História, Cultura Organizacional e Comunicação
Paulo Nassar*
Por que a história empresarial e suas expressões documentais e orais estão ganhando cada vez mais importância para a boa gestão das empresas e instituições? Sem rodeios, a resposta passa pelo conceito mais simples do que é cultura organizacional, que é o conjunto de valores, crenças e tecnologias que mantém unidos os mais diferentes membros, de todos os escalões hierárquicos, frente às dificuldades, operações do cotidiano, metas e objetivos. Pode-se afirmar ainda que é a cultura organizacional que produz junto aos mais diferentes públicos, diante da sociedade e mercados, o conjunto de percepções, ícones, índices e símbolos que chamamos de imagem corporativa.
Em um ambiente empresarial atribulado, em que os cenários traçados pelos estrategistas das altas direções são, cada vez mais, meras incertezas, é preciso guardar como um verdadeiro tesouro tudo aquilo que constrói o imaginário de uma instituição ou empresa. Missões, visões de futuro, identidade, marca são expressões do discurso organizacional que estão permanentemente sob fogo cerrado de um incrível arco de fatores ligados principalmente às reestruturações de ordem econômica, social e política. E é no manejo desses leviatãs sociais que as organizações criam as suas histórias, as suas referências. Em meio ao mais forte movimento é que as empresas e instituições forjam os seus heróis, mitos, ritos e rituais. E as organizações que sistematizam o registro desses elementos ligados ao seu simbólico e as comunicam para todos os seus públicos têm as suas identidades fortalecidas, missões protegidas e destinos assegurados.
A qualidade total no tratamento da história organizacional não é só uma das principais condições para a perenidade de empresas e instituições; é também diferencial nos negócios, decisivo a favor de quem pode se apresentar para cidadãos, consumidores, imprensa, autoridades, sindicatos, comunidade e a outros públicos credenciais como tradição, portfólio de realizações e comprometimento com as sociedades locais.
Durante os anos 90, ocorreu em nosso país um verdadeiro crime contra centenas de acervos de importantes empresas e instituições. Em função da implantação descuidada de inovações organizacionais ligadas ao management japonês e americano – principalmente do programa conhecido como 5S, que em seu desenvolvimento prevê o descarte "de coisas velhas" – milhares de documentos, fotografias, máquinas e objetos foram simplesmente jogados no lixo, sem nenhuma preocupação com a preservação da memória organizacional. Ainda nos anos 90, os receios com os destinos de acervos públicos foram redobrados com o processo de privatização de dezenas de empresas estatais, a maioria delas ligadas diretamente ao desenvolvimento de cidades e regiões e também de inúmeros campos das Ciências Humanas e Exatas brasileiras. Para se ter uma idéia da importância desses tesouros organizacionais, basta lembrar a presença nos traçados urbanos de empresas dos setores de telefonia, gás e energia elétrica. Estudos e levantamentos nos arquivos de empresas como a Telefónica, Eletropaulo, Comgás são verdadeiros mergulhos nas histórias do Urbanismo, Arquitetura e Design do Estado de São Paulo.
Ao lado de inúmeras dúvidas sobre os destinos de acervos empresariais importantes para toda a sociedade brasileira, já pode ser detectado um forte movimento de valorização da memória organizacional. Dezenas de empresas e instituições, líderes dos seus segmentos de atividade, como a Gessy Lever, Embrapa, Sesc, Odebrecht, Chocolates Garoto, General Motors, CTBC Telecom, Eletropaulo Metropolitana, Companhia Vale do Rio Doce, Petrobras, Aventis Pharma, Asea Brown Boveri, Bradesco, Banco do Brasil, entre outras, já descobriram a força da história viva nos seus esforços de transcendência e validação das suas existências organizacionais. E, como conseqüência disso, estão colocando muito de suas energias na criação de museus, centros históricos e de documentação. Enfim, os gestores estão descobrindo que as empresas e instituições também produzem história.
*Paulo Nassar é jornalista, escritor, professor e diretor-executivo da ABERJE – Associação Brasileira de Comunicação Empresarial