas, fica sem recursos para criar empregos. Isso agrava o quadro. Em mansão de bairro distante de grande cidade, chefões do crime organizado discutem suas operações sob as vistas de subalternos:

            -- Bem, pessoal! Somos três aqui, cada com seu reinado. Eu comando a distribuição de drogas no país e fora dele. Não tenho concorrentes à altura. Apenas fichinhas que vou eliminando...

            -- Como, Chefe?

            -- Tirando do caminho, derrubando!...

`           -- Matando?

            -- Não gosto de usar essa palavra. Prefiro chamar limpeza de terreno. Não faço essas coisas. Apenas ordeno. Tenho em todo país cerca de mil homens para fazer isso

            -- Isso tudo, Chefe?

            -- Mais os outros peões por fora.

            -- E a polícia, Chefe?

            -- Tem boa vontade, mas não tem meios nem grana para nos enfrentar.

            -- E a Justiça?

            -- Devagar demais. Quando ela começa a revelar um caso, a gente já está com uns quatro ou cinco na frente. A gente sempre dá de goleada nela!

            -- E as armas?

            -- Tenho o bastante. Agora, passo a palavra a meu amigo das incursões bancárias.

            -- Minha missão é obter fundos nos bancos para financiar nosso capital de giro e o de outras organizações. Não admito amador nessa área! Tem que ser profissional mesmo.

            -- Quer dizer que tem muito cabra amador que age só?

            -- Como tem! A esses damos chance de trabalhar para nós. Caso recusem, serão retirados do caminho. Mas essas ações isoladas continuarão existindo por muito tempo.  Agora, passo à palavra ao colega das ações de buscas estratégicas.

            -- Essas ações, que buscam também obter recursos, têm que ser muito bem-feitas. Qualquer passo em falso pode ser fatal, pois a polícia é bem-posta nesse aspecto.

            -- Algum concorrente no ramo?

            -- Poucos e incapazes.

            -- O senhor se preocupa também em limpar o terreno?

            -- Não é necessário porque a própria incompetência deles acaba fazendo isso. Em regra, brigam muito, se agridem e se matam quando não acabam na cadeia.

            -- Alguma tomada em vista?

            -- Duas previstas há mais de um ano. Devem ser as tomadas do século.

            -- Os alvos?

            -- Um banqueiro e um figurão da política.

            -- Quando vai ser?

            -- Pode ser ainda este mês ou pode demorar. Estamos apenas no aguardo da hora certa, porque não podemos errar.

            -- Quem são as figuras?

            -- Ah! Isso é segredo de Estado, digo melhor, de Império! A alma da tomada é a surpresa!

            -- O celular está tocando! É o seu, Chefe?

            --  É o meu. Alô!... A remessa de dólares? Ainda hoje chega segundo combinado. Vai via área com um “turista”. Todo obstáculo já foi afastado. Vai dar tudo certo! Até logo!

            -- Como vocês viram, nós três somos de áreas distintas, mas integradas. Mais uma vez, fica a ordem a vocês auxiliares: bico calado, sob pena de haver limpeza de terreno em cima de quem abrir a boca! -- retoma a palavra o primeiro Chefe.

            Enquanto isso noutra cidade do país, grupo isolado, sem tanta organização, discute num casebre da periferia:

            -- Vocês vão ver aqui tudo traçado. Aqui está o mapa.

            -- Qual é o banco dessa vez, Chefe?

            -- É esse aqui da esquina.

            -- Quantos homens são?

            -- Três pra entrar no banco.

            -- E os outros três?

            -- Ficam dando cobertura fora.

            -- Esses três de fora não correm risco?

            -- É o que você pensa. Para esses três, vou dar, uma hora antes, uma missão especial.

            -- Qual é?

            -- Depois eu digo.

            -- Chefe, estou pensando em deixar essa vida.

            -- Pra fazer o quê?

            -- Assaltos na rua ou mesmo arranjar um emprego.

            -- Você é doido! Assaltar na rua é perigoso e rende pouco. Isso é pra pé-de-chinelo. Quanto você tira aqui por mês?

            -- De duas a três mil patacas.

            -- Na rua você se lambe todo quando defende mil, se não for logo pra cadeia.

            -- Mas um emprego não tem risco nenhum.

            -- Mas cadê o emprego? Você mesmo foi demitido faz mais de um ano.

            -- Agora a inflação se acabou e a pataca vale muito...

            -- Acabou-se, mas se acabou o emprego também. Quem está empregado, pode está bem. Quem não está, fica na pindaíba. Depois, se você tiver a sorte de arranjar um emprego, vai ganhar a mixaria de 200 a 300 patacas por mês. Com esse dinheiro você vai é morrer de fome com a família.

            -- Sabe que é mesmo, Chefe! Vou ficar nessa vida até arranjar um dinheiro bom pra botar um negócio.

            -- Está certo! Agora, você falou! Também penso nisso. Acho que primeiro a gente deve lutar pra ficar independente. Tenho um negócio até bom, agora. Mas é preciso treinar um bocado.

            -- Qual é?

            -- Seqüestro relâmpago.

            -- Ah, eu quero entrar nisso!

            -- Estou catando o pessoal pra isso a dedo.

            -- Qual é a ordem mesmo, Chefe, quando chegar no banco?

            -- É como eu sempre digo! Agir depressa. Render todo mundo. Mostrar a todo mundo o cartão amarelo. Bala mesmo pra matar em quem se meter a besta, com qualquer pantim. Juiz de futebol só é respeitado quando usa logo o cartão!

            -- E a grana que a gente conseguir, Chefe?

            -- O chefe de vocês traz pra esse barraco. Quando chegar aqui, a gente faz a divisão conforme o combinado.

            -- Certo! E seu carro está bom?

            -- Meu carro não serve pra isso! Tem que ser um carro novo com muita velocidade!

            -- Onde a gente vai arranjar esse carro?

            -- Aí é onde entra a missão especial do trio de fora. De meio-dia pra uma hora, passa nesse sinal aqui no mapa um doutor careca com um carro vermelho novo, possante, que serve pra nosso caso. Tomar esse carro hoje sem choro nem vela!

            -- A gente vai entrar nessa de roubo de carro?

            -- É só pra a operação no banco. Depois, se larga esse carro. Agora, se o doutor reagir, bala nele pra matar!...De uma pra duas horas, vocês devem está no banco já com o carro. Entendido?

            -- Certo, Chefe!

            -- Então, sucesso! Que é isso? Que barulho é esse? Estão batendo aqui?

            -- É a polícia, Chefe! O barraco está cercado! Já estão atirando!

            -- Ih!... Pintou sujeira! Alguém aqui dedou! Vamos ver se a gente pode fugir. Se não puder, a gente se apaga, mas apaga também. Quem dedou, se não se apagar aqui, depois leva cartão vermelho!...


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cajolândia - monarquia fictícia.

Tomada - sequestro

Patacas - moeda da Cajolândia

 

visitas - estatísticas atualizadas desta página (clique ao lado):   See who's visiting this page.

 

Voltar ao início da página

Editada em 30/03/2004

Atualizada em 31/05/2004

 

Hosted by www.Geocities.ws

1