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Em
1986, depois de atuar por 11 anos como especialista em cirurgia
pediátrica, Fábio Gandour achou que sabia menos
do que desejava. Já havia trabalhado em vários hospitais
e participado de pesquisas que revelaram a causa de diversas deformidades
congênitas. Mesmo assim, percebeu que os seus conhecimentos
de Medicina seriam melhor aproveitados se aprendesse outra coisa:
computação. Loucura? Gandour especializou-se em
informática médica – uma formação
que, na época, soava absolutamente exótica. “Eu
era considerado louco por ser médico e me dedicar ao estudo
dos computadores”, diz Gandour.
Hoje,
obviamente, os computadores são ferramentas banais no dia-a-dia
de qualquer médico que se preze. Gandour, por exemplo,
na posição de diretor executivo da IBM para a indústria
de saúde na América Latina, recebe de todo o mundo
diagnósticos de tumores apoiados em animações,
som, links e outros badulaques digitais que transformaram para
sempre a sua profissão. A história de Gandour é
exemplar: dentro de 30 ou 40 anos, as carreiras isoladas deixarão
definitivamente de existir e os cargos realmente quentes serão
ocupados por profissionais que dominem áreas tão
distantes entre si quanto o Direito e a Biologia, as Artes Plásticas
e a Matemática. “Os profissionais de sucesso num futuro
muito próximo serão aqueles que conseguirem reunir
em si as habilidades de uma equipe inteira”, diz Oscar Motomura,
diretor geral da Amana-Key, consultoria especializada em gestão
empresarial, baseada em São Paulo. “O motivo é que
as tecnologias vão incorporar os mais variados tipos de
conhecimento”, diz, em consonância, Ted Selker, professor
do Medialab do Instituto de Tecnologia de Massachusets (o famoso
MIT), Estados Unidos. “Haverá uma demanda enorme por gente
eclética, que saiba o suficiente de cada área para
orientar especialistas reunidos em grandes equipes de trabalho.”
A fusão de campos de conhecimento e a mistura de tecnologias,
responsáveis por essa revolução, já
estão, segundo Selker, nas lojas.
Pense um pouco: um celular pode parecer apenas um telefone portátil,
mas não é. Ele acessa a Internet, recebe e-mails,
toca música e ainda tem agenda, relógio e jogos
(sem contar os que também combinam com a roupa do dono).
Tudo isso faz com que o seu projeto não possa mais ser
assinado por um simples engenheiro elétrico, como até
há bem pouco tempo. A construção de um celular
exige, no mínimo, um engenheiro eletrônico, um designer
e um especialista em Internet.
Tente agora imaginar o que vai acontecer dentro de 40 ou 50 anos,
quando os carros saberão, sozinhos, achar o caminho de
casa e entrar na garagem. E a geladeira estiver conectada à
Internet (para registrar o que falta e mandar vir as compras do
supermercado). E os animais de estimação forem uma
mistura de gato angorá com buldogue, ou de gato siamês
com chiuaua, todos criados em laboratórios de engenharia
genética. Tudo isso está às vésperas
de acontecer: “Depois de 2050, talvez viajemos em naves com forma
de inseto, totalmente robotizadas. Elas se deslocarão com
a rapidez de um foguete mas, ao chegar ao destino, pousarão
com a graça de uma borboleta”, diz o físico americano
Freeman Dyson, da Universidade Princeton e consultor da Nasa.
“É o que se pode esperar da união futura entre a
Genética e a Robótica.”
Atento
às novas tendências tecnológicas, Ted Selker
já rabiscou o projeto de uma cama que será uma verdadeira
cápsula, com ambiente multimídia completo, capaz
de simular a alvorada e o céu estrelado, ou de tocar música,
projetar livros digitalizados e e-mails no seu teto. “Para desenhá-la,
vamos precisar de uma equipe que tenha até editores de
literatura e músicos”, afirma Selker.
As
profissões quentes do futuro
Que
nome terão os superprofissionais que tomarão a Terra
daqui a duas gerações? Analistas de biomecânica?
Farmaquiadores estatísticos? Psicoengenheiros? Seja qual
for, a receita do seu êxito será simples: bastará
reunir as informações que julgarem relevantes, chacoalhá-las
na cabeça e relacioná-las de forma criativa. “Não
será tão difícil quanto parece porque redes
inteligentíssimas de computador facilitarão incrivelmente
o acesso a todos os dados necessários”, diz Randy Bryant,
diretor da Faculdade de Ciências da Computação
de Carnegie Mellon, em Nova Jersey, Estados Unidos.
“O
desafio real estará em reunir todas as tecnologias disponíveis
para criar o inédito”, diz Motomura. “Eu apostaria que
a habilidade para isso virá do campo das artes, onde a
intuição é valorizada e o espírito
está conectado com a essência criativa.” “Também
pode ser crucial a formação crítica e humanista
de historiadores e filósofos”, afirma o sociólogo
Glauco Arbix, da Universidade de São Paulo. “Ela dará
orientação dentro da enxurrada de informações.”
Veja algumas das profissões que, em 2050, serão
as mais quentes do mercado, na opinião dos especialistas.
Eles delineiam os horizontes que a ciência e a tecnologia
estão abrindo para o mercado de trabalho dos nossos netos.
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